Reflexão para o domingo, 2 de agosto

Época de Trindade

Referente ao Perícope Mateus 7, 1-14

“Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós.
E por que reparas tu no cisco que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o cisco do teu olho, estando uma trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então cuidarás em tirar o cisco do olho do teu irmão.”

Mateus 7, 1-5

O olho é um órgão muito sensível. Qualquer impureza nos incomoda bastante e nos impede de olhar o mundo. Um minúsculo grão de areia no olho pode ser tão dolorido, que faz com que a nossa atenção se volte completamente para essa sensação, talvez até tenhamos de fechar os olhos e não vejamos mais nada. Ter algo no olho e tentar ver o “cisco no olho do irmão” é, assim, algo impossível.
Isso é, fisiologicamente, assim. Mas, animicamente, não é assim que acontece, e muitas vezes ocorre até o oposto. Desenvolvemos uma atenção especial para as nossas fraquezas, precisamente quando outros também as têm. E não só desenvolvemos uma atenção, mas também uma aversão quando percebemos nos outros as fraquezas que temos, por vezes inconscientemente, em nós mesmos. Aquilo que fisiologicamente é impossível, “ver o cisco no olho do irmão e não reparar a trave no próprio olho” é, animicamente, a situação comum.
Por que isso é assim? Por que conseguimos ver tão claramente as fraquezas do outro, se nós mesmos não somos perfeitos? Isso ocorre porque não temos em nossa alma apenas as nossas fraquezas, mas também um sentimento do que seja o ideal do ser humano. Todos nós trazemos, profundamente semeado em nossa alma, os ideais humanos, aquilo que deveríamos ser, à imagem e semelhança divina, pela qual se iniciou a nossa criação. A realidade de todos nós é que ainda não realizamos esse ideal, pois ninguém é perfeito. Cada um está a caminho, com os seus dons e com as suas fraquezas. E cada um tem um pressentimento da meta a alcançar nesse caminho do ideal humano. Esse pressentimento do ideal é o que nos dá a possibilidade de perceber o que não está de acordo com esse ideal. Podemos reconhecer isso, apesar de que nós mesmos não sejamos perfeitos. Ver o cisco no olho do irmão é possível, apesar da trave em nosso próprio olho. Esse paradoxo é exatamente o que nos faz sermos seres humanos. Isso é possível porque temos em nós o pressentimento do ideal, e é o que oferece a possibilidade de nos desenvolvermos.
O problema não está em ver o cisco no olho do irmão. Está em não ver a trave no próprio olho. Podemos desenvolver uma atenção muito aguçada para as fraquezas dos outros e não perceber as nossas próprias. O presságio do ideal do ser humano, em nós, pode nos levar a duas direções: o conhecimento do outro e o autoconhecimento. Os dois caminhos são valiosos. Isso pode então nos levar a dois impulsos: querer educar o outro e a autoeducação. O impulso da autoeducação também é valioso, mas o impulso de querer educar o outro é a fonte dos grandes problemas sociais. Frutífero se torna apenas o caminho do autoconhecimento e da autoeducação.
O evangelho nos mostra um caminho sadio de desenvolvimento. Primeiro percebemos o cisco no olho do irmão, o que é normal. Mas essa percepção deveria nos ajudar a reconhecer a trave em nosso próprio olho. A percepção das fraquezas dos outros pode nos ajudar a ir um caminho de autoconhecimento. Então, nossa tarefa passa a ser a de tirar a trave do nosso próprio olho, ir um caminho de autoeducação. Então, e só então, teremos o direito de oferecer ajuda ao nosso irmão, para que ele próprio possa tirar o cisco do seu olho, caso queira aceitar a nossa ajuda.

