Reflexão para o domingo, 19 de julho

Referente à perícope do Evangelho de João 1, 29-39

João Batista dá testemunho do Cristo e daquilo que ele vivenciou durante o batismo do Cristo. Ele faz esse reconhecimento perante o mundo dos céus e perante o mundo dos seres humanos. Ele está fiel a esse testemunho também perante a rejeição do mundo.
Essa força de testemunhar é um exemplo para nós. Conseguimos sustentar o que reconhecemos como verdade? Conseguimos dar testemunho disso também em momentos de resistência a ela e de rejeição?
Essas perguntas valem para todos os momentos da nossa vida — para as “pequenas” verdades do dia a dia e para as “grandes” sobre o mundo espiritual e o Cristo. Elas todas estão ligadas e fazem parte de uma verdade universal.
Podemos considerar a força de reconhecer a verdade e de dar testemunho dela como uma qualidade do Espírito Santo.

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 28 de junho

Referente à perícope do Evangelho de Marcos 1, 1-11

Marcos nos diz que João pregava no deserto um batismo de arrependimento. O deserto, em grego, é eremos: o lugar vazio, silencioso, onde desaparecem as distrações e o ser humano fica sozinho consigo mesmo e diante de Deus. Da mesma raiz nasce a palavra ‘eremita’, aquele que busca livremente essa solidão para encontrar a voz do Espírito.
Talvez nunca a humanidade tenha vivido tanta dificuldade em encontrar esse silêncio interior quanto em nossa época. Estamos cercados de informações, opiniões, imagens e ruídos. Temos respostas para quase tudo, mas continuamos procurando sentido para a vida. O deserto dos nossos tempos não é a ausência de pessoas, mas a dificuldade de encontrar um espaço interior onde possamos ouvir aquilo que realmente importa.
Nesse deserto, João prega um batismo de ‘Metanoia’. Costumamos traduzir essa palavra por ‘arrependimento’. Mas seu significado é muito mais amplo. Metanoia significa uma transformação do modo de pensar, uma mudança profunda da consciência. Não se trata apenas de lamentar os erros do passado, mas de aprender a olhar a realidade de uma maneira nova. O novo estava para vir e João lhe preparava o caminho. Mas para reconhecê-lo, não se poderia manter as antigas formas de pensar.
Essa preparação continua sendo o nosso trabalho hoje. Também nós somos chamados a cultivar momentos de deserto interior. Não um isolamento que nos afaste do mundo, mas um silêncio que nos permita voltar ao essencial.
João se coloca humildemente dizendo que não merece nem mesmo desatar as correias das sandálias do Cristo. Humildade não significa perder nossa individualidade. Pelo contrário, o que deve diminuir é apenas aquilo que impede o verdadeiro ser de aparecer.
Continuamos indo às festas juninas e é ótimo que possamos aquecer nossos corações nesses lindos encontros, mas não nos esqueçamos que aí recolhemos as brasas para preparar nossa própria fogueira no silêncio do coração humano.

Carlos Maranhão

Reflexão para o domingo, 14 de junho

Referente à perícope do Evangelho de João 1, 43-51

 

Com o chamado “segue-me”, Cristo convoca os seus discípulos. Ao redor dele — e também dos discípulos — encontramos outras pessoas que acolhem sua missão e preparam o caminho do Cristo: Maria, João Batista, Marta e Maria Madalena. Cada um deles descobriu o seu lugar no mundo, a tarefa única que só eles podiam realizar.
Desde o nosso nascimento, mas especialmente na juventude e na vida adulta, cada um de nós busca a própria missão. Procuramos a função para a qual somos chamados, a tarefa que somente nós podemos cumprir. Essa busca costuma durar a nossa vida inteira. E, de vez em quando, vivenciamos aquele momento luminoso em que dizemos: “Ah, é isso! Para isso estou aqui.”
Nesses momentos em que reconhecemos nossa missão, sentimos como se os céus se abrissem e os anjos subissem e descessem sobre nós. São momentos em que atuamos em harmonia com o mundo espiritual.

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 7 de junho

Referente à perícope do Evangelho de João 4, 1-26

Jesus estava cansado,
fizera uma longa jornada
e se sentou junto ao poço.

O poço era profundo.
Lá embaixo havia água fresca.
O sol estava alto, era meio-dia.
Fazia muito calor.
Não havia ninguém naquele lugar ermo.

