Reflexão para o domingo, 18 de outubro

Referente à perícope da Apocalipse de João 12

Esta manhã, nuvens encobriam o sol. O dia começou cinza. Uma garoa fina deixava corpos e almas molhados, frios, entristecidos. Era difícil reter boas ideias quando a estupidez e a brutalidade espreitavam para abocanhar tudo. E à noite faltava o consolo das estrelas, derrubadas que foram pelas luzinhas portáteis, que replicam ilusões pelos sete cantos do mundo, que aprisionam a vontade com as dez correntes do medo, da dúvida e do ódio. Curioso dragão moderno, que não precisa rugir nem cuspir fogo em para dominar.
No deserto da solidão, a alma se recolhe. Tateia nas trevas procurando chão. E na noite escura, sem lua, surge da lembrança o crescente, pequenino, com brilho delicado, mas firme o bastante para servir de apoio ao pé sem chão. Nesse brilho, há força para crescer. Crescente de lua das memórias e vivências de tempos passados, cujo brilho não é próprio (também no céu a luz do crescente de lua não é própria), é sinal presente de luzir futuro.
Pequeno sol interior, embrionário, gerado no fogo do coração, que não se deixou intimidar pela fúria dos dragões de ocasião, precisa de tempo, precisa de cuidado.
O dragão não tem tempo, ele o teme. O tempo da alma é dom dos anjos, dos arcanjos e de todos os mensageiros divinos. Esse tempo se dilata, aprofunda e cria novos espaços. Lugares onde as estrelas tornam a cantar sua música inspiradora e — em lógica invertida — o que havia envelhecido, rejuvenesce. A alma jovem concebe o sol interior. Cristo-Sol, irmão gêmeo do próprio ser.
O dia lá fora continuava cinza, pareceria que tudo permanecia igual… Mas o fogo, criador de seres, revigorava as forças, aquecia a esperança e gerava a mudança que conduz ao futuro.

Renato Gomes

Reflexão para o domingo, 11 de outubro

Referente à perícope da Carta de Paulo aos Efésios 6, 10-14

A armadura de Deus

O medo, seja medo de guerra, de crimes, de doença ou de qualquer outra natureza, parece ser um sentimento constante na existência do ser humano. Somente a criança pequena, nos seus primeiros anos de vida, sente-se dentro de um universo de paz e de segurança.
O apóstolo Paulo enfrentou em suas viagens todo tipo de perigos e de privações, como ele relata na segunda epístola aos coríntios (11, 24-27). Ele conseguiu, em lugar de qualquer segurança exterior, vestir se de uma proteção espiritual que ele, pensando na figura do soldado romano, chama de:

A armadura de Deus.

Qual seria para nós, hoje em dia, uma possibilidade de nos fortalecermos com uma armadura dessas, com uma força espiritual?
No Ato de Consagração do Homem, as diferentes etapas sempre são iniciadas pelas três cruzes que os participantes realizam com a mão direita:
Uma cruz diante da nossa fronte acompanhada pelas palavras pronunciadas
pelo sacerdote:
O Deus Pai seja em nós.
Uma segunda cruz à frente do nosso queixo, enquanto se ouve as palavras:
O Deus Filho crie em nós.
E uma terceira cruz diante do nosso peito:
O Deus Espiríto ilumine a nós.
Essas três cruzes, feitas com a mão ou somente em pensamento, podem ser uma ajuda em qualquer momento da vida quando precisamos do apoio da Divina Trindade. Com a primeira cruz, pedimos que Deus permeie todo o nosso ser, “da cabeça aos pés”, corpo, alma e espírito. Com a segunda, unimos o nosso agir “do coração às mãos” à atuação do Cristo, na medida em que fazemos tudo o que pudermos com dedicação e amor. Com a terceira, sentimos a luz espiritual em todo o nosso ato de reconhecer algo ou alguém. Desejamos que os nossos pensamentos entrem na claridade do espírito.
Dessa maneira, colocamo-nos juntos e ao lado do arcanjo Micael, em sua luta contra o dragão. Este, o adversário do ser humano, tenta sempre impedir o acesso nosso ao espírito. Principalmente quando queremos elevar a nossa alma ao divino, o diabo procura interferir.
Sempre na passagem de um estado para outro, por exemplo, ao acordar e ao adormecer, ao começar e ao terminar a meditação ou a oração, ou em momentos decisivos, é quando precisamos da máxima atenção e da maior coragem. É quando, em um instante de concentração, fazemos o sinal das três cruzes, que servirá como a armadura do arcanjo Micael.