João F. Torunsky

Reflexão sobre o salmo 104

“Minha alma, bendize o Senhor! Senhor, meu Deus, como és grande!
Revestido de majestade e de esplendor, envolto em luz como num manto.
Tu estendes o céu como uma tenda, constróis sobre as águas tuas moradas,
fazes das nuvens teu carro, andas sobre as asas do vento;
fazes dos ventos teus mensageiros, das chamas de fogo teus ministros.
Firmaste a terra sobre suas bases, para ficar imóvel pelos séculos eternos.
Com o oceano a envolveste como num manto, as águas cobriam as montanhas.
À tua ameaça fugiram, ao fragor do teu trovão tremeram.
Sobem os montes, descem os vales ao lugar que lhes determinaste.
Para as águas marcaste um limite intransponível, para não tornarem a cobrir a terra.
Fazes brotar as fontes nos vales e escorrem entre os montes;
dão de beber a todas as feras do campo e os asnos selvagens matam sua sede.
A seus lados moram as aves do céu, cantam entre as ramagens.
De tuas altas moradas irrigas os montes, com o fruto das tuas obras sacias a terra.
Fazes crescer o feno para o gado, e a erva útil ao homem,
para que tire da terra o seu pão: o vinho que alegra o coração do homem, o óleo que realça o brilho do rosto e o pão que sustenta o seu vigor.
Saciam-se as árvores do Senhor, os cedros do Líbano que ele plantou.
Lá os pássaros fazem ninhos e a cegonha no seu topo tem sua casa.
Para as cabras são as altas montanhas, as rochas são refúgio para os roedores.
Fizeste a lua para marcar os tempos e o sol que sabe a hora de se pôr.
Estendes as trevas e chega a noite e vagueiam todas as feras da floresta;
rugem os leõezinhos em busca de presa e pedem a Deus seu alimento.
Quando fazes o sol nascer, se retiram e se escondem nas suas tocas.
Então sai o homem para o trabalho, para sua fadiga até a tarde.
Como são numerosas, Senhor, tuas obras! Tudo fizeste com sabedoria, a terra está cheia das tuas criaturas.
Eis o mar, espaçoso e vasto: nele há répteis sem número, animais pequenos e grandes.
Percorrem-no os navios, e o Leviatã que formaste para com ele brincar.
Todos de ti esperam que a seu tempo lhes dês o alimento.
Tu lhes forneces e eles o recolhem, abres a tua mão e saciam-se de bens.
Se escondes teu rosto, desfalecem, se a respiração lhes tiras, morrem e voltam ao pó.
Mandas teu espírito, são criados, e assim renovas a face da terra.
A glória do Senhor seja para sempre, alegre-se o Senhor com suas obras.
Ele olha a terra e fá-la saltar, toca os montes e fumegam.
Quero cantar ao Senhor enquanto eu viver, cantar a meu Deus enquanto eu existir.
Seja-lhe grato meu poema; a minha alegria está no Senhor.
Desapareçam da terra os pecadores e não existam mais os ímpios.
Bendize o Senhor, minha alma!”

Salmo 104

Nesse salmo podemos acompanhar a gênesis, a criação dos céus e da Terra. O ser humano é mencionado duas vezes. É ele quem trabalha do levantar do sol até o começo da noite. Ele recebeu as plantas para o cultivo. Deve ganhar assim, sua vida pelo trabalho na Terra. Como produtos do trabalho do ser humano são mencionados o pão, o vinho e o óleo. Eles também são usados, como substâncias, nos sacramentos da Comunidade de Cristãos. O pão e o suco de uva (vinho) no Ato de Consagração do Homem. O óleo na Extrema Unção e na Consagração Sacerdotal. Com quais qualidades eles estão ligados?
O pão vem do trigo. O trigo cresce e une as forças da Terra e dos céus. Pelas raízes ele recebe os minerais e a água da terra e os transforma em sementes. Para isso, o trigo necessita a força solar. Ele sempre cresce em direção ao sol e, no final deste processo, precisa secar no calor. A semente do trigo está mais ligada ao elemento terra, ao seco. Após a colheita, várias ações são necessárias para transformar o grão de trigo em pão. O pão é um produto do trabalho humano na Terra.
As uvas também precisam do sol, mas, muito mais de seu calor. Elas amadurecem, protegidas do sol direto, pelas folhas da videira. Na uva é principalmente a água que se transforma através do calor. As uvas estão mais ligadas ao elemento água, ao líquido. O vinho é relacionado, no salmo, com o coração. Podemos sentir aí, uma relação com o nosso sangue.
As oliveiras precisam muito sol e calor. Essa força do sol ficará visível no óleo, na cor e na possibilidade de conferir brilho. Ele também tem a qualidade de fazer permeável. Por exemplo, ao passarmos óleo em uma folha de papel, observamos como ela se torna translúcida. Isso quer dizer: permeável à luz.
O que significam as qualidades do pão, do vinho e do óleo para os seres humanos? Uma das metas principais do ser humano é unir os céus à Terra. Com o trabalho das nossas mãos podemos tornar essa união frutífera para o mundo, podemos cultivar a Terra. Esse processo é representado pelo pão. O calor humano, a compaixão e o entusiasmo estão mais ligados ao nosso coração, eles podem pulsar em nosso sangue. Podem trazer vitalidade e impulsos para a nossa vida na Terra. Essas forças podemos ver no vinho. Pão e vinho podem se tornar no Ato de Consagração do Homem os portadores do corpo e do sangue de Cristo. Nos tornarmos permeáveis ao mundo espiritual, pode ser a maior tarefa nos dias de hoje. O óleo é o arquétipo dessa qualidade e por isso usado em dois sacramentos que estão no limiar entre a Terra e os céus.

