Reflexão para o domingo, 19 de março

Referente à perícope do Evangelho de João 10, 1-16

“À vida falta uma parte” …*
O que não falta, hoje em dia, certamente é a capacidade de receber mensagens dos lugares mais distantes do globo, a faculdade de ver e ouvir o que se passa em qualquer lugar do mundo, de perceber as coisas mais distantes do Universo e de perscrutar processos, por mais minúsculos que sejam.
Quer dizer: O mundo visível entra em nossas almas através das portas dos sentidos.
É aqui que opera toda uma gigantesca indústria de aparelhamento eletrônico, com o intuito de invadir as portas dos sentidos do ser humano. Para quê tanto esforço? Qual é a finalidade de toda essa técnica? O desejo é conquistar e prender a atenção das nossas almas. Tanto poderes políticos como comerciais pagam caro por cada minuto ou segundo da nossa atenção.

“À vida falta uma parte” …*
O que realmente nos falta é a parte do silêncio, a parte do escuro, do invisível. À civilização barulhenta do dia, falta o acesso ao reino invisível, misterioso da noite. À cultura brilhante e poderosa da vida material falta a parte profunda e pacífica da vida espiritual. Qual será o acesso a este reino invisível, geralmente esquecido e pouco valorizado?

“À vida falta uma porta” … *
O Cristo desceu das alturas do espírito e encarnou-se em um corpo terrestre, vivendo três anos em nosso mundo sensorial. Aqui, Ele tornou-se a porta entre o mundo invisível e o mundo dos sentidos. Ensinou aos discípulos a abrirem os olhos dos seus corações e a perceberem, pela fé, dentro do mundo do ver e do ouvir, a atuação do amor divino manifestado em Cristo Jesus.
Ele se encarnou na Terra, porque somente pode passar pela morte nesta vida material, pois não há morte no mundo espiritual.
Pela ressurreição, Ele plantou, dentro do nosso mundo, o germe de uma nova criação, de um mundo futuro em que o visível se une ao invisível, o material ao espiritual, a Terra ao céu – pois, como consta em João 10, 1-16, foi Ele quem disse:

“EU SOU A PORTA…”

Friedhelm Zimpel

*Versos de entreter-se
Ferreira Gullar

À vida falta uma parte
– seria o lado de fora –
pra que se visse passar
ao mesmo tempo que passa

e no final fosse apenas
um tempo de que se acorda
não um sono sem resposta.

À vida falta uma porta.

Reflexão para o domingo, 12 de abril

Referente à perícope do Evangelho de João 20, 1-20

Quando o Cristo ressuscitado apareceu aos discípulos pelas primeiras vezes, algo aconteceu que fez de Tomé um representante da humanidade nos tempos a seguir. Um período do desenvolvimento humano estava chegando ao fim, e agora as pessoas deveriam se transformar e se comportar de maneira diferente. Elas deveriam estabelecer uma nova relação com o mundo divino e também com o seu destino na Terra.
No período anterior ao nascimento de Cristo, as pessoas podiam ver os feitos dos deuses com seus olhos físicos; elas eram clarividentes. Falavam de deuses que compartilhavam seu destino com a humanidade. Conheciam a existência pré-natal e pós-morte, que experimentavam como espíritos entre espíritos. Em comunidade se ligavam ao mundo divino. Sentiam-se integradas a uma ordem superior, segundo a qual a vida em todos os seus aspectos estava significativamente alinhada.
Chegou então o tempo da perda gradual da clarividência e do pertencimento tanto a um mundo espiritual quanto a uma comunidade espiritual. Chegou o tempo em que a humanidade se tornou cada vez mais autônoma e, como resultado, o senso de direção na vida deixou de surgir naturalmente. Em vez disso, a humanidade se sentiu cada vez mais confinada a um mundo puramente material. A realidade da existência se limitava ao intervalo entre o nascimento e a morte. Todos os esforços eram direcionados para tornar a vida na Terra o mais confortável possível. Foi também nessa época que os deuses se retiraram cada vez mais, para que a humanidade pudesse despertar como um espírito livre.
Tomé não estava com os discípulos quando Cristo apareceu entre eles. Estava sozinho. Ele não compartilhou as experiências dos outros discípulos; para acreditar precisaria tocar nas feridas do martírio. Ele não compreendia o significado da morte sacrificial. Para ele, as feridas representavam o fim trágico de um esperançoso impulso. Contudo, uma semana depois, Cristo apareceu a todo o círculo de discípulos e convidou Tomé a tocar suas feridas, momento em que Tomé o reconheceu e se prontificou a segui- lo.
Tomé não estava com os outros discípulos quando Cristo apareceu. Diante da sua incredulidade, Cristo dirige essas palavras às gerações futuras, aquelas que cada vez mais baseiam sua existência no mundo material, mas que podem, interiormente, reacender a força vital da fé. O poder da fé hoje, a relação viva com Cristo e seu feito, é o que estabelece novas comunidades espirituais, confere um novo significado à vida terrena e até mesmo à morte. A antiga experiência de Deus pelo corpo e sentidos está desaparecendo; o poder da fé interior renasce! Deus nasce na alma, no Eu Sou!

