Reflexão para o domingo, 11 de outubro

Referente ao perícope de Apocalipse 12

Poderíamos pensar que a imagem da mulher vestida de sol com a lua a seus pés poderia personificar a sabedoria cósmica que se manifestou desde tempos imemoriais como Ísis-Sofia ou mais tarde como a Virgem Maria. Na Idade Média, as sete artes liberais também eram representadas por figuras femininas. Mas não se tratava apenas de representação simbólica, mas uma personificação como vivenciou Boécio ao se deixar consolar pela grande dama, a Filosofia. Mas isso são águas passadas. A civilização se masculinizou a tal ponto que essas imagens só permanecem como figuras míticas e românticas.
Hoje, poderíamos considerar a emancipação da mulher e contemplar um futuro resgate do eterno feminino, em busca do equilíbrio entre as polaridades como uma tendência inexorável, dependendo apenas de um tempo de maturação das mentalidades. Assim, também o papel micaélico de administrar a inteligência cósmica em nossos tempos poderia tomar uma nova dimensão. Como podemos vislumbrar um espírito comunitário futuro na direção desse equilíbrio entre as forças amadurecidas do Eu e do amor crístico unido às qualidades mais fluidas que abarcam a totalidade com as diferentes características individuais. O ideal de unir a força incisiva e certeira do pensar cósmico objetivo às forças individualizadas do coração. Ou mesmo, se tomarmos a arte como meio de cultivo do sentir e a religião como resgate da integridade do ser humano, reunir o que a história separou: ciência, religião e arte. Sabemos dos perigos de instaurar utopias à força por grupos que tenham decidido arbitrariamente quais são os ideais. Mas pensar utopias não deveria ser proibido, pois ajudam a vislumbrar que tipo de sociedade queremos para o futuro.

Carlos Maranhão

Reflexão para o domingo, 4 de outubro

Referente ao perícope de Mateus 22
“O reino dos céus é como…”
Este versículo se inicia com estas simples palavras, e então segue-se uma descrição de imagem próxima à nossa compreensão terrena.
Podemos interiorizar ainda mais a imagem: “O reino dos céus é como um rei, um rei é como um ser humano…”
O Eu superior humano está se preparando para um matrimônio, para a união eterna com o divino. Ao longo de sua existência de encarnação em encarnação ele pode ascender cada vez mais, através da missão humana na Terra. Ele permeia cada vez mais seu eu inferior, sua alma e seu corpo físico. Este permear é o resultado de nosso esforço em direção ao desenvolvimento espiritual. Assim possibilitamos ao nosso Eu, nosso rei, preparar o casamento. O alimento está pronto: a beleza da alma está cultivada. Finalmente podemos trazer os convidados para o festejo! Enviamos nossos servos ao mundo para levarem o convite. Nossos servos são nossos sentidos e ações quando cultivados. Estão a nosso serviço. Neste momento, temos a força necessária de abrir as portas da alma para todas as suas nuances, para os seres que a habitam e que fazem parte de nós. Em conjunto compartilharemos a alegria da futura união.
Mas, somos levados a perceber que nossa estadia na Terra traz consigo seus percalços. Muito em nós se perde na falta de interesse genuíno pelo outro, no orgulho, na soberba, na atomização. Este é o reflexo do ser humano no espelho dos convidados. Somos em grande parte: “Indignas criaturas”.
E é neste momento difuso e dramático onde Cristo nos entrega uma chave em mãos:
“Ide pois, lá, onde os caminhos se encontram e se cruzam, e chamem para o casamento quem vocês encontrarem” – Maus e bons.
Há aqui uma tarefa. Olhar para a própria alma e reconhecer que há nela o bem e o mal. Aprender em humildade a convidá-los para o casamento, cuidando para que nosso trabalho interior os purifiquem a ponto de receberem uma nova veste. O traje nupcial.
Nosso eu deve estar atento e alerta para os convidados em nossa alma. Para o que  todavia não estiver à altura de receber o traje, nossos servos devem dar especial atenção. O rei o trata de forma amistosa: “Meu amigo…”
É no emudecer deste convidado, onde nosso Eu superior pode perceber que se trata de um força fora do lugar. Ele ativa nossos sentidos e ação para contê-la e colocá-la em seu devido lugar. No lugar das forças que ainda não foram depuradas. As trevas exteriores, o choro e o ranger de dentes estão também em nós. Mas estão à parte de nosso relicário mais puro. Daquilo em nós que deve seguir imaculado. Nosso ser mais íntimo. É neste relicário onde Cristo pode atuar, se assim o quisermos e permitirmos. Ao ouvirmos seu chamado, ao nos prepararmos ao longo das repetidas encarnações, nos será permitido irmos adiante…

Viviane Trunkle

Reflexão para o domingo, 27 de setembro

Referente ao perícope de Lucas 7, 11-17

“Levanta-te!”