Friedhelm Zimpel

Reflexão para o domingo, 27 de setembro

Referente à perícope do Evangelho de Lucas 7, 11-17


A alma humana foi desde sempre dedicada, prometida ao Cristo, e os maiores cuidados de Cristo se dirigem à alma humana. Ela deveria se unir a Ele. Ele deveria espiritualizá-la. Mas, em vez disso, ela ficou viúva do espírito.
Desde a queda do pecado, a alma humana tem se afastado cada vez mais do Divino. O que ainda era possível para um iniciado através das escolas de mistério — que sua alma fosse consagrada ao Divino — gradualmente se esgotou. Quando o Pai enviou seu Filho à Terra, Jesus Cristo encontrou o cortejo fúnebre da viúva. A viúva chorava por toda a humanidade, cujas almas não mais encontravam o acesso ao Divino, ainda possível nas antigas culturas. Agora, esse acesso deveria ser reencontrado no interior da alma individual, no reino do Filho. Mas o Filho havia morrido!
O encontro do cortejo fúnebre do filho da viúva com Jesus Cristo e seus discípulos é o encontro do carma do passado com o carma do futuro de toda a humanidade. De fato, do futuro resplandece a meta final do ser humano espírito, que deve crescer através do Filho. Cristo toca o caixão e desperta as qualidades do Filho na alma humana individual. O falecido se levanta e começa a falar. O Divino, o poder do Logos, agora habita nele, dentro de si, em seu Eu.
Assim como a humanidade se distanciou de Deus nos tempos pré-cristãos, agora Cristo deve atuar na alma em todo o futuro. A alma humana pode, assim, aproximar-se de novo de Deus e, ao fazê-lo, gradualmente tornar-se espírito. A atuação de Cristo se estende às reencarnações subsequentes. O jovem de Naim, por exemplo, pode ser encontrado novamente na figura do posterior Parsifal, o portador do Graal.
Em nossos tempos acelerados, perdemos de vista os eventos que só se desdobrarão plenamente em encarnações subsequentes. O contato com o poder de Cristo visa nos dar confiança nesses grandes ritmos cósmicos, para que não sejamos vítimas da ilusão de que o objetivo pode ser alcançado com um único clique.
Se a alma na vida terrena permitir ser tocada e conversar com o Cristo, o Espírito de Cristo poderá continuar a atuar através de muitas reencarnações. O impulso de Cristo continuará a crescer na alma humana até abranger toda a Terra.

Helena Otterspeer

Reflexão para o domingo, 20 de setembro

Referente à perícope do Evangelho de Mateus 6, 19-34

Aprendemos na vida como juntamos tesouros na Terra — dinheiro, poder, influencia… A nossa imaginação não tem limites. Todos eles estão submetidos à morte terrena. Eles estão ligados ao príncipe deste mundo.
Como são os tesouros nos céus?
Diferentemente dos tesouros terrenos, eles não são visíveis. Eles não são submetidos às forças do nosso mundo terreno. Eles vão além do alcance da morte.
As nossas vivências e experiências vão nessa direção. Principalmente quando elas ajudam nosso desenvolvimento. Através do nosso desenvolvimento forma-se a essência da nossa vida que vai se ligar a nosso ser eterno. Assim são formados tesouros nos céus.
Na vida religiosa, trabalhamos com essas mesmas qualidades. Na celebração dos sacramentos, trazemos as forças dos céus para a Terra, possibilitando sua atuação no mundo terreno. Para isso, unimos as forças celestes àquilo que de melhor podemos oferecer. Por meio dessa união, também criamos tesouros para os céus. Esses tesouros estão ligados às forças celestes, à atuação das hierarquias e do Cristo.
Precisamos decidir, sempre de novo, se queremos nos ligar ao príncipe deste mundo ou ao Cristo, e se queremos alcançar tesouros na terra ou trabalhar para os tesouros nos céus.