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 26 de julho

Época de Trindade
Referente ao Perícope Marcos 8, 27-33

Nesta breve conversa com os discípulos, Pedro nos surpreende: Num primeiro momento ele diz: “Tu es o Cristo!”, mostrando assim que é capaz de explicitar o que com certeza pulsava talvez não tão claramente na alma dos demais discípulos, mas logo a seguir, repreende o mestre, exigindo que não pronuncie aquelas palavras, pois ele, Pedro, não quer que aquilo aconteça (compare-se aqui o paralelismo com a narrativa mais detalhada de Mateus 16, 22). Pedro, neste momento, se advoga o direito de pedir a Cristo que silencie, que Ele se cale…

Pode o ser humano pedir a Cristo que se cale?
Ele, que é o Verbo, a própria essência da Palavra, pode ser calado?
Que sentido haveria se a força da palavra se calasse?

O poeta e escritor argentino, Horacio Guarany, compôs certa vez os seguintes versos:

Si se calla el cantor calla la vida
Porque la vida, la vida misma es todo un canto
Si se calla el cantor, muere de espanto
La esperanza, la luz y la alegría
Se se cala o cantor, cala-se a vida,
Porque a vida, a vida mesma, é toda uma canção,
Se se cala o cantor, morrem de medo
A esperança, a luz e a alegria.

O poeta aponta em seus versos que há situações que não podem ser silenciadas. Calar-se significa omitir-se, não querer se comprometer com situações injustas e opressoras que estão à nossa volta, por medo ou por comodidade…

“… pois o Filho do homem teria que padecer muito, seria rejeitado pelos anciãos e príncipes dos sacerdotes, pelos escribas, e seria morto (por eles)”

São estas as palavras que Pedro tencionava “calar”…
Enigmaticamente, em nossa época, estamos vendo um massivo desmantelamento de incentivos e estímulos a muitas iniciativas relacionadas à vida cultural (também neste contexto se encontram as atividades religiosas) que subitamente, deixaram de acontecer de forma livre e aberta e que agora estão diante de enormes dificuldades para reencontrar um caminho de volta… Em nosso país, mais explicitamente, se preconiza abertamente a censura e a proibição a muitas formas de manifestação cultural e ideológica que contrarie a maneira de pensar “dominante” do momento. É importante estar atentos às tais tentativas de querer fazer calar o que é diferente ou discordante daquilo que pensamos. Pedro estava tão próximo das intenções do mestre, ao reconhecê-lo como o Cristo, o Messias, mas no momento seguinte ficou tão distante…

“… afasta-te Satanás, porque não compreendes as coisas de Deus!”

A atualidade desta narrativa do Evangelho (e de certo modo também do poema-protesto de Horácio Guarany) é surpreendente, se quisermos meditá-la à luz dos acontecimentos atuais. A essência do impulso espiritual que Cristo trouxe à Terra não pode ser calada, do contrário se “calaria” também a própria vida.

Que se levanten todas las banderas
Cuando el cantor se plante con su grito
Que mil guitarras desangren en la noche
Una inmortal canción al infinito
Que se levantem todas as bandeiras
Quando o cantor se instale com seu grito,
Que mil violões sangrem na noite
Uma imortal canção ao infinito

Que sempre nos seja possível lembrar que a mensagem de Cristo é comparável a um ‘canto’ que não pode nem deve ser silenciado pelo medo, pela opressão nem pelo comodismo. A tarefa é deixar soar Sua Voz, Sua Palavra, numa ‘canção’ que reverbere como mensagem do ser humano de volta ao infinito, ainda que para tanto tenhamos que suportar desafios e sofrimentos, inerentes ao próprio ato sacrificial de Cristo.

Renato Gomes

Segue abaixo o texto completo do poema, para aqueles que se interessarem.

Si se calla el cantor
Canção de Horacio Guarany, nome artístico de Eraclio Catalin Rodríguez Cereijo (Las Garzas, 15 de maio de 1925 – Luján, 13 de janeiro de 2017), foi um cantor nativista e escritor argentino. Esta canção tornou-se mais conhecida após a sua gravação pela cantora Mercedes Sosa.

Si se calla el cantor calla la vida
Porque la vida, la vida misma es todo un canto
Si se calla el cantor, muere de espanto
La esperanza, la luz y la alegría
Si se calla el cantor se quedan solos
Los humildes gorriones de los diarios,
Los obreros del puerto se persignan
Quién habrá de luchar por su salario
Que ha de ser de la vida si el que canta
No levanta su voz en las tribunas
Por el que sufre, ´por el que no hay
Ninguna razón que lo condene a andar sin manta’
Si se calla el cantor muere la rosa
De que sirve la rosa sin el canto
Debe el canto ser luz sobre los campos
Iluminando siempre a los de abajo
Que no calle el cantor porque el silencio
Cobarde apaña la maldad que oprime,
No saben los cantores de agachadas
No callarán jamás de frente al crimen
Que se levanten todas las banderas
Cuando el cantor se plante con su grito
Que mil guitarras desangren en la noche
Una inmortal canción al infinito
Si se calla el cantor calla la vida.

