Reflexão para o domingo, 12 de julho

Época de João Batista
Referente ao Perícope João 5, 31–38

Neste perícope Cristo fala de três formas de testemunhos verdadeiros. O testemunho do outro, das obras e do mundo espiritual. Essas três formas podem nós ajudar no caminho do desenvolvimento interno?
O que recebemos do outro como testemunho, é como um espelho para nós. Através do espelhamento percebemos os efeitos dos nossos pensamentos, sentimentos e ações no mundo. Eles podem estar em harmonia com o nosso redor ou criar conflitos. Assim recebemos em cada encontro um testemunho da nossa atuação no mundo. Isso pode nos ajudar no nosso desenvolvimento.
Com nossas obras podemos estar voltados para o mundo físico, para o material. Nesse caso elas provavelmente darão testemunho do nosso sucesso na vida, da nossa riqueza e da nossa posição social. Nossas obras também podem estar mais voltadas para o social e para o espiritual. Nesse caso, elas talvez não sejam visíveis no mundo, mas também darão testemunho sobre nós. Nossas obras dão testemunho de nosso caminho aqui na Terra. Eles podem nós lembar do foco da nossa vida, do nosso eu.
O mundo espiritual também dá testemunho de nós. Ele o dá da essência espiritual divina no eu de cada um de nós. De nosso potencial em sermos um ser espiritual encarnado na Terra e de transformarmos a Terra através do espiritual. Esse testemunho, recebemos incondicionalmente. A nossa tarefa é desenvolvermos esse potencial.

Julian Rögge

Reflexão sobre o Evangelho de João, 11 de julho

“Depois disso, José de Arimateia pediu a Pilatos para retirar o corpo de Jesus; ele era discípulo de Jesus às escondidas, por medo dos judeus. Pilatos o permitiu. José veio e retirou o corpo. Veio também Nicodemos, aquele que anteriormente tinha ido a Jesus de noite; ele trouxe uns trinta quilos de perfume feito de mirra e de aloés. Eles pegaram o corpo de Jesus e o envolveram, com os perfumes, em faixas de linho, do modo como os judeus costumam sepultar. No lugar onde Jesus foi crucificado havia um jardim e, no jardim, um túmulo novo, onde ninguém tinha sido ainda sepultado. Por ser dia de preparação para os judeus, e como o túmulo estava perto, foi lá que eles colocaram Jesus.”

João 19, 38-42

Quem são os personagens colocados, pelo evangelista, nos últimos momentos onde os sentidos humanos puderam acompanhar o corpo físico de Jesus? José de Arimateia, discípulo de Cristo. Por medo dos judeus, até então não se revelara como tal. Nestes versículos, surge liberto de seus receios e quando todos os outros fogem, ele vai a Pilatos e pede o direito de depor o corpo da cruz e sepultá-lo. Ao longo dos séculos ele ficará intimamente ligado ao Santo Graal, à saga do rei Artur e os cavaleiros da távola-redonda. No cálice da Santa Ceia, onde Cristo transubstanciara vinho em sangue, José de Arimateia recolhe o sangue que ainda escorre do corpo deposto da cruz. Temos a imagem do corpo e do sangue de Cristo. Eucaristia.
Nicodemos, um dos chefes dos judeus e membro do sinédrio. Em João 3, 1-21 acompanhamos seu encontro com Cristo à noite, nas esferas espirituais e o vemos receber a indicação do novo nascimento; do alto, do espírito. Ele como dirigente dos judeus, pertence aos devotos e crentes cumpridores da lei. Nicodemos traz trinta quilos de mistura de Mirra e Aloé. Quantia suficiente para o funeral de um rei! Vemos o reconhecimento do raiar dos novos tempos. O mestre que reconhece em Cristo o rei dos reis. O mestre que sabe oque deve ser feito e atua. Ele está preparado para deixar as antigas esferas religiosas e adentrar a nova esfera que está nascendo. Um de seus legados foi a tradição oral, escrita nos anos 300 ou 400, o Evangelho de Nicodemos (Apócrifo). É o primeiro evangelho a falar sobre a vivência do Cristo na morte, daquilo que chamamos “descida aos infernos”. Este ser humano, um dos discípulos íntimos e esotéricos de Cristo, está nos primórdios do reconhecimento da atuação do Cristo no reino dos mortos.
Ambos estão no ponto de partida de uma corrente espiritual. Como guardiões do portal da nova era, nos enviam imagens para o prosseguimento de nossa evolução: Reconhecer o nascimento do alto, do espírito. Perceber o corpo e o sangue não somente como um símbolo sacramental, mas sim como uma verdade espiritual real. Adentrar os mistérios da morte, superação da morte e ressurreição.
Nos ligaremos cada vez mais à obra de José da Arimateia e Nicodemos ao meditarmos e tecermos pensamentos e sentimentos sobre este legado. Ao atuarmos com este conhecimento no mundo.

