Reflexão para o domingo, 10 de maio

Referente à perícope do Evangelho de João 14, 1-16

Como imaginamos a morada que Cristo prepara para nós, junto a Deus?
A nossa morada terrena é o lugar onde vivemos, comemos, dormimos e recuperamos as nossas forças — onde nos sentimos “em casa”. Dela saímos para atuar no mundo e para ela voltamos depois.
A nossa morada de Deus também é um lugar onde recuperamos as nossas forças. Nela reencontramos os nossos ideais e metas de vida. Entramos nela a cada noite e saímos dela com novas forças pela manhã. É o lugar que podemos chamar nossa pátria, o lugar onde nós nos sentimos verdadeiramente “em casa”. Para essa morada voltamos no final da nossa vida.
Podemos entrar nela também durante o dia. Em momentos de silêncio e oração vamos até ela. Ela está sempre aberta quando precisamos de um refúgio para nos recuperar. Nessa morada, estamos em contato com os seres espirituais que nos acompanham, com o Cristo. Fortalecidos, podemos sair dela novamente para atuar no mundo.

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 3 de maio

Referente à perícope do Evangelho de João 16, 1-24

Bem pouco e não me vedes e, de novo, bem pouco e me vereis!”
Os discípulos perguntaram a Cristo o que significava esse “bem pouco”. Comumente essa passagem é entendida como um curto lapso temporal. Os discípulos deixariam de vê-lo em breve pois se aproximava a sua Ascensão — e logo a seguir, tornariam a vê-lo, ainda que de uma maneira diferente, na vivência das línguas de fogo de Pentecostes.
Em nosso idioma, podemos procurar uma expressão que se aproxime do sentido original do termo “bem pouco” (μικρός = mikrós) no idioma grego do texto original: pouquinho, pequenininho, quase nada… E se pensamos num sentido temporal: instante, lampejo, piscar de olhos.
Num piscar de olhos não me vedes e, de novo, num piscar de olhos me vereis!” O que acontece num piscar de olhos? Por um instante, nosso sentido da visão se obscurece, o fluxo dos impulsos luminosos se interrompe, mas no instante seguinte voltamos a ver a luz do mundo.
Em cada piscar de olhos, a luz morre e, a seguir, torna a nascer para nossa visão. A nossa percepção visual do mundo não é um fluxo constante, mas uma sucessão de pequenos momentos marcados por breves interrupções. Pequenas mortes e ressurreições; ou também poderíamos dizer, uma sequência de pequenos ocasos e novos amanheceres a cada instante.
O ciclo do sono e vigília também poderia ser visto como um “piscar de olhos” dentro na nossa vida terrena. Do mesmo modo que o ciclo maior das encarnações e a vida entre a morte e o novo nascimento também poderia ser entendido como um “piscar de olhos” maior dentro de nossa existência.
O interessante seria ver então que a cada “piscar de olhos” sucede uma renovação, uma possibilidade de retomar o fluxo dos acontecimentos de maneira nova, como o amanhecer de cada dia traz nova luz ao ritmo de nossas vidas e cada nova encarnação traz um rejuvenescimento e a oportunidade de recomeçar e retomar o processo evolutivo de nosso destino.
Não poderia, portanto, cada pequeno (μικρός = mikrós) piscar de olhos também ser percebido dentro dessa mesma qualidade, mesmo que numa dimensão mais sutil? Certamente, se treinássemos olhar o mundo de maneira nova, após cada piscadela, ficaríamos surpresos com o que talvez não tivéssemos percebido antes. Uma das grandes dificuldades de ver o novo reside na suposição de que a cada piscar de olhos retomamos as coisas exatamente no instante em que nos encontrávamos antes e cremos que nada deve haver mudado desde então.
Nós mesmos bloqueamos a possibilidade de que esse “algo novo” possa se manifestar nesse sutil instante, entre fechar-nos e tornarmos a nos abrir para o mundo. Podemos afirmar: Nada, de fato, acontece num piscar de olhos! Mas podemos, sempre, nos perguntar: Quantas coisas poderiam ocorrer num simples piscar de olhos?
No Ato de Consagração do Homem, vemos que o cálice e a patena são colocados sobre o altar no início da celebração, recobertos por um pequeno lenço. Num certo momento, num piscar de olhos, esse lenço é retirado, a patena com o pão é colocada sobre o altar e o cálice encontra-se vazio. Noutro piscar de olhos, o cálice encontra-se cheio… E se percebermos com atenção, dão-se vários piscares de olhos e a cada um deles algo sutil e ao mesmo tempo grandioso acontece; até que após a transubstanciação, num piscar de olhos, pão e vinho se tornam Corpo e Sangue daquele que antes não estava visível e que em “bem pouco” se torna presente em sua união espiritual com a matéria, nas substâncias sobre o altar.
Cada celebração da eucaristia é, de certo modo, uma repetição das palavras de Cristo nesse discurso de despedida aos discípulos: Bem pouco e não me vedes e de novo bem pouco e me vereis!”
O desafio é grande, pois não estamos acostumados a vivenciar tão intensamente e de maneira nova o mundo após cada “piscar de olhos”! Aqui, entretanto, não cabe o desânimo ou a frustração por não conseguir algo. Mais vale, porém, a alegria de esperar reconhecer o novo que nasce, que quer vir à luz, em cada mikrós, após cada piscar de olhos!

