Reflexão para o domingo, 8 de fevereiro

Referente à perícope do Evangelho de Mateus 20, 1-16

No Evangelho Mateus 20, lemos que, certo dia, o proprietário de uma vinha contratou alguns trabalhadores logo pela manhã; outros, mais tarde, e os últimos contratados trabalharam somente uma única hora nesse dia. Na hora do pagamento, os últimos contratados receberam o pagamento primeiro e ganharam o mesmo valor dos que trabalharam o dia inteiro: um denário. Aqueles que trabalharam mais horas ficaram revoltados com o que consideraram ser uma injustiça.
Qual seria o sentido desta parábola? Seria uma sugestão de novas leis trabalhistas e salariais?
Para entender melhor esta parábola, precisamos levar em conta o seu contexto e a quem era dirigida. No capítulo anterior (Mateus 19), um jovem rico perguntou a Jesus como se pode alcançar a vida eterna. Em resumo, a resposta é que ele deveria vender todos os seus bens. Ao ouvir essa resposta, os discípulos que testemunharam a conversa se assustaram e Pedro perguntou qual seria, então, a recompensa deles, já que os discípulos largaram tudo para seguir Jesus. Jesus prometeu que futuramente, na sua glória, todos os que abandonarem os seus bens em seu nome serão ricamente recompensados, mas acrescentou que muitos primeiros serão últimos e os últimos, primeiros. Logo em seguida, ele contou a parábola dos trabalhadores na vinha (Mateus 20), iniciando com:
“Porque o reino dos céus é semelhante a um proprietário, que sai de manhã para contratar os trabalhadores para a sua vinha (…)”.
E a parábola termina com a mesma frase (exceto que a ordem está invertida) do final de Mateus 19: Assim os últimos serão os primeiros e os primeiros, os últimos.
Ao se dirigir aos discípulos com esta parábola, Jesus não introduziu novas regras trabalhistas, mas falou do reino dos céus, em que a justiça divina é diferente da justiça humana. As leis da proporcionalidade reinam na vida terrestre, enquanto no reino dos céus, vigoram a graça e a bondade. Não é por mérito que se entra no reino dos céus. É preciso se empenhar, como os trabalhadores na vinha, mas a graça divina é plena e igual para todos os que se empenharem.