Helena Otterspeer

Reflexão para o domingo, 5 de abril

Referente à perícope do Evangelho de Marcos 16, 1-18

Quem vai retirar para nós a pedra do túmulo?
Nós também vivenciamos essa pergunta das mulheres no domingo de Páscoa, quando o túmulo da nossa alma está fechado por uma pedra. Em momentos de grande dor, de tristeza e de falta de esperança nos sentimos assim. Vivenciamos a nós mesmos como se estivéssemos mortos por dentro. E não conseguimos tirar a pedra e abrir o túmulo sozinhos.
Quem vai tirar para mim a pedra do túmulo da minha alma?
Assim como as mulheres no domingo de Páscoa, percebemos que, de repente, a pedra foi retirada. Uma nova luz apareceu na nossa alma, uma nova esperança. Como isso aconteceu?
Olhando para dentro, percebemos que ela surgiu da morte. Dentro de nós encontramos a luz do Cristo ressuscitado. Ele ajudou e ajuda a retirar a pedra do túmulo da nossa alma. Ele quer transformar esse túmulo em um altar.

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 29 de março

Referente à perícope do Evangelho de Mateus 22, 1-11

O crescimento vegetal não acontece de forma linear; trata-se de uma sucessão de momentos de crescimento alternados com pausas de concentração. Nas gramíneas — e, em especial, nos bambus — isto aparece com nitidez: forma-se um nó, depois um seguimento do talo que se alonga, surge outro nó, novamente acompanhado de um alongamento linear. Nesse encadeamento surge visivelmente o crescimento do bambu ou de qualquer outro ramo vegetal.
Olhando com atenção a formação do nó, percebemos que, apesar de representar uma interrupção do crescimento linear, entre muitas outras funções cabe destacar duas:
– Os diversos nós que compõem um bambu, uma cana — ou mesmo um galho — conferem grande estabilidade à estrutura como um todo. Se houvesse apenas crescimento linear, depois de certo tamanho, o excessivo comprimento das fibras retilíneas comprometeria a capacidade de toda estrutura para se manter ereta! Os nós criam arquitetonicamente pontos de amarração, permitindo que o bambu ou o galho se mantenham firmes sem se curvar — apesar da enorme tensão que decorre da proporção entre comprimento longitudinal e diâmetro do galho ou do bambu!
– Outra característica importante é que os nós são o local onde as folhas ou os novos brotos eclodem. São pontos de germinação. No caso do bambu, somente folhas saem destes nós. Mas ali também se encontram brotos que, quando plantamos, dão origem a novas plantas. Noutras plantas, os nós representam os locais de ramificação. O crescimento, nesses casos, não segue uma única direção, mas se abre na conquista de novos espaços (e chegam a formar as amplas copas das árvores).
O Domingo de Ramos marca o início da Semana Santa. Nesta semana acontecem muitas coisas num curto período de tempo e num espaço físico bem delimitado, pois praticamente todos os acontecimentos estão relacionados à cidade de Jerusalém.
Aqui também poderíamos notar uma espécie de “nó”, quando os acontecimentos narrados se concentram e o fluir da narrativa dos Evangelhos parece se fixar naqueles poucos dias, em torno daquele único lugar.
Somente depois, na Páscoa, a narrativa se libera e flui novamente. Ela expande e alcança círculos cada vez mais amplos, à medida em que o Cristianismo se propaga pelas regiões circunvizinhas.
Assim, também se poderia, hoje, tomar a leitura e a meditação sobre os acontecimentos da Semana Santa como um momento de concentração para as forças da alma. Um momento para reunir as forças e focar em certos pontos, sem se preocupar que algo precisa fluir ou se expandir do “lado de fora “. O mais importante é a capacidade de concentração e de reflexão sobre as imagens da Paixão de Cristo, além da nossa própria conexão interna com essas imagens.
A seu tempo, aquilo que se formou a partir desse trabalho interior concentrado se expandirá naturalmente… Se ramificará na própria vida. Pois, como na planta, são os “nós” que desenvolvemos na alma que nos criam as bases para a sustentação e para o crescimento de nosso próprio ser espiritual!
Nesse sentido: “Bendito o que vem em nome do Senhor!” — aquele que quer entrar em nossa alma para nos ajudar a chegar a esse profundo grau de concentração!