Reflexão sobre o salmo 8

Ó Senhor, nosso soberano,
quanto esplendor nos irradia de teu nome em toda a terra!
Tu, que expandiu a revelação do teu ser pelos céus.
Da boca das crianças e dos que mamam
Tu suscitaste a força contra teus adversários, para calar o inimigo indigno.
Quando contemplo os teus céus,
obra de teus dedos,
a lua e as estrelas que estabeleceste,
que é o homem, para que te lembres dele?
e o filho do homem, para que o acolhas?
Deixaste pouco faltar nele da dignidade divina, o coroaste de honra e revelação espiritual.
Deste-lhe domínio sobre as obras das tuas mãos, tudo puseste debaixo de seus pés, todas as ovelhas e bois, assim como os animais do campo, as aves do céu, e os peixes do mar, tudo o que passa pelas veredas dos mares.
Ó Senhor, nosso soberano,
quanto esplendor nos irradia de teu nome em toda a terra!

Salmo 8

O que é o homem?

Esta é a grande pergunta da nossa existência: quem somos nós?

Quando, numa noite estrelada, olhamos para o céu acima de nós e vemos a majestade do universo, o reluzir das estrelas, a pálida luz da lua…, podemos ser repletos de um sentimento: admiração!
Quando, de dia, olhamos para a natureza ao nosso derredor e vemos a beleza do mundo, uma pedra, uma planta, uma flor, um passarinho…, podemos ser repletos de um sentimento: admiração!

“quanto esplendor nos irradia de teu nome em toda a terra!
Tu, que expandiu a revelação do teu ser pelos céus.”

E o que é o homem? Quem somos nós?

A palavra homem vem do latim, e tem a ver com húmus. O homem é aquele que vem da terra. Mas, em grego, a palavra para homem é “antropos”, o que significa “o que olha para cima”. Os animais têm a sua cabeça voltada para a terra, já o homem superou a gravidade, se colocou em pé, ereto, e desenvolveu a possibilidade de olhar para cima.

O que é o homem?

Temos a nossa origem nos céus e, a partir dessa origem divina espiritual, podemos superar os obstáculos da vida, nos desenvolvermos como seres humanos. A criança recém-nascida ainda traz em si algo que nos deixa pressentir essa origem celestial do nosso ser.

“Da boca das crianças e dos que mamam
Tu suscitaste a força contra teus adversários, para calar o inimigo indigno.”

Mas, quando nos encarnamos, nós nos ligamos com a terra. Isso é necessário para nos desenvolvermos, mas traz o perigo de que realmente percamos a ligação com a nossa origem, com a “criança”, com os céus. Precisamos sentir em nós, existencialmente, a pergunta “o que é o homem? quem somos nós?”, e desenvolver a força de erguer a nossa cabeça, não somente num sentido exterior, mas interiormente, e olhar para os céus, para uma realidade divino espiritual.

“Quando contemplo os teus céus,
obra de teus dedos,
a lua e as estrelas que estabeleceste,
que é o homem, para que te lembres dele?”

Podemos ver o caminho do nosso desenvolvimento em três passos: éramos “crianças”, unidos com o divino, num estado paradisíaco. Nos encarnamos, nos ligamos com a terra e nos tornamos homens. Agora a meta não é voltar a sermos “crianças” negando a encarnação como “homens”, ou nos tornarmos completamente “homens terrestres”, esquecendo a nossa origem. A meta é, em liberdade, nos ligarmos com as forças da “criança” em nós, para que, como homens, possamos estar “grávidos de nós mesmos”, do nosso ser superior, e nos tornarmos “filhos do homem”.

“que é o homem, para que te lembres dele?
e o filho do homem, para que o acolhas?”

A grande diferença entre a natureza e o ser humano, está no fato de que a natureza é uma criação divina, a qual podemos admirar. Também nós fazemos parte da natureza e, assim, o esplendor da criação divina também está em nós. Mas, além disso, temos em nós uma potência criativa, que nos eleva da natureza: não somos somente criaturas, somos também criadores.

“Deixaste pouco faltar nele da dignidade divina, o coroaste de honra e revelação espiritual.”

Para o nosso desenvolvimento, esse dom divino espiritual de sermos criadores foi colocado na esfera da nossa liberdade.

“Deste-lhe domínio sobre as obras das tuas mãos”

Desenvolvemos a nossa cultura dominando sempre mais a natureza, criando a ciência, a arte e a técnica. Mas ter o domínio da natureza exige ter a responsabilidade por ela. A falta de responsabilidade no domínio da natureza nos trouxe os grandes problemas ecológicos do presente. Liberdade sem responsabilidade não nos leva a desenvolver o humano, mas, muito pelo contrário, nos torna desumanos. Nos encarnamos na terra, nos tornamos homens, e ganhamos a liberdade. O nosso desenvolvimento em liberdade pode nos levar em duas direções: usamos a nossa liberdade e poder criativo para desenvolver a qualidade humana em nós e nos tornarmos realmente seres humanos, “filhos do homem”, membros da hierarquia dos anjos; ou usamos a nossa liberdade e poder criativo para satisfazer os nossos desejos egoístas, perdendo a qualidade humana, nos tornando “animais” – na realidade, pior que os animais. A maior tarefa que recebemos quando ganhamos o domínio da natureza, é desenvolver o domínio do animal em nós.