Friedhelm Zimpel

Reflexão para o domingo, 1° de fevereiro

Referente à perícope do Evangelho de Mateus 8, 1-13


A cura do servo do centurião romano:
No dia 27 de janeiro na Alemanha, data da libertação do campo de concentração de Auschwitz em 1945, mencionou-se muitas vezes nos discursos em memória do holocausto da 2ª Guerra Mundial, o primeiro artigo da Constituição Alemã formulada em 1948, três anos depois da guerra: “A dignidade humana é inviolável“.
Com esse artigo, estava ligada a esperança de que nunca mais pudesse acontecer uma tal tragédia como a da 2ª Guerra, com mais de 60 milhões de mortos, dos quais mais de 6 milhões foram vítimas do holocausto.
Diante dos atuais inúmeros conflitos, violências e injustiças entre os povos, essas nobres palavras soam vazias para muitas pessoas. O que fazer para que a dignidade de qualquer ser humano seja reconhecida, preservada e defendida?
Nos tempos antigos, sabemos que eram os reis, sábios e sacerdotes a quem numa cerimônia era conferida pelo mundo espiritual a dignidade para poder exercer suas funções. O manto e a coroa eram, por exemplo, os sinais desta dignidade necessária para conduzir os povos. A coroa expressava a ligação do rei com o mundo divino, a fonte do seu poder. O manto, a consciência da sua responsabilidade e ligação com o seu povo, como seu guia para o bem. Essas qualidades ele conquistava pela iniciação nas antigas escolas de mistério. Pela iniciação, ele formava sentidos superiores para perceber o mundo divino e com isso conquistar a capacidade de reger, de curar, de evoluir para o bem de toda a humanidade.
Hoje, a iniciação pelos métodos das antigas escolas de mistério não mais é possível. Entretanto, continua sendo necessária a ligação com o mundo divino de onde vem a vida, a luz, o calor, enfim, a paz para toda a humanidade e para a Terra.
O centurião romano que procurou Jesus Cristo, representava a cultura romana da época voltada para os grandes frutos exteriores da civilização, dirigidos sobretudo para o bem-estar e segurança física e conquistados por uma personalidade voltada sobretudo para poderes e direitos do cidadão. No entanto, esse centurião ainda sabia que o ser humano não é apenas um cidadão da Terra, mas sobretudo um cidadão no mundo espiritual.
O nome de Jesus significa “o que cura”, “o que salva”. O centurião reconheceu em Jesus, que havia recebido o espírito de Cristo no batismo, um representante do mundo divino. Assim como ele, como centurião, desfrutava de sua autoridade terrena na sua casa, ele acreditava inabalavelmente na autoridade espiritual de Jesus. Ele diz: “Não sou digno que entres na minha casa”. Ele sabia que a sua casa, a sua comunidade de vida estava ameaçada para o futuro, o seu jovem servo estava muito doente. Seus elos com o mundo divino estavam fracos. O reconhecimento da sua indignidade diante do mundo divino o torna apto para receber, para acolher a palavra divina proferida por Jesus.
Hoje, este é o desafio: em humildade, como ser humano, estar consciente da própria indignidade diante do mundo divino e ir à procura do Cristo para conquistar uma nova consciência que abrange a realidade espiritual no Eu Sou, isto é, conquistar a própria inabalável dignidade pelo despertar da substância divina em si mesmo. O mundo espiritual não se revelará mais no interior das escolas de mistério, mas no interior da alma humana que se tornará madura, como o curado jovem servo, para enfrentar os desafios do destino, para fazer as escolhas corretas para o bem de todos.


Helena Otterspeer

Reflexão para o domingo, 25 de janeiro

Referente à perícope do Evangelho de João 2, 1-11

No Evangelho da semana, observamos o encontro entre o Cristo Jesus e sua mãe. No Cristo vive a pergunta sobre o que está atuando entre eles. O que vai surgir desse encontro? Vemos que ele possibilita o início dos sinais do Cristo.
Estamos atentos aos nossos encontros? O que quer surgir deles? Para a nossa atuação no mundo, precisamos do encontro com o outro. Sem as pessoas ao nosso redor, nossas possibilidades estarão muito limitadas.
Cada encontro traz em si a possibilidade de que forças espirituais se manifestem através dele, de que o Cristo esteja presente. Nesse encontro entre o mundo espiritual, os seres humanos e cada um de nós, podemos trazer algo novo para o mundo.