Viviane Trunkle

Reflexão sobre o Evangelho de João, 10 de julho

“Junto à cruz de Jesus, estavam de pé sua mãe e a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena. Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: ‘Mulher, eis o teu filho!’ Depois disse ao discípulo: ‘Eis a tua mãe!’ A partir daquela hora, o discípulo a acolheu no que era seu. Depois disso, sabendo Jesus que tudo estava consumado, e para que se cumprisse a Escritura até o fim, disse: ‘Tenho sede!’ Havia ali uma jarra cheia de vinagre. Amarraram num ramo de hissopo uma esponja embebida de vinagre e a levaram à sua boca. Ele tomou o vinagre e disse:
‘Está consumado’. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.
Era o dia de preparação do sábado, e este seria solene. Para que os corpos não ficassem na cruz no sábado, os judeus pediram a Pilatos que mandasse quebrar as pernas dos crucificados e os tirasse da cruz. Os soldados foram e quebraram as pernas, primeiro a um dos crucificados com ele e depois ao outro. Chegando a Jesus, viram que estava morto. Por isso, não lhe quebraram as pernas, mas um soldado golpeou-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água. (Aquele que viu dá testemunho, e o seu testemunho é verdadeiro; ele sabe que fala a verdade, para que vós, também, acrediteis.) Isto aconteceu para que se cumprisse a Escritura que diz: ‘Não quebrarão nenhum dos seus ossos’. E um outro texto da Escritura diz: ‘Olharão para aquele que traspassaram’.”

João 19, 25-37

As últimas palavras de Jesus Cristo na cruz foram: “está consumado”.
Quando nós celebramos o culto da Comunidade de Cristãos, as primeiras palavras que falamos são: “Consumemos dignamente o Ato de Consagração do Homem”.
Toda criação tem a sua origem no divino, assim como também nós, seres humanos. No princípio estávamos unidos com o divino, fato que encontramos na Bíblia, no relato sobre o paraíso. A natureza poderia ter permanecido nessa ligação. Mas não o ser humano, pois, para desenvolver a sua liberdade, foi necessário que ele se separasse do divino e deixasse o paraíso. Ao sair do paraíso levamos conosco toda a natureza. A natureza tem a sua origem em Deus, mas hoje, como a encontramos em nosso derredor, ela se apresenta como obra divina, como a consequência da criação que ocorreu no princípio. Hoje, a potência criadora divina não atua mais diretamente na natureza; a obra divina se repete nos processos naturais.
Mas a natureza não tem, em si, a possibilidade de voltar a se unir com a sua origem divina. Apenas nós, seres humanos, temos essa possibilidade de, em liberdade, nos unirmos com o divino. E, por termos levado a natureza, no caminho de separação da origem divina, temos a responsabilidade de levá-la conosco, no caminho de unirmo-nos novamente com o divino. Este processo de unir um ser à sua origem divina, seja nós mesmos ou um ser da natureza, é o que chamamos de consagração. Consagrar algo é possível por um culto religioso, seja a consagração de substâncias ou de uma igreja, e também a consagração de um sacerdote. Mas todos nós, quando celebramos o culto, almejamos unir a nossa existência terrestre com a realidade divina, consagrando assim o ser humano. Consagrar algo é possível pela arte, quando num processo realmente artístico, uma realidade espiritual pode manifestar-se numa expressão sensorial, consagrando o nosso dia a dia pela criatividade. Consagrar algo também é possível pelo conhecimento, quando procuramos reconhecer que o divino espiritual criou o mundo, nele atua como obra, mas vive como ideia que pode ser pensada por nós. Ideia que podemos unir com a percepção do mundo, no momento do processo espiritual do conhecimento. Consagramos o mundo unindo, em nossa consciência, a percepção com a ideia. Religar o homem e a natureza com sua origem divina, seja pela religião, pela arte ou pela ciência, tornou-se possível porque o Cristo consumou essa religação pela sua vida e morte na Terra. Um ser divino se une conosco e consuma a possibilidade de nós, em liberdade, nos unirmos a Ele.  Aquilo que falamos no início de nosso culto é, na realidade, a meta para a nossa vida, em qualquer momento, em qualquer lugar. Que o nosso esforço seja realmente dedicado a consumar o ato de consagração do homem.