Renato Gomes
Pastor da Comunidade de Cristãos de Campinas

Reflexão para o domingo, 26 de abril

Referente à perícope do Evangelho de João 15, 1-27

O mundo moderno nos proporciona a oportunidade de vivenciarmos cada vez mais a consciência de nós mesmos como indivíduos. A sensação de liberdade e de poder fazermos nossas próprias escolhas é algo muito precioso para todos nós. No entanto, esse movimento traz consigo algo que funciona quase como um efeito colateral: o isolamento do outro, do mundo e até de uma fonte vital que nos alimente espiritualmente. Na verdade, nunca estivemos tão conectados pelos meios de comunicação que a tecnologia nos oferece, mas mesmo assim esses meios não nos proporcionam o alimento que mais necessitamos. Somos como uma árvore, que cresce no deserto e não recebe a visita de pássaros, nem de gente para admirar sua beleza ou desfrutar dos seus frutos. Ela é estéril, não há troca e tampouco reconhecimento.
Esse vazio é, na verdade, o anseio por algo maior que possa nos resgatar desse isolamento em que nos encontramos. Na sétima afirmação do “Eu sou” do Evangelho de João, Cristo nos diz: “Eu sou a videira verdadeira”, e nós somos os ramos. Ele nos revela que nossa fonte de vida é o próprio Cristo. Conectados a essa fonte, a consciência de si já não se sente mais isolada, pois o Cristo se torna o vínculo vivo com as outras almas. Ele é o tronco que nos coloca em ligação com os outros ramos, as outras pessoas com quem coexistimos. Por meio dele reconhecemos que não vivemos mais separados, mas pertencemos uns aos outros. Permanecer significa não só compreender, mas sobretudo vivenciar essa ligação. O isolamento nos parece, portanto, como uma espécie de ilusão da separação, é como se estivéssemos morrendo de sede diante de um oásis, por incapacidade de percebê-lo.
A época em que indivíduos autônomos se descobrem como almas separadas é também a época do despertar de uma noção de pertencimento para além dos laços de família, de tribo, de povo. É a época do despertar para o pertencimento em Cristo. Não se trata de algo abstrato, mas do despertar para o pertencimento a uma comunidade viva que compartilha do mesmo vínculo. Essa é a comunidade do Cristo.

Carlos Maranhão

Reflexão para o domingo, 19 de abril

Referente à perícope do Evangelho de João 10, 1-16

“À vida falta uma parte” …*
O que não falta, hoje em dia, certamente é a capacidade de receber mensagens dos lugares mais distantes do globo, a faculdade de ver e ouvir o que se passa em qualquer lugar do mundo, de perceber as coisas mais distantes do Universo e de perscrutar processos, por mais minúsculos que sejam.
Quer dizer: O mundo visível entra em nossas almas através das portas dos sentidos.
É aqui que opera toda uma gigantesca indústria de aparelhamento eletrônico, com o intuito de invadir as portas dos sentidos do ser humano. Para quê tanto esforço? Qual é a finalidade de toda essa técnica? O desejo é conquistar e prender a atenção das nossas almas. Tanto poderes políticos como comerciais pagam caro por cada minuto ou segundo da nossa atenção.