Um poço antigo,
escavado por mão ancestral
e ainda assim fornecia água em abundância
para quem caminhasse até ali.

Mas era preciso ir até aquele lugar ermo.
Encontrar a água que mata a sede
não era tarefa fácil.
Havia a distância, havia o calor!

Chegar à fonte de água viva
requer esforço
e pareceria que poucos se animam a fazê-lo.

Por que o cansaço, daquele que se sentou à beira do poço?
Apenas por causa das dificuldades do caminho?
Ou cansaço, pois não havia ninguém
que buscasse água…
Estava cansado pois, em geral, são poucos
os que se empenham em buscar
a água que mata a sede…

É mais fácil se contentar com as águas próximas,
obtidas sem muito esforço.
Águas que enganam a sede
e por isso exigem que sejam tomadas
de novo e de novo…
Mas uma pessoa se aproximou
e notou que ali havia alguém
que estava cansado de ter sede…
Cansado da sede de esperar
por quem possa fazer a pergunta certa.

Pergunta é como cajado,
que golpeia a rocha
e deixa fluir água viva.

Assim fizera outro patriarca,
Moisés,
noutro deserto, há muito tempo…

Pergunta, bem feita, bem dirigida,
rompe a crosta e abre os mananciais.

Mas só pergunta quem tem sede.
Sede de saber.
Sede de conhecer.
Sede de interagir com o outro,
mesmo que diferente,
mesmo que estranho-estrangeiro.

Pergunta traz resposta,
resposta gera conversa,
conversa se torna diálogo,
dia-Logos,
(o Logos, que é o Verbo)
que é também o nome daquele
que se sentou à beira do poço.

Havia um poço no meio do caminho,
mas o poço de nada serviria
se não lhe fizessem perguntas.
Ele permaneceria em seco silêncio.

Pergunta, pois, quando tenhas sede,
aos poços dos teus áridos caminhos.
Porque ali, cansado de esperar,
encontra-se o manancial escondido,
que quer começar a fluir
quando tocado pela palavra-pergunta
de quem busca o Espírito.

Renato Gomes

Reflexão para o domingo, 31 de maio

Referente à perícope do Evangelho de João 17, 6-11

 

No início da oração sacerdotal do Evangelho de João, Jesus ora ao Pai para que ele nos santifique na verdade. Isso chama especialmente a atenção. O caminho com o Cristo é, em sua essência, o caminho da verdade. Não é por acaso que essa passagem é lida na cerimônia de confirmação dos jovens na Comunidade de Cristãos. Eles se encontram diante de uma importante passagem da vida. Necessitam receber uma palavra que lhes indique o verdadeiro caminho que cada um deverá seguir. Mas essa indicação do caminho da verdade não é necessária apenas na juventude. Ela é fundamental em todas as crises pelas quais passamos até o fim de nossas vidas.
Mas é importante que essa verdade seja recebida por cada ser humano de modo único, de acordo com sua própria individualidade. E aqui encontramos um dos grandes paradoxos de nossa época. Como falar da verdade crística de tal maneira que ela não se converta no relativismo predominante do nosso tempo? Segundo esse relativismo cada pessoa possui sua própria verdade independente das demais, chegando facilmente à conclusão de que a verdade universal e absoluta não existe.
Depois de Pentecostes, ouvimos palavras que nos mostram que a recepção do Espírito possui, de fato, um caráter profundamente individual. Cada discípulo recebe sobre sua cabeça uma língua de fogo particular. Cada um recebe a sua porção do Espírito, segundo seu momento particular e o estágio de sua consciência. Por isso a recebemos de modo cada vez mais amadurecido ao longo da vida. Mas o essencial é que essas línguas de fogo procedem de uma única fonte. O Espírito manifesta-se de muitas formas, mas procede de uma só fonte: Deus, através do Cristo.
Por isso, a verdade cristã não é nem uma verdade imposta exteriormente, igual para todos, nem uma multiplicidade arbitrária de opiniões sem centro comum. Ela é uma fonte universal de sabedoria que deseja ser acolhida individualmente em cada coração humano. Quando recebemos essa verdade em nosso interior, fortalecemos ao mesmo tempo nosso caminho de liberdade e nossa capacidade de construir comunidade. Quanto mais profundamente encontramos aquilo que o Cristo quer revelar em nós, mais nos tornamos verdadeiramente nós mesmos. Quanto mais nos tornamos nós mesmos, mais capazes nos tornamos de encontrar os outros em comunidade.