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 4 de janeiro

Referente à perícope da primeira Carta de João 4, 16-21

João, o Evangelista escreveu na sua primeira carta estas palavras: “Nós reconhecemos o amor pelo qual Deus mora em nós e fundamentamos a nossa fé nesse amor”.
João, o Evangelista, era o Lázaro, que aspirando pela vida eterna recebera a orientação de Jesus Cristo para vender tudo o que possuía e doar aos pobres. Ele cumpriu tão ao pé da letra esta orientação, que acabou se despojando até da sua própria existência corporal e morreu. Depois de quatro dias foi ressuscitado por Jesus Cristo antes da sua Paixão. E dessa maneira, como algumas autoridades religiosas reconheceram, ele foi iniciado publicamente por Jesus Cristo e despertado da morte para uma nova vida, como acontecia durante o sono iniciático no sigilo das antigas escolas de mistério.
Ele se tornou o discípulo amado, porque nele havia uma morada para o divino. Assim lhe foram conferidos os olhos da alma, os sentidos interiores para, ao pé da Cruz, ter a força interior para testemunhar a paixão, ser testemunha nesse momento do imenso amor do Cristo pela humanidade. Ele não contemplou uma morte indigna e cruel de um homem culpado e condenado ou uma vítima das mais consideradas autoridades religiosas. Ele pôde ver, apesar da visão do corpo dilacerado, a integridade espiritual de Jesus Cristo e o amor que irradiava da cruz.
Também os outros discípulos haviam sido testemunha do amor de Jesus Cristo, quando ouviram os seus ensinamentos e presenciaram as suas curas e milagres. No entanto, só depois da ressurreição puderam compreender a grandiosidade do ato de amor de Jesus Cristo pela sua morte na cruz. No momento do aprisionamento de Jesus e da sua condenação à morte, eles não tiveram a força interior para perceber naquela hora o maior ato de amor que se passava em toda a história da Humanidade. Eles se recolheram com medo.
Reconhecer o amor pelo qual Deus mora em nós é um grande desafio hoje. O nosso destino com certeza nos levará ao momento em que teremos que dar provas do nosso amor pelos entes à nossa volta. Poucos vencem esta prova. Muitos acreditam que, pelo contrário, têm que aspirar, mesmo lutar a qualquer custo para manter sua própria integridade física, sua estabilidade financeira, seu bem-estar social, seu status quo. Sentem medo de perder estas seguranças.
Isso impede que reconheçam o amor pelo qual Deus mora em si. Só quando nos dedicamos ao bem de outros, quando aceitamos e superamos os desafios do destino, só então nos tornamos capazes de reconhecer o amor de Deus e nos preencher com ele.
Até então sigamos acolhendo as imagens e palavras do Evangelho nas celebrações do ano, para que elas enfim nos iluminem, nos permeiem, nos tornem capaz de um ato de amor. Então seremos verdadeiramente homens.

Helena Otterspeer

Reflexão para o domingo, 28 de dezembro

Referente à perícope de 1 João 4, 7-12

Neste tempo luminoso entre o Natal e a Epifania, quando no hemisfério Sul vivenciamos dias longos, claros, cheios de vida, somos convidados a deixar que essa luz não fique apenas fora, mas encontre espaço dentro de nós, na forma do amor de que fala João.

“Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus.”
Assim começa o apelo de João. Ele não o coloca como um mandamento de obediência, mas como um convite a entrar num processo vivo. Ele não nos pede que produzamos o amor por esforço próprio. Ele nos lembra que o amor vem de Deus. Isso muda tudo, pois amar não é cumprir um ideal elevado que está sempre além de nós, mas aprender a acolher algo que já nos precede, que já nos foi dado.

Por isso, o caminho do amor começa, paradoxalmente, por um gesto interior muito humilde: permanecer. Permanecer na verdade de quem somos, com nossas limitações, nossas feridas, nossa distância do ideal. Só quem aprende a habitar a própria realidade com honestidade pode, pouco a pouco, abrir espaço para que o amor de Deus se torne ativo. Se o amor se manifesta como presença, então ele não pode ser produzido como uma técnica nem alcançado por acumulação de esforço. Nesse sentido, amar é muito mais um desaprender do que um aprender. Ou, talvez melhor dizendo, é um aprender a retirar-se.

Por isso, o caminho não é perguntar: “Como posso amar mais?”, mas algo mais incômodo e mais honesto: “O que em mim impede que o amor se manifeste?” Talvez seja esse o chamado para nosso tempo, que fala tanto de amor e vive tão pouco dele: não um ideal mais alto, mas um coração mais livre de obstáculos.

Quando nos amamos uns aos outros — diz João — Deus permanece em nós. E onde Ele permanece, o amor deixa de ser discurso e começa, silenciosamente, a tornar-se presença.