João F. Torunsky

Reflexão sobre o Evangelho de João, 9 de julho

“Carregando a sua cruz, ele saiu para o lugar chamado Calvário (em hebraico: Gólgota). Lá, eles o crucificaram com outros dois, um de cada lado, ficando Jesus no meio. Pilatos tinha mandado escrever e afixar na cruz um letreiro; estava escrito assim: ‘Jesus de Nazaré, o Rei dos Judeus’. Muitos judeus leram o letreiro, porque o lugar onde Jesus foi crucificado era perto da cidade; e estava escrito em hebraico, em latim e em grego. Os sumos sacerdotes disseram então a Pilatos: ‘Não escrevas: ‘O Rei dos Judeus’, e sim: ‘Ele disse: Eu sou o Rei dos Judeus’’. Pilatos respondeu: ‘O que escrevi, escrevi’.
Depois que crucificaram Jesus, os soldados pegaram suas vestes e as dividiram em quatro partes, uma para cada soldado. A túnica era feita sem costura, uma peça só de cima em baixo. Eles combinaram: ‘Não vamos rasgar a túnica. Vamos tirar sorte para ver de quem será’. Assim cumpriu-se a Escritura: ‘Repartiram entre si as minhas vestes e tiraram a sorte sobre minha túnica’. Foi isso que os soldados fizeram.”

João 19, 17-24

Nos capítulos 18 e 19 do Evangelho de João, Pôncio Pilatos tenta descobrir a verdade sobre o Cristo. Ele conversa com Jesus e com os judeus. Sua busca passa pela pergunta: “O que é a verdade?”, segue ao reconhecer o “Ecce homo” e chega até a frase do letreiro na cruz. Nesse caminho Pilatos descobre pelo menos uma parte do ser do Cristo. Ele tenta liberá-lo, mas não tem a força de se opor aos judeus. Ele não tem a segurança interior para transformar em ação sua percepção da verdade. Só no final deste processo, ele pronuncia a frase, manda colocar o letreiro na cruz e mantém sua decisão.
Podemos seguir o caminho de Pilatos e procurar a verdade através da força do pensar e do sentir. Pouco a pouco descobriremos partes da verdade universal. Mas o exemplo de Pilatos nos mostra que precisamos de uma terceira força: a força da vontade.
A busca da verdade ganha sentido ao permear nossa vida e mudar nossas ações. Ao conseguirmos trazê-la para a Terra e para o nosso dia a dia. Ao colocarmo-la em prática. Este pode ser um caminho árduo e solitário, porque precisamos mudar nossos hábitos e pensamentos. Só é possível nos transformar e não ao outro. Os passos que conseguirmos fazer, em sua maioria, serão pequenos. Mas podemos ter a certeza da ajuda das forças espirituais nesse caminho.