Renato Gomes

Reflexão para o domingo, 22 de março

Referente à perícope do Evangelho de João 8, 1-11

Vivemos num mundo de violência extremada. As potências se armam e impõem suas decisões na forma de bombardeios. Enquanto isso, no dia a dia, muitos lançam pedras na forma de palavras ofensivas e injuriosas. Clamamos por paz, mas vivemos num mundo que, a cada momento, anula a sua possibilidade, pois a paz só pode nascer de corações pacificados.
Na passagem do Evangelho de João sobre a mulher adúltera, encontramos uma imagem profunda da alma humana. De um lado, os acusadores, rápidos em condenar, mas inconscientes de si mesmos. De outro, a mulher, exposta, culpada, amedrontada. Jesus silenciosamente escreve na terra um novo caminho de consciência e perdão. Os acusadores se retiram, chamados pela própria consciência de culpa. A mulher permanece no centro, liberada para seguir, a partir do despertar da consciência, em direção a um novo começo. Ela representa a alma ferida, contraditória, mas capaz de ser tocada pela luz do Cristo.
No momento crucial em que vivemos, cresce a possibilidade de um despertar da consciência, justamente no momento em que se intensificam as sombras ao nosso redor. O Cristo nos aponta em uma direção de compaixão, perdão e renascimento. Com ele, começa a nascer silenciosamente nos corações humanos a verdadeira possibilidade de paz.

Carlos Maranhão

Reflexão para o domingo, 15 de março

Referente à perícope do Evangelho de João 6, 26-35

Vejamos esta charada. O que é o que é?

ELE é enterrado vivo, renasce ereto, amadurece dourado, mas logo é cortado, batido cruelmente, moído, amassado, afogado na água, queimado no fogo e finalmente vendido.
Tudo isto não seria suficiente sofrimento? Muito pelo contrário:
Novamente é cortado, quebrado e mordido, misturado com água e finalmente engolido.