Carlos Maranhão

Reflexão para o domingo, 24 de maio

Referente à perícope do Evangelho de João 14, 23-31

Festa de Pentecostes

Tudo, aliás, é ponta de um mistério, inclusive os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo.
Grande Sertão – Veredas. João Guimarães Rosa

Hoje em dia, a festa de Pentecostes parece também ser a “ponta de um mistério” para nós. Se perguntássemos na rua, às pessoas: Qual é o sentido dessa festa? poucas saberiam dar uma resposta sem hesitar.
Pentecostes significa 50, quer dizer 50 dias depois da Páscoa. Nessa data os judeus comemoram a instituição da Lei do Sinai. Por essa lei dos dez mandamentos, o Espírito de Deus manifestou-se para o povo judeu com regras claras para o correto comportamento individual e social. Quase todas essas leis são válidas ainda hoje para os judeus.
Na cristandade, a Festa de Pentecostes é o dia da vinda do Espírito Santo (Atos dos Apóstolos, cap. 2). Nesse dia, os apóstolos estavam reunidos quando se ouviu um ruído do céu — como de um vento forte — e línguas como que de fogo desceram sobre cada um deles. Em consequência, os discípulos entusiasmados passaram a saber falar com tanta autoridade que todos os ouvintes os entenderam, mesmo sendo de outras culturas. Esse acontecimento é considerado como sendo a fundação da igreja cristã.
Hoje em dia, o Espírito Santo é invisível aos nossos olhos. O que se vê em todos os lugares são as obras do espírito humano, os produtos da nossa inteligência, que nos rodeiam dia e noite, tanto nas horas do trabalho quanto nas de lazer. Cada vez mais, percebem-se as destruições causadas por este espírito.
Falta-nos o órgão da percepção do espírito do Cristo. Ele nos mostra a chave desta percepção com uma única palavra: Amor.

Quem me ama vive em minha palavra e o meu pai também o há de amar e iremos ambos viver nele. (João14,23)

Obviamente, não é o amor como sentimento ou como paixão, mas sim o amor que abre os olhos do coração. O amor que tenta ver e entender, que observa com empatia, que não vê apenas o exterior de uma pessoa, mas vai ao encontro de sua alma. Que procura a ponta do mistério para além da aparência. Diante de uma planta, o amor pergunta: Quem és tu? Qual será a essência do teu ser? Diante de uma pessoa, pergunta: Quem és tu, qual é o tesouro da tua alma? O teu mistério?
No Ato de Consagração, sempre tentamos abrir os ouvidos e entrar na palavra do Cristo, no mistério da sua presença. Ele de novo está enviando o seu Espírito para os seus discípulos reunidos, esperando que se acenda neles o fogo do entusiasmo — para que sempre possa ser sanado o que se apresenta como sendo doente no ser terreno.

Friedhelm Zimpel

Reflexão para o domingo, 17 de maio

Referente à perícope do Evangelho de João 16, 24-33

Na geometria projetiva, o ponto está relacionado com o infinito. Esses dois elementos polares formam uma unidade dinâmica. Esse pensamento pode se manifestar em ciclos de vida como o de uma planta, que a partir da semente se expande na atmosfera da Terra para novamente deixar cair a semente no final do ciclo anual de vida. Sem o calor, sem a vida e sem a luz do sol, esse ciclo não seria possível. Também o caminho do filho de Deus, do Cristo, do espírito do sol, da infinita amplidão cósmica até o ponto mais profundo do interior da Terra, ou seja, da onipotência e consciência divina até a impotência da morte e materialismo terrenos, vai renovar a ameaçada ligação da vida entre os céus e a Terra. Esta ameaça poderia levar à morte da alma humana, ao fracasso do projeto espiritual da humanidade, predestinada a alcançar a vida eterna, a existência como Espírito entre Espíritos.
Na imagem de Jesus Cristo na cruz vemos como a consciência divina se liga à morte, ao âmbito pontual da completa ausência de Deus. A consciência divina não conhece a morte, só conhece transformações, enfraquecimentos e fortalecimentos. Para que a consciência divina pudesse conhecer a morte, Deus teve que se tornar Homem, o Verbo divino se fez carne e sofreu a morte na cruz. Quando a consciência divina — com o último suspiro de Jesus Cristo na cruz — abarcou a morte, o caminho para a escuridão das camadas interiores da Terra, para o reino das trevas da morte se abriram para a luz divina que alcançou o centro da Terra para novamente ligá-lo às infinitas amplidões de vida celeste. Nesse momento, Cristo se liga eternamente com a Terra e com a alma humana; por outro lado, a alma humana passa a acolher a substância divina em si. Os céus chegam à Terra e a Terra se eleva aos céus.
Na Ascensão, celebramos esse vitorioso momento de graça em que se torna possível para a alma humana permeada pela substância divina de Cristo se elevar as fontes celestes de vida. Os elementos polares da vida transitória corporal terrena e da vida anímico espiritual celeste do caminho pós morte se ligam numa unidade. O âmbito do Pai da existência terrena se liga — pela mediação do Cristo — ao âmbito do Espírito no caminho pós morte. Como isso pode se tornar possível? Isso foi o tema (não mencionado nos Evangelhos) das conversas e ensinamentos do Cristo com os seus discípulos nos 40 dias entre a Páscoa e a Ascensão. Esse é o caminho que temos que percorrer em plena dedicação, conscientemente e livremente com Jesus Cristo ressuscitado para que ele comece a viver no nosso Eu espiritual. Essa vida em espírito transformará e espiritualizará toda a Terra e toda a natureza humana.