Julian Rögge

Reflexão sobre o Evangelho de João, 7 de julho

Adam Chmielowsk, Ecce Homo, 1881

“Pilatos, então, mandou açoitar Jesus. Os soldados trançaram uma coroa de espinhos, a puseram na cabeça de Jesus e o vestiram com um manto de púrpura. Aproximavam-se dele e diziam: “Viva o Rei dos Judeus!”; e batiam nele. Pilatos saiu outra vez e disse aos judeus: “Olhai! Eu o trago aqui fora, diante de vós, para que saibais que eu não encontro nele nenhum motivo de condenação”. Então, Jesus veio para fora, trazendo a coroa de espinhos e o manto de púrpura. Ele disse-lhes: “Eis o ser humano”!
Quando o viram, os sumos sacerdotes e seus guardas começaram a gritar: “Crucifica-o! Crucifica-o!” Pilatos respondeu: “Levai-o, vós mesmos, para o crucificar, porque eu não encontro nele nenhum motivo de condenação”. Os judeus responderam-lhe: “Nós temos uma Lei, e segundo esta Lei ele deve morrer, porque se fez Filho de Deus”. Quando Pilatos ouviu isso, ficou com mais medo ainda. Entrou no palácio outra vez e perguntou a Jesus: “De onde és tu?” Jesus ficou calado. Então Pilatos disse-lhe: “Não me respondes? Não sabes que tenho poder para te soltar e poder para te crucificar?”
Jesus respondeu: “Tu não terias poder algum sobre mim, se não te fosse dado do alto. Por isso, quem me entregou a ti tem maior pecado”. Por causa disso, Pilatos procurava soltar Jesus.
Mas os judeus continuavam gritando: “Se soltas este homem, não és amigo de César. Todo aquele que se faz rei, declara-se contra César”. Ouvindo estas palavras, Pilatos trouxe Jesus para fora e sentou-se no tribunal, no lugar conhecido como Pavimento (em hebraico: Gábata). Era o dia da preparação da páscoa, por volta do meio- dia. Pilatos disse aos judeus: “Eis o vosso rei”. Eles, porém, gritavam: “Fora! Fora! Crucifica-o!” Pilatos disse: “Vou crucificar o vosso rei?” Os sumos sacerdotes responderam: “Não temos rei senão César”. Pilatos, então, lhes entregou Jesus para ser crucificado. Eles tomaram conta de Jesus.

João 19, 1-16

“Eis o ser humano”
Ecce Homo

Esta figura de dor nos fala diretamente à alma. Nós a conhecemos inconscientemente. Podemos desenvolver sua percepção consciente ao colocarmo-nos a caminho, dando passos na iniciação cristã. Jesus segue para seus últimos passos físicos na Terra, cada vez mais silencioso. Mas, sua imagem já carrega, suavemente o raiar do sol do novo mundo.
Os açoites, as injúrias, a coroa de espinhos, o manto de púrpura nos deflagram a própria condição humana: O ser da dor.
Através da dor faremos passos evolutivos. Cristo sofreu até seus últimos instantes, indicando-nos o caminho que nos levará à comunhão com o espírito: dor, morte, superação da morte, ressurreição, ascensão e plenitude na paz do espírito.
Cada dor que nosso destino nos apresenta, cada pedra no caminho, são pequenos exercícios para nosso desenvolvimento no espírito. Compreender estes processos como passos em nossa evolução, nos fortifica na resiliência.

“Ecce Homo”

No coração tece o sentir,
Na cabeça luze o pensar,
Nos membros vigora o querer.
Luzir que tece,
Tecer que vigora,
Vigorar que luze:
Eis o ser humano.

Rudolf Steiner

Viviane Trunkle

Reflexão sobre o Evangelho de João, 6 de julho

“De Caifás, levaram Jesus ao palácio do governador. Era de madrugada. Eles mesmos não entraram no palácio, para não se contaminarem e poderem comer a páscoa. Pilatos saiu ao encontro deles e disse: ‘Que acusação apresentais contra este homem?’ Eles responderam: ‘Se não fosse um malfeitor, não o teríamos entregue a ti!’ Pilatos disse: ‘Tomai-o vós mesmos e julgai-o segundo vossa lei’. Os judeus responderam: ‘Não nos é permitido matar ninguém’. Assim se realizava o que Jesus tinha dito, indicando de que morte havia de morrer. Pilatos entrou, de volta, no palácio, chamou Jesus e perguntou-lhe: ‘Tu és o Rei dos Judeus?’ Jesus respondeu: ‘Estás dizendo isto por ti mesmo, ou outros te disseram isso de mim?’ Pilatos respondeu: ‘Acaso sou eu judeu? Teu povo e os sumos sacerdotes te entregaram a mim. Que fizeste?’ Jesus respondeu: ‘O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas, o meu reino não é daqui’. Pilatos disse: ‘Então, tu és rei?’ Jesus respondeu: ‘Tu dizes que eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz’. Pilatos lhe disse: ‘Que é a verdade?’ Dito isso, saiu ao encontro dos judeus e declarou: ‘Eu não encontro nele nenhum motivo de condenação. Mas existe entre vós um costume de que, por ocasião da Páscoa, eu vos solte um preso. Quereis que eu vos solte o Rei dos Judeus?’ Eles, então, se puseram a gritar: ‘Este não, mas Barrabás!’ Ora, Barrabás era um assaltante.