Neste domingo, comemoramos o segundo domingo da época da Paixão de Jesus Cristo. Qual foi a primeira sensação de Cristo, depois do batismo de Jesus no rio Jordão? O que sentiu o Espírito Divino, após se encarnar no corpo mortal de Jesus, depois de jejuar 40 dias e 40 noites? Foi o que qualquer pessoa sentiria nesse momento: fome. Esta necessidade acompanha o ser humano, já desde milênios até os dias de hoje. Mesmo em nosso mundo moderno, com todo o avanço da ciência e da técnica, em muitos países há milhões de pessoas sofrendo fome. Para um Ser Divino onipotente, deveria ser fácil vencer esse flagelo da humanidade por um simples ato mágico, a partir de seu poder divino. Foi isto que o tentador sugere nesse instante: “Se és o Filho de Deus, dize para que estas pedras se tornem pães” (Mateus 4, 3).
O Cristo consegue rejeitar esta tentação. Ele sabe que não é a sua missão afastar todo o sofrimento da humanidade. Sua missão é outra: Plantar nos corações das pessoas a semente de uma nova faculdade, a semente do amor abundante e incondicional. Com esta nova faculdade, ele alimenta muitos com pouco, como ocorre na alimentação das cinco mil pessoas. Com esse amor, ele cura as diferentes enfermidades. Com esse amor transbordante, ele se une intimamente aos seus discípulos na Última Ceia, e com esse mesmo amor radical entrega-se completamente, de corpo, alma e espírito, à morte na cruz, para a salvação da humanidade.
Contemplando a charada acima, podemos pensar em toda a série de transformações a que o grão de trigo costuma ser submetido no caminho da semente até chegar à pequena forma arredondada de pão chamada hóstia. No Ato de Consagração do Homem, que é celebrado como missa renovada na Comunidade de Cristãos, podemos sentir o amor infinito do Cristo. Recebendo a comunhão, na forma da pequena hóstia de pão e do gole de suco de uva, sentimos o seu imenso amor que acompanha o caminho da nossa vida como “o doador das alegrias e o consolador nas dores da existência.”

Friedhelm Zimpel

Reflexão para o domingo, 8 de março

Referente à perícope do Evangelho de João 6, 1-15

Lucas Cranach, 1535-1540.

A paixão de Cristo já começa no momento do batismo, quando o espírito do Cristo se liga à natureza terrena de Jesus e assim, passo a passo, o Filho de Deus vai se tornando Homem. “O Verbo se fez carne” – esse é o processo descrito no Evangelho de João, que começa no batismo no Jordão e se cumpre totalmente quando, na cruz, Jesus Cristo antes do seu último suspiro diz: “Está consumado”.
Não podemos imaginar a dor que este ser divino sentiu nesse processo comparável à compressão de um ser cósmico eterno e infinito em um ser microcósmico corporal e transitório, ou ainda comparável a uma intensa e dolorosa cristalização.
Nos três anos, do batismo à morte na cruz, o Cosmo se contrai num ponto: a corporalidade terrena de Jesus. Esse imenso sacrifício, permeado pelo infinito amor divino, atua por outro lado na natureza humana, de tal maneira que a partir da ressurreição todo ser humano ganha como corpo, alma e espírito um novo acesso às forças redentoras crísticas. Esse processo começa primeiro entre os seus discípulos e seguidores e se estende depois da ressurreição à toda a humanidade.
Jesus Cristo sobe repetidas vezes com seus discípulos e com a multidão, que frequentemente os segue, uma montanha para, nas alturas – não só no sentido do mundo sensorial, mas também no sentido espiritual – estabelecer novamente a relação perdida com as fontes de vida e luz divinas. Das alturas começa a fluir consolo, cura, luz e vida…
Assim foi na Páscoa do ano anterior à morte na cruz para a alma humana, lá na outra margem do mundo, na presença de Cristo poder receber a substância divina abençoada, o alimento da alma, que já não estava mais acessível nessa época. Essa substância divina pode ser encontrada quando, na procura da superação dos males terrenos, pessoas se reúnem com a mesma intenção de obter a cura que vem das alturas. Para isso, faz-se necessário sentar em grupos sobre a relva verde, o que acontece na prática de um caminho espiritual, quando nos afastamos do quotidiano e das preocupações terrenas para nos dedicar a um estudo espiritual, à oração ou meditação. Nesse ambiente de calma interior, dentro da alma humana, encontra-se uma criança que traz um pouco do alimento divino. Essa criança que ainda pouco se destaca, mas que carrega muito potencial para o futuro, é o “Eu superior” na alma humana. E o alimento que traz foi descrito por Jesus Cristo no Evangelho de João, “fazer a vontade do Pai”. Quando fazemos a vontade do Pai, aquilo que ainda apenas brotara dentro da alma, o Eu crístico, ainda quase que imperceptível, cresce e se fortalece. Ele espiritualiza a alma, que vai se tornando uma imagem do Cosmo com o Sol no meio das 12 constelações zodiacais, chegando a dispor de 12 qualidades espirituais. A alma humana individual se torna apta a formar comunidades espirituais, que aliadas aos seres divinos transformam o mundo.
Caminhemos com o Cristo na sua paixão, descobrindo o mistério do seu feito único em toda a história da humanidade, em profunda devoção e gratidão!