Helena Otterspeer

Reflexão para o domingo, 10 de maio

Referente à perícope do Evangelho de João 14, 1-16

Como imaginamos a morada que Cristo prepara para nós, junto a Deus?
A nossa morada terrena é o lugar onde vivemos, comemos, dormimos e recuperamos as nossas forças — onde nos sentimos “em casa”. Dela saímos para atuar no mundo e para ela voltamos depois.
A nossa morada de Deus também é um lugar onde recuperamos as nossas forças. Nela reencontramos os nossos ideais e metas de vida. Entramos nela a cada noite e saímos dela com novas forças pela manhã. É o lugar que podemos chamar nossa pátria, o lugar onde nós nos sentimos verdadeiramente “em casa”. Para essa morada voltamos no final da nossa vida.
Podemos entrar nela também durante o dia. Em momentos de silêncio e oração vamos até ela. Ela está sempre aberta quando precisamos de um refúgio para nos recuperar. Nessa morada, estamos em contato com os seres espirituais que nos acompanham, com o Cristo. Fortalecidos, podemos sair dela novamente para atuar no mundo.

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 3 de maio

Referente à perícope do Evangelho de João 16, 1-24

Bem pouco e não me vedes e, de novo, bem pouco e me vereis!”
Os discípulos perguntaram a Cristo o que significava esse “bem pouco”. Comumente essa passagem é entendida como um curto lapso temporal. Os discípulos deixariam de vê-lo em breve pois se aproximava a sua Ascensão — e logo a seguir, tornariam a vê-lo, ainda que de uma maneira diferente, na vivência das línguas de fogo de Pentecostes.
Em nosso idioma, podemos procurar uma expressão que se aproxime do sentido original do termo “bem pouco” (μικρός = mikrós) no idioma grego do texto original: pouquinho, pequenininho, quase nada… E se pensamos num sentido temporal: instante, lampejo, piscar de olhos.
Num piscar de olhos não me vedes e, de novo, num piscar de olhos me vereis!” O que acontece num piscar de olhos? Por um instante, nosso sentido da visão se obscurece, o fluxo dos impulsos luminosos se interrompe, mas no instante seguinte voltamos a ver a luz do mundo.
Em cada piscar de olhos, a luz morre e, a seguir, torna a nascer para nossa visão. A nossa percepção visual do mundo não é um fluxo constante, mas uma sucessão de pequenos momentos marcados por breves interrupções. Pequenas mortes e ressurreições; ou também poderíamos dizer, uma sequência de pequenos ocasos e novos amanheceres a cada instante.
O ciclo do sono e vigília também poderia ser visto como um “piscar de olhos” dentro na nossa vida terrena. Do mesmo modo que o ciclo maior das encarnações e a vida entre a morte e o novo nascimento também poderia ser entendido como um “piscar de olhos” maior dentro de nossa existência.
O interessante seria ver então que a cada “piscar de olhos” sucede uma renovação, uma possibilidade de retomar o fluxo dos acontecimentos de maneira nova, como o amanhecer de cada dia traz nova luz ao ritmo de nossas vidas e cada nova encarnação traz um rejuvenescimento e a oportunidade de recomeçar e retomar o processo evolutivo de nosso destino.
Não poderia, portanto, cada pequeno (μικρός = mikrós) piscar de olhos também ser percebido dentro dessa mesma qualidade, mesmo que numa dimensão mais sutil? Certamente, se treinássemos olhar o mundo de maneira nova, após cada piscadela, ficaríamos surpresos com o que talvez não tivéssemos percebido antes. Uma das grandes dificuldades de ver o novo reside na suposição de que a cada piscar de olhos retomamos as coisas exatamente no instante em que nos encontrávamos antes e cremos que nada deve haver mudado desde então.