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 13 de setembro

Referente à perícope do Evangelho de Lucas 17, 11-17

 

Esta passagem se refere a uma cura coletiva de dez leprosos. Um grande problema à época — a lepra era uma doença incurável, estigmatizada por causa das deformações físicas que gerava segregação rigorosa, que obrigava os doentes a abandonarem o convívio da família e exigia que nunca se aproximassem demais das cidades ou das vilas onde pessoas sadias habitavam.
Em certo sentido, poderíamos descrever que a atitude da sociedade da época tratava a lepra como algo que não se quer ver, não se toca, não mais faz parte do dia a dia das demais pessoas.
Hoje a ciência encontrou os medicamentos necessários para curar essa doença infectocontagiosa. Os pacientes podem ser tratados sem a necessidade de segregação. O próprio nome da patologia foi mudado — hanseníase — com o intuito de se desvincular dos antigos estigmas ligados a ela.
Entretanto vivemos num mundo onde deixou completamente de existir LEPRA? Existem formas modernas deste problema? Teríamos que falar, numa abordagem moderna, de fenômenos de uma “lepra social”. Basta perguntar-nos: onde estão aquelas pessoas que não se “vê”, não se “toca”, não entram no horizonte do “nosso” cotidiano?
Na maioria das vezes, não é por medo de se infectar, uma vez que o padecimento, nesse caso, não acontece por meio de microrganismos. Há, entretanto, um certo risco de “contágio”.
A segregação é, quase sempre, invertida, pois aquilo que não se “vê”, não se “toca” ou não faz parte do “meu dia a dia”, em verdade não me afeta, se eu me mantenho suficientemente afastado de tudo isso.
Pode, porém, surgir o risco de outra forma de “contágio”! Alguém pode vir a ser “contaminado” com os problemas de certos grupos de pessoas, que até então se encontravam fora do alcance de sua percepção, mas em algum momento tais “padecimentos alheios” começaram a serem “vistos”, sentimo-nos “tocados” por eles e já não é mais possível mantê-los fora do horizonte da própria consciência.
No texto do Evangelho se diz que dez leprosos se aproximaram, mantiveram-se, contudo, a certa distância. Jesus, porém, os “viu”, os “ouviu”, foi “tocado” pela triste situação daquelas pessoas. E Ele lhes disse: “Ide, mostrai-vos!” A cura começa no momento em que aquilo que estava segregado, oculto aos olhos e longe da consciência, precisa ser mostrado, reconhecido. Eles entenderam essa exortação e foram.
Esse movimento em si já é suficiente para gerar uma significativa reflexão para os tempos atuais. Há, porém, outra camada, ainda mais sutil e profunda: um deles retorna para agradecer. Os outros nove, ao perceberem que foram curados, provavelmente já não se sentiram mais excluídos como antes. Perceberam que podiam assumir um lugar na vida e na sociedade, que lhes havia sido privado. Talvez, pela alegria do momento ou por simples distração, não se preocuparam tanto com a sua condição passada. Um deles, porém, retornou. Ele retorna não apenas refazendo o caminho de volta, mas também retorna à lembrança de que era doente e que foi curado. Estava segregado e passou a ser visto. Isso gerou nele a gratidão.
O texto inicia dizendo que Jesus sentiu compaixão ao perceber o aproximar dos dez leprosos. Um deles retorna e demonstra sua gratidão. Esses dois movimentos internos da alma humana, se retroalimentam. Ao sentir gratidão por algo, se estimula, ao mesmo tempo, a própria alma a se sensibilizar diante do padecimento alheio. Num movimento contínuo, gratidão-compaixão tornam-se um binômio imprescindível para a evolução humana. Num mundo reconhecidamente carente de um olhar compassivo frente ao sofrimento alheio, essa narrativa do Evangelho de Lucas pode nos ajudar a equilibrar um pouco tal tendência. Pois aqueles que desde cedo aprenderem a desenvolver a gratidão até por coisas simples e corriqueiras — o pão de cada dia, o sorriso amigo, a luz do sol a cada manhã — eles conseguirão olhar o que precisa ser visto, tocar o que precisa ser sanado e abrir o próprio sentir para compartilhar o sentir daqueles que sofrem.