“tudo puseste debaixo de seus pés,
todas as ovelhas e bois,
assim como os animais do campo,
as aves do céu, e os peixes do mar,
tudo o que passa pelas veredas dos mares.”
Começamos o nosso caminho no paraíso, diante da presença divina, como “crianças” podendo dizer:
“Ó Senhor, nosso soberano,
quanto esplendor nos irradia de teu nome em toda a terra!”

Nos encarnamos na terra, nos tornamos “homens” e vivemos com o grande enigma existencial: “que é o homem, para que te lembres dele?”

Temos, como meta, descobrir o poder criativo em nós, a força do nosso eu, a força do “Filho do Homem”, a força do Cristo, para podermos sermos co-criadores do ser humano e, em liberdade, aprender a superar a natureza animal egoísta em nós, aprender a amar.

Então, como “filhos do homem”, poderemos estar presentes novamente diante do Divino, e dizer:

“Ó Senhor, nosso soberano,
quanto esplendor nos irradia de teu nome em toda a terra!”

João F. Torunsky

Reflexão para o domingo, 19 de julho

Época de João Batista

Referente ao Perícope Mateus 14

Na vida seguimos em determinada direção fazendo planos para o futuro e cumprindo nossas tarefas com esperança de que poderemos tranquilamente chegar a bom termo com nossos planos. De repente, surge uma tempestade, não prevista que destrói nossos planos e nos remete a uma situação de emergência. Precisamos nos acalmar, nos recolher, buscar forças, remanejar, planejar de novo, buscar recursos externos e internos. Onde podemos encontrar forças? O que nos consola e traz paz interior para continuar? Será que a crise imprevista nos aponta para algo que havíamos ignorado? O que ela nos indica? O que negligenciamos? Pode ser que ela nos aponte justamente para o que é nossa missão, que no plano inicial não havia sido contemplada, ou talvez tenha ficado adormecida e precisa ser reavivada.
Quando Jesus soube da morte de João Batista ele se retirou para rezar e depois voltou a efetuar curas. Sobre a morte trágica e violenta que João sofreu, Jesus não pronunciou nenhuma palavra. Mas certamente em seu íntimo sentiu a dor da partida de seu amigo e precursor. Qualquer pessoa que tenha visto alguém com quem se importa morrer pode entender por que Jesus buscou a solidão quando soube da morte de João. Jesus viu no destino de João um prenúncio da cruz que estava no fim de sua vida na Terra. No entanto, como João, Jesus não se esquivou do custo de sua missão. João sai de cena, pois como ele mesmo havia dito ele devia diminuir para que Jesu pudesse crescer. Isso não significa que sua partida devesse ser de uma forma tão terrível. Mas a realidade espiritual por trás dos fatos é a que Jesus pôde vivenciar ao retirar-se. Constatou que João partiu da Terra, mas continuou presente em espírito, ele havia cumprido sua missão e deixava o palco para o que deveria seguir: a obra do Messias. Ao perceber a multidão que o seguia, não permitindo que pudesse ficar só em seu luto, poderíamos imaginar que lamentasse, mas ao contrário Jesus tem compaixão por aqueles que o buscam e, podemos dizer que ele honra o martírio de João ao continuar o seu trabalho e a sua missão, porque afinal era isso que João havia anunciado e indicado aquele que viria para tirar o pecado do mundo. Embora Jesus sofra a perda de seu querido amigo, seu sofrimento o capacita para cumprir seu trabalho. No meio de sua dor emocional, Jesus se voltou para fora, em vez de para dentro. Em vez de se entregar e pensar ‘ai de mim’, ele se volta para servir e amar as multidões. Na vida nós sofremos perdas, algumas muito dolorosas e é natural que nesses momentos queiramos apenas nos retirar para, no luto processar a perda. Mas a vida nem sempre permite essa retirada, ela continua com suas demandas. É necessário muita força de espírito para dar conta disso. Quando isso acontece podemos nos lembrar que aquele que sempre nos acompanha na alegria e no sofrimento nos consola, pois por experiência conhece o que sentimos. Ele é a fonte de onde retiramos força para continuar nossa jornada.