“À vida falta uma parte” …*
O que realmente nos falta é a parte do silêncio, a parte do escuro, do invisível. À civilização barulhenta do dia, falta o acesso ao reino invisível, misterioso da noite. À cultura brilhante e poderosa da vida material falta a parte profunda e pacífica da vida espiritual. Qual será o acesso a este reino invisível, geralmente esquecido e pouco valorizado?

“À vida falta uma porta” … *
O Cristo desceu das alturas do espírito e encarnou-se em um corpo terrestre, vivendo três anos em nosso mundo sensorial. Aqui, Ele tornou-se a porta entre o mundo invisível e o mundo dos sentidos. Ensinou aos discípulos a abrirem os olhos dos seus corações e a perceberem, pela fé, dentro do mundo do ver e do ouvir, a atuação do amor divino manifestado em Cristo Jesus.
Ele se encarnou na Terra, porque somente pode passar pela morte nesta vida material, pois não há morte no mundo espiritual.
Pela ressurreição, Ele plantou, dentro do nosso mundo, o germe de uma nova criação, de um mundo futuro em que o visível se une ao invisível, o material ao espiritual, a Terra ao céu – pois, como consta em João 10, 1-16, foi Ele quem disse:

“EU SOU A PORTA…”

Friedhelm Zimpel

*Versos de entreter-se
Ferreira Gullar

À vida falta uma parte
– seria o lado de fora –
pra que se visse passar
ao mesmo tempo que passa

e no final fosse apenas
um tempo de que se acorda
não um sono sem resposta.

À vida falta uma porta.

Reflexão para o domingo, 12 de abril

Referente à perícope do Evangelho de João 20, 1-20

Quando o Cristo ressuscitado apareceu aos discípulos pelas primeiras vezes, algo aconteceu que fez de Tomé um representante da humanidade nos tempos a seguir. Um período do desenvolvimento humano estava chegando ao fim, e agora as pessoas deveriam se transformar e se comportar de maneira diferente. Elas deveriam estabelecer uma nova relação com o mundo divino e também com o seu destino na Terra.
No período anterior ao nascimento de Cristo, as pessoas podiam ver os feitos dos deuses com seus olhos físicos; elas eram clarividentes. Falavam de deuses que compartilhavam seu destino com a humanidade. Conheciam a existência pré-natal e pós-morte, que experimentavam como espíritos entre espíritos. Em comunidade se ligavam ao mundo divino. Sentiam-se integradas a uma ordem superior, segundo a qual a vida em todos os seus aspectos estava significativamente alinhada.
Chegou então o tempo da perda gradual da clarividência e do pertencimento tanto a um mundo espiritual quanto a uma comunidade espiritual. Chegou o tempo em que a humanidade se tornou cada vez mais autônoma e, como resultado, o senso de direção na vida deixou de surgir naturalmente. Em vez disso, a humanidade se sentiu cada vez mais confinada a um mundo puramente material. A realidade da existência se limitava ao intervalo entre o nascimento e a morte. Todos os esforços eram direcionados para tornar a vida na Terra o mais confortável possível. Foi também nessa época que os deuses se retiraram cada vez mais, para que a humanidade pudesse despertar como um espírito livre.
Tomé não estava com os discípulos quando Cristo apareceu entre eles. Estava sozinho. Ele não compartilhou as experiências dos outros discípulos; para acreditar precisaria tocar nas feridas do martírio. Ele não compreendia o significado da morte sacrificial. Para ele, as feridas representavam o fim trágico de um esperançoso impulso. Contudo, uma semana depois, Cristo apareceu a todo o círculo de discípulos e convidou Tomé a tocar suas feridas, momento em que Tomé o reconheceu e se prontificou a segui- lo.
Tomé não estava com os outros discípulos quando Cristo apareceu. Diante da sua incredulidade, Cristo dirige essas palavras às gerações futuras, aquelas que cada vez mais baseiam sua existência no mundo material, mas que podem, interiormente, reacender a força vital da fé. O poder da fé hoje, a relação viva com Cristo e seu feito, é o que estabelece novas comunidades espirituais, confere um novo significado à vida terrena e até mesmo à morte. A antiga experiência de Deus pelo corpo e sentidos está desaparecendo; o poder da fé interior renasce! Deus nasce na alma, no Eu Sou!