Renato Gomes

Reflexão para o domingo, 6 de setembro

Referente à perícope do Evangelho de Lucas 10, 1-20

“Eu vos mando como cordeiros para o meio dos lobos. Não levem dinheiro nem bolsa nem sandálias”.
Os apóstolos de Jesus, que iriam percorrer as aldeias por onde ele pensava viajar, não devem levar nem bolsa de dinheiro nem mochila nem sapatos. Hoje em dia, seria difícil viajar assim, desprovido de qualquer característica da atual civilização. Muitos séculos atrás, os adeptos de Francisco de Assis (1181–1226) tentaram seguir a rigor esses preceitos de Jesus. Como mendigos, passavam pelas aldeias, entregando-se completamente à benevolência dos moradores, servindo a Deus por meio dessa conduta de vida.
Muitas pessoas que atualmente seguem como peregrinos o chamado caminho de Santiago na Europa, sentem o conforto da independência relativa e transitória de uma vida sem compromissos e sem horas marcadas, mas, geralmente, levam além da bagagem pelo menos o cartão de crédito.
Por incrível que pareça, sempre houve e ainda há hoje centenas de milhares de mensageiros do mundo celestial que chegam diariamente à Terra sem meios, incondicionalmente entregues à boa vontade das pessoas, estando nus, dependendo existencialmente de desconhecidos. Partem do mundo da Verdade, do Belo e do Bom e chegam ao mundo do vento frio, da fome e do crime. São as crianças que diariamente se encarnam em nosso mundo.
Bem, geralmente não nascem “no meio de lobos”. São filhos desejados, esperados e acolhidos com todo o amor do coração por parte de pais e familiares, que dão todo o apoio necessário. Qual é a mensagem que eles trazem? Eles ainda não falam, mas o primeiro sorriso já é a prova de que eles vêm do mundo onde reinam a pureza, a alegria e o amor.
Dessa maneira, todos nós também entramos neste mundo. “Nu vim do colo da minha mãe, nu hei de partir um dia” (Jó 1,21). No último dia da vida na Terra, não poderemos levar nada para essa viagem, como ocorreu com os apóstolos. Seremos esperados, acolhidos e abrigados pela comunidade das hierarquias espirituais. Elas olham para o que cada alma traz como fruto da sua vida terrestre. E, assim como um garimpeiro procura os minúsculos grãos de ouro no meio da lama, os seres espirituais procuram pequenas faíscas de luz, naquilo que a alma traz consigo. Tudo o que está permeado pelo amor de Cristo, seja no pensar, nas palavras e nos atos, brilha mais que o ouro terrestre.
No mundo terrestre, as almas que se encarnam trazem o brilho celeste através do seu sorriso, sua ingenuidade, seus sonhos, suas novas iniciativas e novas metas. No mundo espiritual, as nossas almas levam como um tesouro valioso as alegrias e os sofrimentos, as derrotas e vitórias, desde que sejam permeadas pelo amor do Cristo.
Assim, podemos entender por que Jesus exige que os apóstolos nada levem quando percorrem os seus caminhos.