João 18, 28-40

Neste trecho do Evangelho Pôncio Pilatos interroga Cristo. Ele procura a verdade entre as palavras dos judeus. Tenta entender as respostas de Cristo. Esta busca culmina na pergunta: “Que é a verdade?”
Essa pergunta é muito atual em nossos tempos de fatos alternativos e teorias de conspiração. Fica cada vez mais difícil descobrir a verdade entre as mentiras. Como podemos encontrar a verdade? Temos pelo menos dois caminhos para nos aproximarmos dela. É possível buscá-la pelo pensar e pelo sentir.
Podemos pensar se algo faz sentido, se é acessível pela lógica e se não tem contradições em si. Tem consistência perante o nosso pensar? Com o nosso sentir podemos procurar a veracidade. Ela nos ajuda a separar a verdade da mentira. Os dois caminhos juntos vão nos dar mais segurança nesta busca. Na procura da verdade podemos chegar a perceber que ela é como um ser espiritual. Nela podem se revelar as hierarquias celestiais. Através dela podemos ouvir a voz do Cristo.

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 5 de julho

Época de João Batista
Referente ao Evangelho: João 1, 19-34

„Quem és tu?

Eu sou a voz que clama na solidão: preparai o caminho do Senhor …“

João 1, 19 e 23

Duas das perguntas mais importantes da nossa atualidade são: “quem sou eu?“ e “quem és tu?“ A primeira pergunta “quem sou eu?“ tem a ver com o caminho do ser humano de se individualizar, de se libertar dos relacionamentos sociais que, no passado, definiam as pessoas na sociedade: membros de um povo e de uma família, com uma determinada profissão e posição social. Hoje, a procura da resposta para a pergunta “quem sou eu?“ nos leva sempre mais a perceber que a nossa verdadeira individualidade, o nosso eu, não pode ser definido pelos relacionamentos sociais. O relacionamento com os outros é muito importante para nos encontrarmos a nós mesmos, muitas vezes percebendo no outro quem nós não somos e como nós não queremos ser. A procura da resposta para a pergunta “quem sou eu?“ nos leva a prestar atenção para uma voz que fala no íntimo de cada um de nós, que nos dá uma orientação para aquilo que queremos realizar nesta vida, para aquilo que é ou não coerente com nós mesmos, que nos dá um sentimento de autenticidade.
Mas seguir o caminho de se libertar das coações sociais, que querem determinar quem eu sou e o que eu tenho de fazer, de procurar quem realmente somos, traz o perigo de nos tornarmos indivíduos associais, que pensam somente em si mesmos, que têm como meta na vida somente “se realizar“, que perdem o interesse pelo outro, e não assumem suas responsabilidades perante a sociedade. Por isso, quanto mais vivemos com a pergunta “quem sou eu?“, tanto mais precisamos viver, ao mesmo tempo, com a pergunta “quem és tu?“. É muito difícil encontrar a resposta para a pergunta “quem sou eu?“. Pois ainda mais difícil é encontrar a resposta para a pergunta “quem és tu?“.
Facilmente reconheceremos que não nos agrada sermos determinados pela sociedade, mas nem sempre nos é evidente que determinamos o outro por aspectos sociais: membro de um povo ou uma família, com uma determinada profissão e posição social. E ainda mais problemático é nossa tendência de definir o outro pelas experiências que tivemos com ele no passado. Se não posso ser definido por esses aspectos, tampouco posso eu definir o outro assim. É necessário abrir mão de todos os nossos preconceitos sobre o outro, reconhecer que, na verdade, não nos conhecemos uns aos outros, é necessário despertar o interesse de querer encontrar o outro no seu eu verdadeiro, e realmente viver com a pergunta: “quem és tu?“. Também no outro existe uma voz, no seu íntimo, a qual ele está procurando. Meu impulso pode ser ajudá-lo a encontrar essa voz, para que ele seja autêntico consigo mesmo.
João Batista é o grande precursor nesse caminho de procura da voz que clama na solidão de cada um de nós. A sua resposta pode ser a resposta arquetípica para cada um de nós: “o Eu é a voz que clama na solidão da alma: prepare o caminho para que possamos encontrar o Cristo em nós, mas também o Cristo no outro“.