Helena Otterspeer

Reflexão para o domingo, 5 de abril

Referente à perícope do Evangelho de Marcos 16, 1-18

Quem vai retirar para nós a pedra do túmulo?
Nós também vivenciamos essa pergunta das mulheres no domingo de Páscoa, quando o túmulo da nossa alma está fechado por uma pedra. Em momentos de grande dor, de tristeza e de falta de esperança nos sentimos assim. Vivenciamos a nós mesmos como se estivéssemos mortos por dentro. E não conseguimos tirar a pedra e abrir o túmulo sozinhos.
Quem vai tirar para mim a pedra do túmulo da minha alma?
Assim como as mulheres no domingo de Páscoa, percebemos que, de repente, a pedra foi retirada. Uma nova luz apareceu na nossa alma, uma nova esperança. Como isso aconteceu?
Olhando para dentro, percebemos que ela surgiu da morte. Dentro de nós encontramos a luz do Cristo ressuscitado. Ele ajudou e ajuda a retirar a pedra do túmulo da nossa alma. Ele quer transformar esse túmulo em um altar.

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 29 de março

Referente à perícope do Evangelho de Mateus 22, 1-11

O crescimento vegetal não acontece de forma linear; trata-se de uma sucessão de momentos de crescimento alternados com pausas de concentração. Nas gramíneas — e, em especial, nos bambus — isto aparece com nitidez: forma-se um nó, depois um seguimento do talo que se alonga, surge outro nó, novamente acompanhado de um alongamento linear. Nesse encadeamento surge visivelmente o crescimento do bambu ou de qualquer outro ramo vegetal.
Olhando com atenção a formação do nó, percebemos que, apesar de representar uma interrupção do crescimento linear, entre muitas outras funções cabe destacar duas:
– Os diversos nós que compõem um bambu, uma cana — ou mesmo um galho — conferem grande estabilidade à estrutura como um todo. Se houvesse apenas crescimento linear, depois de certo tamanho, o excessivo comprimento das fibras retilíneas comprometeria a capacidade de toda estrutura para se manter ereta! Os nós criam arquitetonicamente pontos de amarração, permitindo que o bambu ou o galho se mantenham firmes sem se curvar — apesar da enorme tensão que decorre da proporção entre comprimento longitudinal e diâmetro do galho ou do bambu!
– Outra característica importante é que os nós são o local onde as folhas ou os novos brotos eclodem. São pontos de germinação. No caso do bambu, somente folhas saem destes nós. Mas ali também se encontram brotos que, quando plantamos, dão origem a novas plantas. Noutras plantas, os nós representam os locais de ramificação. O crescimento, nesses casos, não segue uma única direção, mas se abre na conquista de novos espaços (e chegam a formar as amplas copas das árvores).
O Domingo de Ramos marca o início da Semana Santa. Nesta semana acontecem muitas coisas num curto período de tempo e num espaço físico bem delimitado, pois praticamente todos os acontecimentos estão relacionados à cidade de Jerusalém.
Aqui também poderíamos notar uma espécie de “nó”, quando os acontecimentos narrados se concentram e o fluir da narrativa dos Evangelhos parece se fixar naqueles poucos dias, em torno daquele único lugar.
Somente depois, na Páscoa, a narrativa se libera e flui novamente. Ela expande e alcança círculos cada vez mais amplos, à medida em que o Cristianismo se propaga pelas regiões circunvizinhas.
Assim, também se poderia, hoje, tomar a leitura e a meditação sobre os acontecimentos da Semana Santa como um momento de concentração para as forças da alma. Um momento para reunir as forças e focar em certos pontos, sem se preocupar que algo precisa fluir ou se expandir do “lado de fora “. O mais importante é a capacidade de concentração e de reflexão sobre as imagens da Paixão de Cristo, além da nossa própria conexão interna com essas imagens.
A seu tempo, aquilo que se formou a partir desse trabalho interior concentrado se expandirá naturalmente… Se ramificará na própria vida. Pois, como na planta, são os “nós” que desenvolvemos na alma que nos criam as bases para a sustentação e para o crescimento de nosso próprio ser espiritual!
Nesse sentido: “Bendito o que vem em nome do Senhor!” — aquele que quer entrar em nossa alma para nos ajudar a chegar a esse profundo grau de concentração!