Friedhelm Zimpel

Reflexão para o domingo, 30 de agosto

Referente à perícope do Evangelho de Marcos 7, 31-37

O Evangelho de hoje nos apresenta um homem surdo e que mal conseguia falar. Jesus faz algo muito particular: tira-o da multidão. Antes que esse homem pudesse começar a ouvir, precisa se afastar do ruído da multidão. O encontro com Cristo acontece a sós.
Então, Jesus coloca os dedos em seus ouvidos, toca sua língua, olha para o céu, suspira e pronuncia uma única palavra: Effatá — Abre-te. Talvez essa seja uma das palavras mais simples e profundas do Evangelho. Porque só podemos verdadeiramente ouvir quando calamos nosso ego e abrimos nosso coração. Podemos pensar sobre Deus, estudar, procurar compreender. Mas chega um momento em que o pensar precisa adquirir uma nova qualidade: silenciar e se tornar capaz de ouvir. A audição tem um papel primordial na vida espiritual. Para ouvir, precisamos criar dentro de nós um espaço no qual algo que não nasceu de nós possa entrar. Recebemos então o Logos, a Palavra de Deus. Ela penetra em nosso ser, atua em nossa alma, transforma nosso pensar e esclarece nosso entendimento.
Por isso, Effatá pode se tornar também uma palavra dirigida a nós, clamando para que nos abramos para aquilo que ainda não percebemos, mas que quer entrar em nossa vida. Assim, não apenas começamos a ouvir; começamos também a falar. Talvez muitas dificuldades de nossa época venham justamente da inversão dessa ordem: falamos antes de ouvir, temos opinião antes de compreender. Queremos anunciar a verdade antes de permitir que a verdade nos transforme.
Cristo não diz: “Abre teus ouvidos”. Ele diz: “Abre-te”. É o ser humano inteiro que precisa se abrir para receber o Cristo em si.

Carlos Maranhão

Reflexão para o domingo, 16 de agosto

Referente à perícope do Evangelho de Lucas 8, 1-18

Quando nascemos, somos enviados dos céus para a Terra. Chegamos sem nada. No começo, nem temos as roupas que os discípulos podiam levar para seu envio.
Diferente dos discípulos, normalmente não nos lembramos da missão com a qual fomos enviados para a Terra. Talvez essa seja a tarefa mais importante durante a nossa vida, a de descobrir essa missão. E, pouco a pouco, poder perceber qual é o lugar no mundo que somente nós podemos preencher; descobrir onde fazemos a diferença.
Nessa busca, o Cristo nos acompanha. Ele vê os nossos acertos e falhas e nos ajuda com seu grande amor.
Como os discípulos, voltamos desse envio no final da nossa vida. Voltamos para os céus. Juntamento com o Cristo olhamos nesse momento novamente para a nossa vida. E desse balanço de vida já se mostram as tarefas para o nosso próximo envio.

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 2 de agosto

Referente à perícope do Evangelho de João Mateus 7, 1-14

Neste artigo, pretendo limitar-me ao primeiro conselho pronunciado por Jesus no começo do último capítulo do Sermão da Montanha.

Não julgueis
Julgar – uma capacidade imprescindível do ser humano, na vida de hoje em dia. Como poderíamos viver sem distinguir entre verdade e mentira, entre bonito e feio, entre bem e mal? Além desses julgamentos fundamentais, sempre são necessários pequenos e grandes julgamentos. Em nosso trabalho, mas também em outros momentos, sempre temos que julgar, por exemplo, quais são as prioridades atuais e o que poderia ser feito mais tarde. Ainda na idade escolar e mais tarde na formação profissional, aprendemos muitos conceitos para futuramente poder entender e julgar quais são as decisões necessárias conforme a situação. É essa a diferença entre os seres humanos e os animais, pois estes seguem os ritmos das estações do ano e, ensinados pelos seus órgãos (Rudolf Steiner) e pelo instinto, nunca precisam julgar conscientemente.
A quem devemos essa faculdade fundamentalmente humana? A Bíblia nos dá a resposta: É a serpente (quer dizer, Lúcifer) que nos proporcionou esse dom, seduzindo Adão e Eva para comerem do fruto proibido. Primeiro, a serpente diz uma mentira: Não morrereis. E, em seguida, promete três faculdades desejáveis (Gênesis 3, versículos 4 e 5):

  1. Os vossos olhos serão abertos,
  2. Sereis como Deus,
  3. Sabereis distinguir o Bem do Mal.

Ainda hoje sofremos as consequências geradas pela promessa da serpente ou, em outras palavras, até hoje servimo-nos diariamente dessas faculdades. Não é difícil perceber a influência de Lúcifer nessas três faculdades:

  1. Os nossos olhos estão abertos, mas enxergamos somente o lado exterior das coisas.
  2. Em muitos aspectos, comportamo-nos como se fôssemos o Deus do Mundo, explorando a Terra de maneira egoísta e aspirando a conquistar até os espaços celestes.
  3. Sabemos julgar entre o Bem e o Mal, mas muitas vezes visamos somente o nosso próprio bem-estar.