Helena Otterspeer

Reflexão para o domingo, 1° de março

Referente à perícope do Evangelho de Mateus 17, 1-13

Através da oração e da celebração dos sacramentos, subimos a montanha até os
céus. Chegamos até a presença dos seres espirituais. Vivenciamos que é um bom lugar
para estar. Talvez queiramos ficar, erguer a nossa tenda lá.
Cristo volta depois da Transfiguração para a Terra. Ele nos mostra que durante
a vida terrena temos a responsabilidade de descer novamente da montanha. Ele vai à
nossa frente nesse caminho. Temos, como ele, a tarefa de levar as forças que recebemos
na montanha, nesses momentos especiais, para a nossa vida e o nosso trabalho terreno.
Pouco a pouco penetramos a Terra com as forças dos céus. Assim a
transformamos.
Essa transformação, através das forças celestiais, é um caminho longo e árduo. Mas
nele, podemos nos sentir acompanhados pelo Cristo e pelos seres espirituais.

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 22 de fevereiro

Referente à perícope do Evangelho de Mateus 4, 1-11


Consideremos uma árvore solitária em uma paisagem ressecada pelo sol. Aos olhos do mundo, ela é apenas tronco e galhos retorcidos. Sua sobrevivência, no entanto, não é obra do acaso, mas resultado de uma busca silenciosa. Suas raízes precisam perfurar a terra árida até encontrarem as águas profundas e invisíveis. Se ela se limitar à superfície, murchará. Assim somos nós em nossos tempos. Vivemos em um deserto da alma, cercados por uma aridez de sentido, onde o excesso de estímulos externos esconde um vazio interno devastador. Se nossa existência se nutre apenas do que é visível e imediato, secamos por dentro. Nossa verdadeira vida depende do que nos alimenta no invisível.
As tentações de Cristo no deserto não são fatos isolados na história, mas percorrem a humanidade em suas batalhas para resgatar sua condição essencialmente espiritual. A primeira tentação nasce da fome, não apenas física, mas da nossa sede de segurança e controle. Somos tentados a acreditar que a vida se resume a “transformar pedras em pão”, vivendo em uma ansiedade crônica para garantir o sustento e o status. Cristo nos adverte que o pão alimenta o corpo, mas apenas a palavra de Deus sustenta nosso verdadeiro ser.
Nossa vida profunda não emerge do esforço braçal, mas da conexão com a fonte primordial do Espírito. Quando a incerteza do deserto aperta, queremos garantias mágicas. Desejamos que Deus (ou o destino) nos dê um sinal espetacular antes mesmo de darmos o passo de fé. No entanto, o “Eu verdadeiro” não exige espetáculos. Ele habita no silêncio e caminha com humildade, confiando no sustento invisível sem tentar forçar a mão do Sagrado.
Por fim, enfrentamos a ambição. A promessa de influência e sucesso nos convida a curvar a alma diante dos ídolos do mundo. Mas a resposta é absoluta: apenas ao que é Eterno devemos adorar. Nada que seja passageiro pode ocupar o centro do nosso altar interior.
A fome, o medo e a ambição continuam a nos cercar em nosso deserto cotidiano. Contudo, o caminho já foi trilhado. Vencer essas tentações é despir-se das máscaras do ego para encontrar o espírito que habita em nós. Ao permanecermos firmes e enraizados profundamente no que é essencial, deixamos de ser reféns das circunstâncias. Não somos mais árvores secas à beira do caminho, mas seres alimentados pela água viva que corre por baixo da areia quente do tempo.