Carlos Maranhão

Reflexão para o domingo, 21 de dezembro

Referente à perícope da Primeira Carta aos Tessalonicenses 4, 13-18

A epístola do Advento nos fala do que se “torna audível no fundo da alma”. Esta época do ano nos estimula a ouvir, a praticar uma escuta atenta, uma escuta que se entrega ao silêncio e busca “pressentir”, que busca desenvolver um ouvir tão aguçado que pode vir a perceber a palavra indizível.
Aqui tocamos algo do mistério do Logos – o Verbo Divino –, que sussurra aos ouvidos do coração humano. Sussurra a palavra futura que reverbera no presente.
Na carta aos tessalonicenses, o apóstolo Paulo nos chama a atenção e acrescenta: Os que faleceram, os que antes de nós “adormeceram” em Cristo, ouvirão primeiro o chamado das trombetas dos anjos.
É necessário aproximar-se deste limiar, o limiar entre a existência terrena e a vida post mortem. Toda oração, toda meditação que busca uma vivência do espírito é, de certo modo, uma experiência de cruzar o limiar entre a existência sensorial e a vida no Espírito! “Orar é como morrer um pouco.“
É necessário “adormecer” para o mundo exterior e abrir o sentido para o que vem – o que ad-vem – ao nosso encontro. No início pode parecer que se trata apenas de um “nada”, escuro e vazio… mas a confiança naquele que nos chama, pode nos levar a pressentir no fundo da alma o Verbo futuro que se faz audível no presente!

Renato Gomes

Reflexão para o domingo, 14 de dezembro

Referente à perícope da Carta de Paulo aos Filipenses 4, 1-9

Ao esperar a visita de uma pessoa querida e estimada, a dona da casa vai arrumar tudo. Tira o pó dos móveis, coloca na mesa uma nova toalha, pendura cortinas lavadas e enfeita a sala com flores.
Na carta aos Filipenses, Paulo fala sobre um único tema, a partir dos mais diversos aspectos: o Cristo ressuscitado, o Ente mais querido e mais respeitado, Senhor do Universo e irmão do ser humano.
Ele está para chegar!
Por isso, precisa-se “preparar a casa”.
Isto é: Na cidade Filipi, a Comunidade de Cristãos deve se tornar digna de recebê-lo. Paulo adverte as pessoas com uma série de conselhos. No último capítulo, ele dá um resumo das qualidades colocando “no resto” oito virtudes. Estas lembram os oito passos do Nobre Caminho Óctuplo
de Buda. Há, porém, uma diferença básica entre os dois: Buda visa com os oito exercícios à cessação do sofrimento; Paulo, em contrapartida, não evita o sofrimento, mas sim, pela proximidade do Cristo, mergulha na alegria da ressurreição e sente a presença da Paz de Deus “que está acima de toda compreensão”.
No Ato de Consagração do Ser Humano, preparamos a nossa alma para a Sua vinda. “Doente está a morada” em que Ele entra. Ele que não evitou o lugar mais humilde para o nascimento de Jesus, que ele nos dá a paz de Natal, tão necessário para o mundo de hoje.

Friedhelm Zimpel

Reflexão para o domingo, 7 de dezembro

Referente à perícope do Evangelho de Lucas 1, 26-38

Nessa bela obra de Fra Angélico representando a anunciação do nascimento de Jesus, o Anjo Gabriel, em toda a sua dinâmica direcionada à Maria, nos gestos das suas mãos, nas suas palavras representadas pela escrita em ouro, manifesta a decidida intenção do mundo espiritual de revelar o processo de concepção à consciência da futura mãe. Isso implica em um completo envolvimento e ligação com o novo ser anunciado. As metas espirituais anunciadas à consciência humana são sempre um grande desafio, porque ainda devem ser a todo custo realizadas. As asas do anjo Gabriel não cabem completamente na morada de Maria; ela ainda tem que aceitar sem condições a sua missão. Ela reconhece que o seu corpo e a sua existência terrena são um instrumento para a revelação do mundo espiritual. Depois do susto e temor, ela pôde aceitar incondicionalmente com as palavras: “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.”
Esse momento é apresentado aqui em relação ao acontecimento representado no fundo à esquerda, a expulsão de Adão e Eva do Paraíso – Eva tendo havido sido retirada por Deus do lado de Adão durante o seu sono inconsciente.
Toda a evolução do ser humano desde a expulsão de Adão e Eva do Paraíso foi realizada sem a consciência individual desperta, mas sobretudo pela guia do mundo divino.
Quando, enfim, chegou a época em que a consciência individual estava desperta, então o mundo espiritual logo lhe revela a sua missão, ou seja, vir a permear todos os processos de vida na Terra com a consciência do Eu Sou. O primeiro que veio a cumprir isso foi Jesus Cristo ressuscitado, denominado pelo apóstolo Paulo de o segundo Adão.
Com a anunciação do anjo Gabriel à Maria se configura um novo ciclo da humanidade, o gerar de um novo ser humano, guiado pelo seu próprio espírito e carregado pelo Cristo.
Desde então, soa o apelo a cada um de nós: “evolva- te” a partir da imagem divina primordial. Assim a humanidade estará contribuindo para a espiritualização de toda a Terra e dos reinos da natureza. Sem isso, o mundo sensorial entrará em colapso, privado de seu fundamento no Espírito. O tempo urge!