Em consequência da Queda, Adão e Eva são expulsos do paraíso. Esse fato sempre é visto como um castigo. Mas, por outro lado, pode ser uma ajuda, uma espécie de remédio para a humanidade se tornar independente e para ela, no futuro, conquistar a liberdade. De certa maneira, até Deus confirma essa vantagem, em Gênesis 3, 22: “Olha, Adão tornou-se como um de nós, sabendo o bem e o mal”.
No Sermão da Montanha (Mateus, capítulos 5, 6 e 7), o Cristo mostra-nos como podemos, em plena liberdade, excluir a influência de Lúcifer. A morte, todavia a última consequência da expulsão do paraíso, somente será vencida pela Morte do próprio Cristo.
Como julgar de uma maneira sadia? Rudolf Steiner ensina no livro Como se adquirem conhecimentos dos mundos superiores?, no capítulo Sobre alguns efeitos da iniciação: Devemos ser cautelosos com o nosso julgamento. Não é bom pensar e logo emitir um julgamento (resumo e tradução de F.Z.).
Goethe, na sua teoria das cores e também na metamorfose das plantas, exerce essa mesma paciência para com o julgar. Com a máxima dedicação, ao observar os objetos e as suas modificações, ele espera perceber o que os próprios objetos lhe mostram, antes de formar algum julgamento ou formular alguma teoria.
Finalmente, o conto dos irmãos Grimm O Alfaiate no Céu nos ensina de forma humorística algo sobre o julgar impróprio. Eis um resumo do conto:
Certa vez, quando o Nosso Senhor estava fora do céu, um alfaiate astuto conseguiu entrar no céu. Muito curioso, ele espiava por todos os cantos e viu no centro do céu uma cadeira alta, preciosamente ornamentada: o trono do próprio Deus. Sentou-se no trono. De lá, ele pôde enxergar todas as coisas da Terra. Viu uma velha senhora, que nesse instante furtava alguns panos. Muito indignado com isso, pegou o banquinho dourado de Deus e arremessou-o contra a senhora. Quando Deus entrou, o alfaiate confessou o que havia acontecido. Deus respondeu: “Se eu julgasse como você, já não haveria mais móvel algum no céu. Julgar só cabe a Deus”. E o alfaiate teve que abandonar o céu.

Friedhelm Zimpel

Errata

Nas reflexões de Pentecostes, dia 24 de maio de 2026, infelizmente ocorreu um engano com respeito à frase citada de João Guimarães Rosa: “Tudo, aliás, é ponta de um mistério.” Essa frase não consta de Grande Sertão, Veredas, mas sim do livro Primeiras Estórias, Editora Nova Fronteira, 14ª ed. Rio de Janeiro, pag. 65, Estória N° 11 — O espelho.

Reflexão para o domingo, 19 de julho

Referente à perícope do Evangelho de João 1, 29-39

João Batista dá testemunho do Cristo e daquilo que ele vivenciou durante o batismo do Cristo. Ele faz esse reconhecimento perante o mundo dos céus e perante o mundo dos seres humanos. Ele está fiel a esse testemunho também perante a rejeição do mundo.
Essa força de testemunhar é um exemplo para nós. Conseguimos sustentar o que reconhecemos como verdade? Conseguimos dar testemunho disso também em momentos de resistência a ela e de rejeição?
Essas perguntas valem para todos os momentos da nossa vida — para as “pequenas” verdades do dia a dia e para as “grandes” sobre o mundo espiritual e o Cristo. Elas todas estão ligadas e fazem parte de uma verdade universal.
Podemos considerar a força de reconhecer a verdade e de dar testemunho dela como uma qualidade do Espírito Santo.

Julian Rögge