João F. Torunsky

Reflexão sobre o Evangelho de João, 4 de julho

“Então a escolta, e o comandante, e os guardas dos judeus prenderam a Jesus e o amarraram. E conduziram-no primeiramente a Anás, por ser sogro de Caifás, que era o sumo sacerdote daquele ano. Ora, Caifás era quem tinha aconselhado aos judeus que convinha que um homem morresse pelo povo.
E Simão Pedro e outro discípulo seguiam a Jesus. E este discípulo era conhecido do sumo sacerdote, e entrou com Jesus na sala do sumo sacerdote. E Pedro estava da parte de fora, à porta. Saiu então o outro discípulo que era conhecido do sumo sacerdote, e falou à porteira, levando Pedro para dentro. Então a porteira disse a Pedro: ‘Não és tu também dos discípulos deste homem?’ Disse ele: ‘Não sou.’
Ora, estavam ali os servos e os servidores, que tinham feito brasas, e se aquentavam, porque fazia frio; e com eles estava Pedro, aquentando-se também.
E o sumo sacerdote interrogou Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina. Jesus lhe respondeu: ‘Eu falei abertamente ao mundo; eu sempre ensinei na sinagoga e no templo, onde os judeus sempre se ajuntam, e nada disse em oculto. Para que me perguntas a mim? Pergunta aos que ouviram o que é que lhes ensinei; eis que eles sabem o que eu lhes tenho dito.’
E, tendo dito isto, um dos servidores que ali estavam, deu uma bofetada em Jesus, dizendo: ‘Assim respondes ao sumo sacerdote?’ Respondeu-lhe Jesus: ‘Se falei mal, dá testemunho do mal; e, se bem, por que me feres?’ E Anás mandou-o, maniatado, ao sumo sacerdote Caifás.
E Simão Pedro estava ali, e aquentava-se. Disseram-lhe, pois: ‘Não és também tu um dos seus discípulos’? Ele negou, e disse: ‘Não sou.’ E um dos servos do sumo sacerdote, parente daquele a quem Pedro cortara a orelha, disse: ‘Não te vi eu no horto com ele?’ E Pedro negou outra vez, e logo o galo cantou.

João 18, 12-27

Pedro estava disposto a dar sua vida por Jesus e chegou a levantar a espada em seu nome, mas agora ele cede três vezes por medo. Falhar três vezes pode nos trazer o sentimento de um fracasso absoluto, afinal quais são as chances de recuperar a confiança e o respeito a si mesmo depois de negar ao próprio Cristo por três vezes e, como ele havia previsto, ouvir o galo cantar em testemunho de seu fracasso. Nós cristãos, que proclamamos os valores e a fé cristã, quantas vezes negamos nossas convicções com comportamentos que lhes contradizem? Mas, em algum momento um galo há de cantar por nós para nos lançar num estado de consciência, que pode não ser leve, mas que tem a força de nos despertar e pode anteceder a mudança fundamental de reafirmar nossa convicção com atos condizentes a ela. Em Pedro nos encontramos com nossas fraquezas. Mas, independentemente de todas as críticas que Jesus dirigiu a Pedro, ele não retirou o poder principal que lhe concedera. Ele no final lhe entregou as ovelhas para cuidar. Para Pedro, chegará o dia em que ele deixará seu fracasso para trás. Ele terá oportunidade de defender Jesus com corpo e alma. Um dia ele terá que fazer o que não foi capaz de fazer naquele momento crucial. Para Jesus ninguém é definitivamente fracassado. Pelo contrário a constatação consciente dos motivos do fracasso pode ser o crucial momento do despertar. Cristo sempre abrirá novos espaços para nós, nos quais poderemos fazer melhor do que hoje. Isso nos faz olhar para o futuro com confiança de que sempre poderemos nascer de novo em Cristo independente ou talvez em virtude da consciência de nossas fraquezas.