Carlos Maranhão

Reflexão sobre o Evangelho de João, 18 de julho

“Depois de comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro: ‘Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?’ Pedro respondeu: ‘Sim, Senhor, tu sabes que gosto’. Jesus lhe disse: ‘Cuida dos meus cordeiros’. E disse-lhe, pela segunda vez: ‘Simão, filho de João, tu me amas?’. Pedro respondeu: ‘Sim, Senhor, tu sabes que gosto’. Jesus lhe disse: ‘Apascenta minhas ovelhas’. Pela terceira vez, perguntou a Pedro: ‘Simão, filho de João, tu gostas de mim?’ Pedro ficou triste, porque lhe perguntou pela terceira vez se o amava. E respondeu: ‘Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que gosto’. Jesus disse-lhe: ‘Cuida das minhas ovelhas. Em verdade, em verdade, te digo: quando eras jovem, tu mesmo amarravas teu cinto e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás as mãos, e outro te amarrará pela cintura e te levará para onde não queres ir’. Disse isso para dar a entender com que morte Pedro iria glorificar a Deus. E acrescentou: ‘Segue-me’.
Voltando-se, Pedro viu que também o seguia o discípulo que Jesus mais amava, aquele que na ceia se tinha inclinado sobre seu peito e perguntado: ‘Senhor, quem é que vai te entregar?’ Quando Pedro viu aquele discípulo, perguntou a Jesus: ‘E este, Senhor?’ Jesus respondeu: ‘Se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa? Tu, segue-me’. Por isso, divulgou-se entre os irmãos que aquele discípulo não morreria. Ora, Jesus não tinha dito que ele não morreria, mas: ‘Se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa?’
Este é o discípulo que dá testemunho destas coisas e as pôs por escrito. Nós sabemos que seu testemunho é verdadeiro. Muitas outras coisas, porém, há ainda, que fez Jesus, as quais se se escrevessem uma por uma, creio que nem no mundo todo poderiam caber os livros que delas se houvessem de escrever.”

João 21, 15-25

Nesse final do Evangelho de João, Simão Pedro recebe a sua tarefa. Ele a recebe apesar de ter negado o Cristo três vezes. Apesar de não ter entendido a necessidade da passagem do Cristo pela morte. Como todos nós, Pedro tem dentro do seu ser, luz e sombra. Ele erra e nem sempre está no caminho certo. Mas, ele reconhece suas falhas e volta para o Cristo. Apesar dessas dificuldades, recebe uma tarefa importante. Cristo confia em Pedro e na possibilidade de seu desenvolvimento. Ele vê como Simão pode crescer com a tarefa.
Quando olhamos para a nossa biografia, vemos muitos momentos aonde erramos. Aonde não fizemos o necessário ou fizemos demais. Onde falhamos perante o outro ou perante nós mesmos. Isso nos pode deixar tristes e paralisados. Vemos mais a sombra do que a luz na nossa vida. Nesses momentos podemos nos lembrar de Pedro e da confiança do Cristo. Isso pode nos dar força para trabalhar nossos erros e superá-los. Os erros são uma grande possibilidade de nos desenvolvermos. Cabe a nós darmos os passos necessários. Pouco a pouco podemos nos fortalecer para realizar nossa tarefa de vida. Nela, o Cristo estará ao nosso lado.

Julian Rögge

Reflexão sobre o Evangelho de João, 17 de julho

“Depois disso, Jesus apareceu de novo aos discípulos, à beira do mar de Tiberíades. A aparição foi assim: Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado Gêmeo, Natanael, de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu e outros dois discípulos dele. Simão Pedro disse a eles: ‘Eu vou pescar’. Eles disseram: ‘Nós vamos contigo’. Saíram, entraram no barco, mas não pescaram nada naquela noite.
Já de manhã, Jesus estava aí na praia, mas os discípulos não sabiam que era Jesus. Ele perguntou: ‘Filhinhos, tendes alguma coisa para comer?’ Responderam: ‘Não’. Ele lhes disse: ‘Lançai a rede à direita do barco e achareis’. Eles lançaram a rede e não conseguiam puxá-la para fora, por causa da quantidade de peixes.
Então, o discípulo que Jesus mais amava disse a Pedro: ‘É o Senhor!’ Simão Pedro, ouvindo dizer que era o Senhor, vestiu e arregaçou a túnica (pois estava nu) e lançou-se ao mar. Os outros discípulos vieram com o barco, arrastando as redes com os peixes. Na realidade, não estavam longe da terra, mas somente uns cem metros.
Quando chegaram à terra, viram umas brasas preparadas, com peixe em cima e pão. Jesus disse-lhes: ‘Trazei alguns dos peixes que apanhastes’. Então, Simão Pedro subiu e arrastou a rede para terra. Estava cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes; e apesar de tantos peixes, a rede não se rasgou. Jesus disse-lhes: ‘Vinde comer’. Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar quem era ele, pois sabiam que era o Senhor. Jesus aproximou-se, tomou o pão e deu a eles. E fez a mesma coisa com o peixe. Esta foi a terceira vez que Jesus, ressuscitado dos mortos, apareceu aos discípulos.”