Vale a pena pesquisar no Novo Testamento e estudar os trechos nos quais se encontram a palavra “Levanta-te”. Encontrei-a trinta e uma vezes. Nos Evangelhos é uma expressão falada por Jesus Cristo em várias circunstâncias, principalmente aos enfermos, mas também um anjo fala „Levanta-te“ para José, como uma ajuda para que ele tome decisões de qual caminho deve seguir.

Quantas vezes na vida nos sentimos inseguros em tomar uma decisão, paralisados perante os desafios do destino, cegos para ver o caminho, surdos para escutar o nosso anjo. Que dor é perceber em nós como mortos, os ideais que na nossa juventude deram um sentido para a nossa vida. Em momentos assim é compreensível que roguemos pela ajuda divina, esperemos que o Cristo, ou ao menos um anjo, nos resolva o problema, nos carregue para o outro lado do abismo. Mas hoje, no ponto do desenvolvimento da humanidade em que nos encontramos, não é esta a ajuda que devemos desejar dos nossos guias espirituais. O que precisamos é a ajuda para fortalecer o nosso próprio eu, a força que, em nossa infância, nos possibilitou superar a gravidade e nos colocarmos eretos apoiados sobre os nossos próprios pés. É a mesma força de que precisamos hoje para superar o medo na alma, superar a cegueira e a surdez espiritual, reviver os ideais. Precisamos da força para nos colocarmos animicamente eretos, apoiados interiormente sobre os nossos próprios pés, e trilhar o difícil caminho até o outro lado do abismo.

O que hoje, mais do que nunca na história da humanidade, podemos esperar do Cristo é a força que flui da sua palavra e fortalece o nosso eu, quando Ele nos diz: Levanta-te!

João F. Torunsky

Reflexão para o domingo, 20 de setembro

Referente ao perícope de Mateus 6, 13-34

“Quando jejuardes…”

Os antigos entendiam que a privação de alimentos por um determinado período de tempo poderia ser um exercício religioso em si ou parte de uma exercitação mais ampla. O que acontece conosco durante um jejum?

Nosso corpo é privado de alimentos. Se isto ocorre por um período prolongado, vários processos bioquímicos se alteram em nossas células. Aos poucos o metabolismo começa sofrer uma transição e substâncias nutritivas que estavam apenas armazenadas em algumas partes do nosso organismo começam a ser mobilizadas para produzir a energia (fogo) que necessitamos para nossas funções vitais. Quanto mais prolongado o tempo de jejum, maior a mobilização dessas reservas. Tais reservas são normalmente conhecidas como ácidos graxos ou gorduras, que, ao longo da vida, se condensam e se ‘solidificam’ ao redor dos órgãos internos e debaixo da pele. Se nos alimentamos ininterruptamente e, na atualidade muitas vezes comemos mais nutrientes do que de fato necessitamos, este princípio de acumulação e condensação vai progredindo, ao mesmo tempo, se desenvolve paralelamente outro mecanismo anímico que se manifesta como uma espécie de insaciedade, pois muitas vezes parece que quanto mais comemos, maior se torna a vontade de comer. Se tentarmos olhar o que nosso corpo físico e vital nos ensinam com tudo isto, poderíamos dizer numa linguagem imaginativa o seguinte: Na abundância de alimentos nosso corpo acumula a matéria condensando-a. Aqui se pode ver um processo de maior materialização ou, usando uma expressão da antiga doutrina dos quatro elementos, condensar é formar ‘terra’ (imagem para o estado mais denso da matéria).

Quando estamos num prolongado período de jejum todo este processo se redireciona para o lado oposto: as reservas materializadas e guardadas se tornam fluidas, circulam por nosso sangue e vão se tornando a fonte de energia para a vida. Aqui podemos falar do processo do ‘fogo’.

Neste sentido, podemos formar a imagem de que o jejum significa para o nosso corpo a transição da ‘terra’, o elemento mais denso, para o ‘fogo’ o mais sutil. Talvez os antigos, mesmo sem conhecer muito do que a ciência e a biologia nos ensinam hoje, tinham por meio da intuição um conhecimento destes processos.

Se nos direcionamos para a Terra, nos envolvemos cada vez mais com as forças e com as leis que regem o mundo físico. Quando almejamos alcançar os Céus, temos que nos orientar na direção oposta e buscar nos compenetrar com o calor e o fogo do Espírito. Fica assim evidente, a partir desta abordagem, o princípio desta antiga prática religiosa: Jejuar significava se elevar da Terra ao espiritual! Também no judaísmo a prática do jejum era conhecida e muito respeitada. O que o cristianismo acrescenta a tudo isto?