Renato Gomes

Reflexão para o domingo, 22 de março

Referente à perícope do Evangelho de João 8, 1-11

Vivemos num mundo de violência extremada. As potências se armam e impõem suas decisões na forma de bombardeios. Enquanto isso, no dia a dia, muitos lançam pedras na forma de palavras ofensivas e injuriosas. Clamamos por paz, mas vivemos num mundo que, a cada momento, anula a sua possibilidade, pois a paz só pode nascer de corações pacificados.
Na passagem do Evangelho de João sobre a mulher adúltera, encontramos uma imagem profunda da alma humana. De um lado, os acusadores, rápidos em condenar, mas inconscientes de si mesmos. De outro, a mulher, exposta, culpada, amedrontada. Jesus silenciosamente escreve na terra um novo caminho de consciência e perdão. Os acusadores se retiram, chamados pela própria consciência de culpa. A mulher permanece no centro, liberada para seguir, a partir do despertar da consciência, em direção a um novo começo. Ela representa a alma ferida, contraditória, mas capaz de ser tocada pela luz do Cristo.
No momento crucial em que vivemos, cresce a possibilidade de um despertar da consciência, justamente no momento em que se intensificam as sombras ao nosso redor. O Cristo nos aponta em uma direção de compaixão, perdão e renascimento. Com ele, começa a nascer silenciosamente nos corações humanos a verdadeira possibilidade de paz.

Carlos Maranhão

Reflexão para o domingo, 15 de março

Referente à perícope do Evangelho de João 6, 26-35

Vejamos esta charada. O que é o que é?

ELE é enterrado vivo, renasce ereto, amadurece dourado, mas logo é cortado, batido cruelmente, moído, amassado, afogado na água, queimado no fogo e finalmente vendido.
Tudo isto não seria suficiente sofrimento? Muito pelo contrário:
Novamente é cortado, quebrado e mordido, misturado com água e finalmente engolido.

Neste domingo, comemoramos o segundo domingo da época da Paixão de Jesus Cristo. Qual foi a primeira sensação de Cristo, depois do batismo de Jesus no rio Jordão? O que sentiu o Espírito Divino, após se encarnar no corpo mortal de Jesus, depois de jejuar 40 dias e 40 noites? Foi o que qualquer pessoa sentiria nesse momento: fome. Esta necessidade acompanha o ser humano, já desde milênios até os dias de hoje. Mesmo em nosso mundo moderno, com todo o avanço da ciência e da técnica, em muitos países há milhões de pessoas sofrendo fome. Para um Ser Divino onipotente, deveria ser fácil vencer esse flagelo da humanidade por um simples ato mágico, a partir de seu poder divino. Foi isto que o tentador sugere nesse instante: “Se és o Filho de Deus, dize para que estas pedras se tornem pães” (Mateus 4, 3).
O Cristo consegue rejeitar esta tentação. Ele sabe que não é a sua missão afastar todo o sofrimento da humanidade. Sua missão é outra: Plantar nos corações das pessoas a semente de uma nova faculdade, a semente do amor abundante e incondicional. Com esta nova faculdade, ele alimenta muitos com pouco, como ocorre na alimentação das cinco mil pessoas. Com esse amor, ele cura as diferentes enfermidades. Com esse amor transbordante, ele se une intimamente aos seus discípulos na Última Ceia, e com esse mesmo amor radical entrega-se completamente, de corpo, alma e espírito, à morte na cruz, para a salvação da humanidade.
Contemplando a charada acima, podemos pensar em toda a série de transformações a que o grão de trigo costuma ser submetido no caminho da semente até chegar à pequena forma arredondada de pão chamada hóstia. No Ato de Consagração do Homem, que é celebrado como missa renovada na Comunidade de Cristãos, podemos sentir o amor infinito do Cristo. Recebendo a comunhão, na forma da pequena hóstia de pão e do gole de suco de uva, sentimos o seu imenso amor que acompanha o caminho da nossa vida como “o doador das alegrias e o consolador nas dores da existência.”