João 21, 1-14

Todas as noites dormimos. Nos despimos do nosso corpo e, como navegando num barco pelas ondas etéricas, procuramos no mundo espiritual a revitalização do corpo cansado, que ficou deitado na cama. Muitas vezes dormimos repletos de preocupações, mas também com a esperança de encontrar no sono um consolo: temos a esperança de acordar no outro dia com algo que nos possa dar uma orientação, com uma ideia que possa dar uma resposta para as perguntas que nos angustiam. Mas quantas vezes acordamos exaustos, como se não tivéssemos dormido, com a alma ainda repleta das mesmas preocupações que levamos ao sono, sem orientação, sem resposta, sem ânimo de levantar da cama. Às vezes trazemos da noite redes vazias.
Mas talvez, nesses momentos, quase antes de vestirmos o nosso corpo de novo, precisemos prestar atenção se alguém, além de nós e das nossas preocupações, está ali, na praia entre o mar etérico e a terra, no limiar entre a noite e o dia, esperando por nós. Quantas vezes não nos levantamos rápido demais, corremos para o nosso dia a dia, pensando em como conduzir a vida, mas na realidade sendo pressionado para seguir em frente, pressionados por tarefas e preocupações. Vale a pena fechar os olhos ao acordar e olhar para a praia, ver se Ele está lá. Quem sabe Ele, em silêncio, nos diz para qual lado devemos jogar a rede para, quem sabe, ainda conseguirmos pescar algo. Não precisa ser 153 peixes, pode ser apenas um, só um sentimento, um pensamento, um impulso; um peixe que nos mostre que não estamos sozinhos com as nossas preocupações. Quem já pescou assim, sabe a alegria que é, então, sentar-se na cama, sentir o calor das brasas no próprio coração e alimentar a alma com o peixe que Ele nos dá.

João F. Torunsky

Reflexão sobre o Evangelho de João, 16 de julho

“Chegada, pois, a tarde daquele dia, o primeiro da semana, e cerradas as portas onde os discípulos, com medo dos judeus, se tinham ajuntado, chegou Jesus, e pôs-se no meio, e disse-lhes: ‘A paz seja convosco.’ E, dizendo isto, mostrou-lhes as suas mãos e o lado. De sorte que os discípulos se alegraram, vendo o Senhor. Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: ‘A paz seja convosco; assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós.’ E, havendo dito isto, assoprou sobre eles e disse-lhes: ‘Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados lhes são perdoados; e àqueles a quem os retiverdes lhes são retidos.’
Ora, Tomé, um dos doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe, pois, os outros discípulos: ‘Vimos o Senhor.’ Mas ele disse-lhes: ‘Se eu não vir o sinal dos cravos em suas mãos, e não puser o meu dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei.’
E oito dias depois estavam outra vez os seus discípulos dentro, e com eles Tomé. Chegou Jesus, estando as portas fechadas, e apresentou-se no meio, e disse: ‘Paz seja convosco.’ Depois disse a Tomé: ‘Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a tua mão, e põe-na no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente.’ E Tomé respondeu, e disse-lhe: ‘Senhor meu, e Deus meu!’ Disse-lhe Jesus: ‘Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram.’
Jesus, pois, operou também em presença de seus discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.”

João 20, 19-31

Tomé quer saber. O que os outros dizem a ele não é suficiente. Ele não quer basear sua crença na ressurreição de Jesus no que os outros dizem. Ele tem uma mente crítica, a base de seu conhecimento é a dúvida. Ele quer provas, evidências, uma base sólida para o conhecimento. No entanto, após o encontro com Jesus, ele expressa sua fé de uma forma muito mais contundente do que seus pares: “Meu Senhor e meu Deus”. Aquele que duvidava e era o mais cético torna-se o mais profundo crente. Na verdade ele não necessitou colocar o dedo na ferida e tampouco tocar o lado de Jesus, bastou para ele o convite de Jesus para fazê-lo. Não é nem o toque nem a visão que ajuda na crença, mas o encontro.
Tomé, nesse sentido é um precursor do ser humano moderno. Nós também não queremos basear nossa crença em ouvir dizer, nos relatos dos outros, nas convicções dos outros, em dogmas ou determinações alheias. Nós queremos crer a partir de nossa própria vivência, em liberdade. E, como demonstra a passagem do Evangelho de João, Jesus não faz objeção a isso e até se coloca à disposição para isso. E, apesar de criticar essa atitude dizendo “bem aventurados os que não viram e creram”, ele se colocou e se coloca à disposição para os que querem experimentar para crer, porque afinal esses não querem apenas crer, mas querem saber. Esse saber não será resultado de evidências materiais como o tocar e o ver físico, mas uma vivência interior, mais profunda do que qualquer evidência material.