“…quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram os seus rostos, para que aos homens pareça que jejuam.(…) Tu, porém, quando jejuares, unge a tua cabeça, e lava o teu rosto, para não pareceres aos homens que jejuas…”

Cristo coloca a ênfase na atitude interna. Não faz sentido jejuar a partir da sensação de que se suporta um pesado jugo; pior ainda, seria fazer disto uma manifestação exterior, para chamar a atenção dos demais. “Lavar o rosto e ungir a cabeça” eram maneiras de expressar bem-estar interior e alegria. A prática do jejum não significava uma meta em si, mas uma maneira de se ‘soltar’ um pouco do peso terreno e se elevar interiormente ao fogo Espírito. Isto deveria trazer bem-estar e alegria ao ser humano, do contrário a prática se esvazia de sentido religioso.

Na atualidade, contudo, o jejum deixou de ser para a grande maioria uma prática para o desenvolvimento interior como o foi no passado. Estão mais em voga, hoje, práticas dietéticas com finalidades terapêuticas, nutricionais ou até mesmo estéticas. Entretanto, mesmo na modernidade, estamos sujeitos a situações em que nos vemos privados de algo que nos é importante. Podemos em tais situações falar num sentido figurado de um ‘jejum’. A inesperada virada mundial que se espalhou pela humanidade trouxe consigo inúmeros destas privações. Houve ‘jejuns’ nas relações e contatos entre as pessoas, que tiveram que se manter mais isoladas umas das outras, ‘jejuns’ nas atividades de lazer e ao ar livre para manter-se em casa durante a quarentena, ‘jejuns’ para crianças, jovens e tantos outros alunos e estudantes, que tiveram que se privar das aulas presenciais e do convívio com colegas e professores, entre outras tantas situações. Também foi necessário cumprir um ‘jejum’ em relação à participação nos cultos. Muitos sentiram profundamente esta privação. Aqui cabe também uma reflexão. Todo este período em que não foi possível celebrar o Ato de Consagração do Homem com a presença da comunidade deve ser visto como uma tragédia ou uma grande perda? Ou, o quanto esta privação exterior foi um impulso para mobilizar reservas adormecidas do fogo interior na tentativa de buscar uma íntima conexão com o Espírito?

Aos poucos o Ato de Consagração do Homem retornará a ser celebrado com a presença da comunidade. Almejemos do fundo do coração que este retorno após o prolongado ‘jejum’ nos encontre de ‘rosto lavado e cabeça ungida’ co-celebrando diante do altar de Cristo.

Renato Gomes

Reflexão para o domingo, 13 de setembro

Referente ao Perícope de Lucas 17, 5-10

A maioria das pessoas obtém consolo a partir da ideia de que basta uma fé pequena como a semente de mostarda. Mas sementes de mostarda crescem. Portanto, Jesus não está apenas chamando a atenção para o tamanho pequeno dessas sementes. As traduções do Evangelho dizem geralmente “fé do tamanho de um grão de mostarda”, mas a palavra “tamanho” ou seu equivalente não aparece no grego original. Jesus simplesmente diz “fé como um grão de mostarda”. Sem dúvida, a pequenez dessas sementes está em primeiro lugar, mas Jesus tem em mente muito mais do que o tamanho.
E a semente está viva, embora pareça estar morta por fora. viva de tal maneira que conduz à produção de frutos. Portanto, fé que é eficaz é uma fé que é viva, é uma fé que tem obras. Também podemos descrever essa fé como aquela que dá frutos. Em segundo lugar, aquela pequena semente se transforma em uma planta muito grande. O próprio Jesus enfatizou este aspecto da semente no início de Mateus. Ele propôs outra parábola. “O reino dos céus é como um grão de mostarda que a pessoa colhe e semeia no campo. É a menor de todas as sementes, mas quando totalmente crescida, é a maior das plantas. Torna-se um grande arbusto, e os pássaros do céu vêm e habitam em seus galhos (Mateus 13, 31-32). O uso da metáfora não pode ser acidental, poi é pela fé, que o reino dos céus cresce. Assim, a mensagem subjacente não é tanto o poder da fé para transformar o mundo ao seu redor, mas é o potencial de transformá-lo em sua alma, crescendo de uma semente a uma árvore magnífica. Quanto à mudança da amoreira e seu plantio no mar, certamente isso parece uma impossibilidade física, pois no mar não há nada para as raízes da árvore se fixarem. Mas Jesus está dizendo que é possível. Em outras palavras, a fé nos permite permanecer alicerçados mesmo nas situações aparentemente mais instáveis. É do mundo interior que estamos falando. A alma necessita de um alicerce numa força imponderável, mas que pode crescer e vivificar. Ela se fortalece na medida em que se reconhece a sua fonte. O poder de transportar montanhas, de encontrar um alicerce no mundo espiritual é de Deus. Mas, nós que fazemos parte dele, compartilhamos desse poder, desde que estabeleçamos relação com a fonte. E como podemos fazer isso? Por meio da oração, do contato, da comunhão.