Nós mesmos bloqueamos a possibilidade de que esse “algo novo” possa se manifestar nesse sutil instante, entre fechar-nos e tornarmos a nos abrir para o mundo. Podemos afirmar: Nada, de fato, acontece num piscar de olhos! Mas podemos, sempre, nos perguntar: Quantas coisas poderiam ocorrer num simples piscar de olhos?
No Ato de Consagração do Homem, vemos que o cálice e a patena são colocados sobre o altar no início da celebração, recobertos por um pequeno lenço. Num certo momento, num piscar de olhos, esse lenço é retirado, a patena com o pão é colocada sobre o altar e o cálice encontra-se vazio. Noutro piscar de olhos, o cálice encontra-se cheio… E se percebermos com atenção, dão-se vários piscares de olhos e a cada um deles algo sutil e ao mesmo tempo grandioso acontece; até que após a transubstanciação, num piscar de olhos, pão e vinho se tornam Corpo e Sangue daquele que antes não estava visível e que em “bem pouco” se torna presente em sua união espiritual com a matéria, nas substâncias sobre o altar.
Cada celebração da eucaristia é, de certo modo, uma repetição das palavras de Cristo nesse discurso de despedida aos discípulos: Bem pouco e não me vedes e de novo bem pouco e me vereis!”
O desafio é grande, pois não estamos acostumados a vivenciar tão intensamente e de maneira nova o mundo após cada “piscar de olhos”! Aqui, entretanto, não cabe o desânimo ou a frustração por não conseguir algo. Mais vale, porém, a alegria de esperar reconhecer o novo que nasce, que quer vir à luz, em cada mikrós, após cada piscar de olhos!

Renato Gomes
Pastor da Comunidade de Cristãos de Campinas

Reflexão para o domingo, 26 de abril

Referente à perícope do Evangelho de João 15, 1-27

O mundo moderno nos proporciona a oportunidade de vivenciarmos cada vez mais a consciência de nós mesmos como indivíduos. A sensação de liberdade e de poder fazermos nossas próprias escolhas é algo muito precioso para todos nós. No entanto, esse movimento traz consigo algo que funciona quase como um efeito colateral: o isolamento do outro, do mundo e até de uma fonte vital que nos alimente espiritualmente. Na verdade, nunca estivemos tão conectados pelos meios de comunicação que a tecnologia nos oferece, mas mesmo assim esses meios não nos proporcionam o alimento que mais necessitamos. Somos como uma árvore, que cresce no deserto e não recebe a visita de pássaros, nem de gente para admirar sua beleza ou desfrutar dos seus frutos. Ela é estéril, não há troca e tampouco reconhecimento.
Esse vazio é, na verdade, o anseio por algo maior que possa nos resgatar desse isolamento em que nos encontramos. Na sétima afirmação do “Eu sou” do Evangelho de João, Cristo nos diz: “Eu sou a videira verdadeira”, e nós somos os ramos. Ele nos revela que nossa fonte de vida é o próprio Cristo. Conectados a essa fonte, a consciência de si já não se sente mais isolada, pois o Cristo se torna o vínculo vivo com as outras almas. Ele é o tronco que nos coloca em ligação com os outros ramos, as outras pessoas com quem coexistimos. Por meio dele reconhecemos que não vivemos mais separados, mas pertencemos uns aos outros. Permanecer significa não só compreender, mas sobretudo vivenciar essa ligação. O isolamento nos parece, portanto, como uma espécie de ilusão da separação, é como se estivéssemos morrendo de sede diante de um oásis, por incapacidade de percebê-lo.
A época em que indivíduos autônomos se descobrem como almas separadas é também a época do despertar de uma noção de pertencimento para além dos laços de família, de tribo, de povo. É a época do despertar para o pertencimento em Cristo. Não se trata de algo abstrato, mas do despertar para o pertencimento a uma comunidade viva que compartilha do mesmo vínculo. Essa é a comunidade do Cristo.

Carlos Maranhão