Carlos Maranhão

Reflexão para o domingo, 15 de fevereiro

Referente à perícope do Evangelho de Lucas 18, 18-34

“Que devo fazer para alcançar a vida eterna?” – pergunta o jovem rico.
Uma pergunta feita a partir de um olhar para o futuro. O que se perguntaria um jovem nos dias de hoje? Talvez: “Que devo fazer para assegurar-me um futuro tranquilo?”
A pergunta em relação ao futuro nos ocupa a todos, jovens ou velhos, pais ou filhos. O nosso futuro e o de nossos descendentes nos preocupam bastante.
Há, entretanto, tantas ofertas de seguros: de vida, de saúde (ou de doenças), de automóvel, contra incêndios, contra roubo… Todos eles se baseiam no princípio de acumulação: como garantir que meu patrimônio – a casa, o carro, os bens adquiridos – permaneçam, mesmo que aconteçam desastres naturais ou acidentais, ou que venham a ser roubados ou destruídos. Se temos algum tipo de apólice de seguro, estaremos garantindo para o futuro que o que acumulamos não se perca.
Com a saúde não é diferente, pois se contratamos algum tipo de seguro de saúde vamos acumulando um capital com as cotas mensais que pagamos, para o dia em que precisarmos, esse valor “acumulado” nos permita afrontar os altos custos de remédios ou internações em decorrência de algum problema de saúde.
Também com os chamados “seguros de vida”, posto que o que for acumulado, se reverterá para aos familiares ou beneficiários que tenhamos elegido.
Acumular é a ideia central que, no sistema de social em que nos encontramos, rege a forma de sentir e de pensar na modernidade. Se queremos alguma garantia para algo no futuro, temos que começar hoje a acumular!
A resposta de Cristo é, entretanto, bem diferente: “Vende tudo o que tens e dá-o aos que necessitam!”
Aqui aparece o gesto oposto: vender, dar, se desfazer, se desvincular do que se possui, em lugar de acumular mais ainda. Pode parecer um paradoxo! Contudo sabemos que não estamos tratando aqui de da riqueza medida em bens materiais, mas de outra qualidade! Na natureza se criamos uma barragem num curso d’água, a água represada se acumula, forma um tanque ou um lago. (Sabemos que não é possível represá-la por completo e por isso sempre há um lugar onde ela continua a fluir.) É nítida, porém, a diferença entre a água fresca e cristalina de um riacho que desce pura das montanhas, e a água represada em algum dique artificial. Aqui se vê o essencial: na natureza viva, o que se represa, o que se estanca e se acumula, perde em vitalidade. E se, por algum motivo, certa quantidade de água ficar totalmente represada sem qualquer renovação, terminará formando um local pantanoso e morto!
A água represada é uma expressão exterior do que acontece com o fluir das forças de vida. Se forem estancadas elas não aumentarão, ao contrário, perderão a capacidade de fomentar a vida. Também em nosso corpo. Se impedirmos o fluxo do sangue e dos líquidos de um membro, este gangrena e morre. Só há vida num membro se ele permanece unido no fluxo vital que flui e permeia todo o organismo.
Os elementos materiais podem ser acumulados, guardados em cofres; eles se preservam aí, ainda que talvez se empoeirem, percam um pouco o brilho e envelheçam pouco a pouco. A vida, entretanto, não se deixa represar ou acumular, ela permanece e gera nova vida somente se permitirmos que flua. Assim como a recebemos, deixamos ela ir-se, pois somente desse modo nos matemos no ciclo da vida.
Eis a proposta que Cristo faz àquele jovem. Deixa ir, deixa fluir através de ti, a vida, a cada dia, hoje, sempre. Assim se chega à vida eterna, aquela que flui initerruptamente. Portanto, vem, segue-me e mantém-te em movimento, “pois Eu vim para que tenham vida, que a tenham em abundância!” (João 10,10)

Renato Gomes
Pastor da Comunidade de Cristãos em Campinas