Friedhelm Zimpel

Reflexão para o domingo, 8 de março

Referente à perícope do Evangelho de João 6, 1-15

Lucas Cranach, 1535-1540.

A paixão de Cristo já começa no momento do batismo, quando o espírito do Cristo se liga à natureza terrena de Jesus e assim, passo a passo, o Filho de Deus vai se tornando Homem. “O Verbo se fez carne” – esse é o processo descrito no Evangelho de João, que começa no batismo no Jordão e se cumpre totalmente quando, na cruz, Jesus Cristo antes do seu último suspiro diz: “Está consumado”.
Não podemos imaginar a dor que este ser divino sentiu nesse processo comparável à compressão de um ser cósmico eterno e infinito em um ser microcósmico corporal e transitório, ou ainda comparável a uma intensa e dolorosa cristalização.
Nos três anos, do batismo à morte na cruz, o Cosmo se contrai num ponto: a corporalidade terrena de Jesus. Esse imenso sacrifício, permeado pelo infinito amor divino, atua por outro lado na natureza humana, de tal maneira que a partir da ressurreição todo ser humano ganha como corpo, alma e espírito um novo acesso às forças redentoras crísticas. Esse processo começa primeiro entre os seus discípulos e seguidores e se estende depois da ressurreição à toda a humanidade.
Jesus Cristo sobe repetidas vezes com seus discípulos e com a multidão, que frequentemente os segue, uma montanha para, nas alturas – não só no sentido do mundo sensorial, mas também no sentido espiritual – estabelecer novamente a relação perdida com as fontes de vida e luz divinas. Das alturas começa a fluir consolo, cura, luz e vida…
Assim foi na Páscoa do ano anterior à morte na cruz para a alma humana, lá na outra margem do mundo, na presença de Cristo poder receber a substância divina abençoada, o alimento da alma, que já não estava mais acessível nessa época. Essa substância divina pode ser encontrada quando, na procura da superação dos males terrenos, pessoas se reúnem com a mesma intenção de obter a cura que vem das alturas. Para isso, faz-se necessário sentar em grupos sobre a relva verde, o que acontece na prática de um caminho espiritual, quando nos afastamos do quotidiano e das preocupações terrenas para nos dedicar a um estudo espiritual, à oração ou meditação. Nesse ambiente de calma interior, dentro da alma humana, encontra-se uma criança que traz um pouco do alimento divino. Essa criança que ainda pouco se destaca, mas que carrega muito potencial para o futuro, é o “Eu superior” na alma humana. E o alimento que traz foi descrito por Jesus Cristo no Evangelho de João, “fazer a vontade do Pai”. Quando fazemos a vontade do Pai, aquilo que ainda apenas brotara dentro da alma, o Eu crístico, ainda quase que imperceptível, cresce e se fortalece. Ele espiritualiza a alma, que vai se tornando uma imagem do Cosmo com o Sol no meio das 12 constelações zodiacais, chegando a dispor de 12 qualidades espirituais. A alma humana individual se torna apta a formar comunidades espirituais, que aliadas aos seres divinos transformam o mundo.
Caminhemos com o Cristo na sua paixão, descobrindo o mistério do seu feito único em toda a história da humanidade, em profunda devoção e gratidão!

Helena Otterspeer