Carlos Maranhão

Reflexão sobre o Evangelho de João, 3 de julho

“Dito isso, Jesus saiu com seus discípulos para o outro lado da torrente do Cedron. Lá havia um jardim, no qual ele entrou com os seus discípulos. Também Judas, o traidor, conhecia o lugar, porque Jesus muitas vezes ali se reunia com seus discípulos. Judas, pois, levou o batalhão romano e os guardas dos sumos sacerdotes e dos fariseus, com lanternas, tochas e armas, e chegou ali. Jesus, então, sabendo tudo o que ia acontecer com ele, saiu e disse: ‘A quem procurais?’
– ‘A Jesus de Nazaré!’, responderam. Ele disse: ‘Sou eu’. Judas, o traidor, estava com eles. Quando Jesus disse ‘Sou eu’, eles recuaram e caíram por terra. De novo perguntou-lhes: ‘A quem procurais?’ Responderam: ‘A Jesus de Nazaré’.
Jesus retomou: ‘Já vos disse que sou eu. Se é a mim que procurais, deixai que estes aqui se retirem’. Assim se cumpria a palavra que ele tinha dito: ‘Não perdi nenhum daqueles que me deste’. Simão Pedro, que tinha uma espada, puxou-a e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a ponta da orelha direita. O nome do servo era Malco. Jesus disse a Pedro: ‘Guarda a tua espada na bainha. Será que não vou beber o cálice que o Pai me deu?’”

João 18, 1-11

Nas imagens acima, Cristo nos mostra como mantém a soberania da situação. Ele vai aos soldados e guardas, não são eles que o alcançam inesperadamente. A presença do Eu Sou é tão forte a ponto de seus opositores perderem o equilíbrio e caírem por terra.
Cristo segue a passos firmes para o cumprimento de sua missão. E algo chama a atenção até seus últimos momentos na Terra: os cuidados e atenção para com os seus.

“(…) deixai que estes aqui se retirem”

Ao nos orientarmos para um desenvolvimento consciente de nosso ser, tornamo-nos maleáveis e receptivos à centelha de nosso eu superior. Ele nos auxilia a seguir com passos firmes rumo à realização de nosso destino, nossa missão na Terra. Um dedicado esforço às metas da vida, preenche nosso ser de significado. Nossas ações passam a fazer sentido para o mundo. Elas formam o solo fértil para irradiarmos a força do Eu Sou, capaz de nos proteger dos opositores. Capaz de nos guiar no amor ao próximo.

Viviane Trunkle

Reflexão sobre o Evangelho de João, 2 de julho

“Eu não rogo somente por eles, mas também por aqueles que vão crer em mim pela palavra deles. Que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim, e eu em ti. Que eles estejam em nós, a fim de que o mundo creia que tu me enviaste.
Eu lhes dei a glória que tu me deste, para que eles sejam um, como nós somos um: eu neles, e tu em mim, para que sejam perfeitamente unidos, e o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste como amaste a mim. Pai, quero que estejam comigo aqueles que me deste, para que contemplem a minha glória, a glória que tu me deste, porque me amaste antes da criação do mundo.
Pai justo, o mundo não te conheceu, mas eu te conheci, e estes conheceram que tu me enviaste. Eu lhes fiz conhecer o teu nome, e o farei conhecer ainda, para que o amor com que me amaste esteja neles, e eu mesmo esteja neles.”

João 17, 20-26

Vivemos em uma época de grande individualização. Isso percebemos nos costumes e nos conceitos da vida. Hoje em dia temos uma variedade de costumes e conceitos muito maior do que a cem anos atrás. Cada vez menos nos sentimos definidos pela nação, pelo povo ou pela família. Nos sentimos como individualidades, como se cada um de nós fossemos uma espécie em si. Para onde esse caminho nos leva?
A individualização é necessária para o desenvolvimento da humanidade. Através dela podemos desenvolver a liberdade. Mas a liberdade e a individualização representam também o risco de cairmos no egocentrismo. No egoismo sem limites. Combatemos esse risco desenvolvendo o amor em conjunto com a liberdade.
Fazemos passos nessa direção ao reconhecermos o amor do Cristo em cada ser humano. Ao seguirmos o exemplo de Cristo, desenvolveremos em nós o amor para com o outro e pela humanidade. O amor a tudo que está ao nosso redor. A força desse amor pode possibilitar uma nova união entre Cristo e a humanidade e entre os seres humanos. Quanto mais isso se tornar uma realidade, mais poderemos ser indivíduos diferenciados e livres, sem corrermos o risco de cair no egoismo.

Julian Rögge