Carlos Maranhão

Reflexão sobre o Evangelho de João, 14 de julho

“Maria tinha ficado perto do túmulo, do lado de fora, chorando. Enquanto chorava, inclinou-se para olhar dentro do túmulo. Ela enxergou dois anjos, vestidos de branco, sentados onde tinha sido posto o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. Os anjos perguntaram: ‘Mulher, por que choras?’ Ela respondeu: ‘Levaram o meu Senhor e não sei onde o colocaram’.
Dizendo isto, Maria virou-se para trás e enxergou Jesus em pé, mas ela não sabia que era Jesus. Jesus perguntou-lhe: ‘Mulher, por que choras? Quem procuras?’ Pensando que fosse o jardineiro, ela disse: ‘Senhor, se foste tu que o levaste, dize-me onde o colocaste, e eu irei buscá-lo’. Então, Jesus falou: ‘Maria!’ Ela voltou-se e exclamou, em hebraico: ‘Rabûni!’ (que quer dizer: Mestre).
Jesus disse: ‘Não me segures, pois ainda não subi para junto do Pai. Mas vai dizer aos meus irmãos: subo para junto do meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus’. Então, Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: ‘Eu vi o Senhor’, e contou o que ele lhe tinha dito.”

João 20, 11-18

Maria Madalena está cheia de tristeza e voltada para a morte do Cristo Jesus. Ela está voltada para um acontecimento no passado e não está presente no momento do encontro. Isso a impossibilita de reconhecer o ressurreto. Ela conversa com ele e não percebe quem ele é. Somente quando é chamada pelo nome, consegue fazer uma ‘virada’ interna e reconhecer o Cristo. Ela está novamente presente e pode vivenciar o encontro.
Quantas vezes nós não estamos realmente presentes? Estamos voltados para o passado, para uma tristeza ou um machucado recebido. Isso nos impossibilita ver o novo que quer acontecer no momento. Em um encontro, uma conversa e a cada instante da vida.
Temos em nós uma instância capaz de chamar e dirigir o nosso eu cotidiano: nosso eu superior, nosso ser eterno. Ele está ligado à nossa tarefa na Terra e através dele o Cristo está presente em nossa vida. Ele pode nos chamar pelo nome como Cristo chamou Maria, para estarmos presentes e sempre abertos para o novo que quer se revelar e realizar no mundo.

Julian Rögge

Reflexão sobre o Evangelho de João, 13 de julho

“E no primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao sepulcro de madrugada, sendo ainda escuro, e viu a pedra tirada do sepulcro. Correu, pois, e foi a Simão Pedro, e ao outro discípulo, a quem Jesus amava, e disse-lhes: ‘Levaram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram.’
Então Pedro saiu com o outro discípulo, e foram ao sepulcro. E os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais apressadamente do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro. E, abaixando-se, viu no chão os lençóis; todavia não entrou.
Chegou, pois, Simão Pedro, que o seguia, e entrou no sepulcro, e viu no chão os lençóis, e que o lenço, que tinha estado sobre a sua cabeça, não estava com os lençóis, mas enrolado num lugar à parte.
Então entrou também o outro discípulo, que chegara primeiro ao sepulcro, e viu, e creu. Porque ainda não sabiam a Escritura, que era necessário que ressuscitasse dentre os mortos. Tornaram, pois, os discípulos para casa.”

João 20, 1-10

O discípulo que Jesus amava é mais rápido do que Pedro. Ele chega antes  e compreende antes – ele viu o túmulo vazio e creu na ressurreição de Cristo. Podemos nos perguntar: Por que Jesus o amava especialmente? Mas na verdade não se trata de ele ser amado especialmente, trata-se antes de ele estar mais bem preparado para compreender – ele está mais próximo de Jesus por seus próprios atributos e assim obtém dele um grau superior de compreensão. É, por essa razão que cultivamos um cristianismo joanino, pois sabemos que o discípulo amado não é outro senão João o Evangelista. O Cristianismo joanino pretende não ser apenas um Cristianismo de fé, mas um Cristianismo de compreensão. Não uma compreensão meramente intelectual, mas uma compreensão profunda que emana do coração. O ser humano moderno, com seu distanciamento de mais de 2000 anos desde os fatos descritos no Evangelho, prepara-se para uma nova etapa de compreensão daqueles fatos. Trata-se de uma compreensão a partir do indivíduo autoconsciente autônomo. Ele não crê por força da tradição, dos costumes ou por seguir dogmas, mas por sua própria vivência e proximidade com o Cristo que nele vive. Assim, podemos seguir nossos próprios passos de fé, em liberdade. Podemos receber de Cristo um novo impulso de motivação, de renovação e de confiança de que o nosso futuro depende dessa atitude positiva de compreensão. A partir dessa atitude, todos nós podemos ser os discípulos amados de Cristo.

Carlos Maranhão