Helena Otterspeer

Reflexão para o domingo, 30 de novembro

Na natureza observamos os ritmos do Sol, da Lua e das estrelas. Eles parecem ser eternos.
Lucas nos descreve que esse âmbito, das potencias celestes, será abalado. Que nele aparecerão os sinais para a nova vinda do Filho do Ser Humano.
Hoje, com o começo da Época de Advento, iniciamos o novo ano cristão. Ele nos fala, através das festas, da vinda do Filho do Ser Humano para a Terra. Essa vinda – e a nossa relação com ela – revivenciamos a cada ano.
Vivenciar cada vez mais profundo o significado das festas cristãs é um caminho que nos prepara para podermos nos levantar e erguer as cabeças quando acontecerem os grandes sinais que Lucas descreve.
Assim, podemos passar pelas grandes mudanças que virão e nos abrirmos para a nova vinda do Filho da Humanidade.

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 23 de novembro

Referente à perícope do Apocalipse de João 22, 12-21

No artigo “Ich bin, was fehlt” (Eu sou o que falta), publicado na revista Das Goetheanum em 11 de novembro de 2025, Andreas Laudert descreve poeticamente o contraste entre a intensidade de uma grande cidade e a serenidade de uma cidade no campo, mostrando que, independentemente do lugar, o que realmente falta é a atitude com que cada um de nós responde às circunstâncias.
Nós também podemos perceber esse contraste em nossas vivências entre a grande cidade e a vida no interior. Muitos de nós carregamos a experiência da neblina interior: o cansaço das filas, o metrô lotado, a chuva que atrasa tudo, o barulho constante. Depois, ao chegar ao interior, com seu vento limpo, suas colinas, seu ritmo mais lento, surge a resposta à nossa nostalgia profunda de silêncio, de natureza, de nós mesmos. Mas, nem a cidade é o problema, nem o campo é a solução. O que nos falta não está no lugar. Está em nós. Por isso o Apocalipse diz: “Bem-aventurados os que lavam suas vestes.” Não para voltar ao paraíso perdido, mas para seguir adiante, para a nova Jerusalém que ninguém ainda viu, mas que começa no coração desperto. A verdade é dura e libertadora: Não podemos voltar atrás. Precisamos aprender a amar o mundo como ele é: o trânsito da grande cidade às 18h, a fila do terminal, o cheiro de chuva no concreto e também o silêncio do campo, o canto dos pássaros, o céu de um lugar sem luz artificial. Cristo não espera que fujamos da cidade. Ele quer acender sua luz nela. Entre carros, prazos, celulares, buzinas, ali mesmo começa a revelação. E ela começa pequena: uma palavra de boa vontade, um olhar atento, um gesto generoso. É assim que o mundo se transforma. Não por planos grandiosos, mas por atenção e presença. E, então, surge a frase que resume tudo: Eu sou o que falta. Eu sou o que falta para que a compaixão exista. Eu sou o que falta para que a cidade seja habitável. Eu sou o que falta para que o campo seja encontro e não fuga. Eu sou o que falta para que o Cristo que vem encontre espaço. Que o Cristo desperte em nós o coração capaz de ver, amar e transformar, até que, em cada lugar, cidade ou interior, possamos dizer com verdade:“Eu sou o que falta.”

Carlos Maranhão