Carlos Maranhão

Reflexão para o domingo, 6 de setembro

Referente ao perícope de Lucas 10, 1-20

“O Senhor escolheu outros setenta e enviou-os, dois a dois, à sua frente, a toda cidade e lugar para onde ele mesmo devia ir. E dizia-lhes: ‘A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao Senhor da colheita que mande trabalhadores para sua colheita. Eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos. Não leveis bolsa, nem sacola, nem sandálias, e não vos demoreis para saudar ninguém pelo caminho!
Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: ‘A paz esteja nesta casa!’ Se ali morar um amigo da paz, a vossa paz repousará sobre ele; senão, ela retornará a vós. Permanecei naquela mesma casa; comei e bebei do que tiverem, porque o trabalhador tem direito a seu salário. Não passeis de casa em casa.
Quando entrardes numa cidade e fordes bem recebidos, comei do que vos servirem, curai os doentes que nela houver e dizei: ‘O Reino de Deus está próximo de vós’. Mas quando entrardes numa cidade e não fordes bem recebidos, saindo pelas ruas, dizei: ‘Até a poeira de vossa cidade que se grudou aos nossos pés, sacudimos contra vós. No entanto, sabei que o Reino de Deus está próximo!’
Eu vos digo: naquele dia, Sodoma receberá sentença menos dura do que aquela cidade.
Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Se em Tiro e Sidônia se tivessem realizado os milagres feitos no meio de vós, há muito tempo teriam demonstrado arrependimento, vestindo-se de saco e sentando-se sobre a cinza. Pois bem: no dia do julgamento, Tiro e Sidônia terão uma sentença menos dura do que vós. E tu, Cafarnaum, serás elevada até o céu? Até o inferno serás rebaixada! Quem vos escuta, a mim escuta; e quem vos despreza, a mim despreza; ora, quem me despreza, despreza Aquele que me enviou’.
Os setenta e dois voltaram alegres, dizendo: ‘Senhor, até os demônios nos obedecem por causa do teu nome.’ Jesus respondeu: ‘Eu vi Satanás cair do céu, como um relâmpago. Eu vos dei o poder de pisar em cobras e escorpiões, e sobre toda a força do inimigo. Nada vos poderá fazer mal. Contudo, não vos alegreis porque os espíritos se submetem a vós. Antes, ficai alegres porque vossos nomes estão escritos nos céus’.”

Lucas 10, 1-20

Assim como os setenta, nós também somos enviados. Enviados dos céus para a Terra. Temos uma missão a realizar e um caminho de desenvolvimento à nossa frente. Somos trabalhadores e podemos nos tornar trabalhadores em nome do Senhor. Dele recebemos o necessário para cumprirmos nossa tarefa.
De vez em quando podemos parar e nos perguntar: Já encontrei minha missão? Estou no meu caminho de desenvolvimento? O que realmente preciso para minha tarefa? Talvez precisemos mudar nossa direção ou nos libertar do supérfluo acumulado. Momentos de reflexão podem nos ajudar a olhar com clareza para nossa biografia e  separar o importante do insignificante. Isso nos dar força para o essencial e clareia nosso caminho.
No momento da nossa volta aos céus, prestaremos conta dos nossos pensamentos, sentimentos e ações. Nesse momento veremos onde conseguimos seguir nossa missão, onde fomos trabalhadores em nome do Senhor, e onde erramos. Perceberemos nosso nome eterno escrito nos céus.

Julian Rögge

Reflexão sobre o Salmo 29

“Dai ao SENHOR, ó filhos dos poderosos, dai ao SENHOR glória e força.
Dai ao Senhor a glória devida ao seu nome, adorai o Senhor na beleza da santidade.
A voz do Senhor ouve-se sobre as suas águas; o Deus da glória troveja; o Senhor está sobre as muitas águas.
A voz do Senhor é poderosa; a voz do Senhor é cheia de majestade.
A voz do Senhor quebra os cedros; sim, o Senhor quebra os cedros do Líbano.
Ele os faz saltar como um bezerro; ao Líbano e Siriom, como filhotes de bois selvagens.
A voz do Senhor separa as labaredas do fogo.
A voz do Senhor faz tremer o deserto; o Senhor faz tremer o deserto de Cades.
A voz do Senhor faz parir as cervas, e descobre as brenhas; e no seu templo cada um fala da sua glória.
O Senhor se assentou sobre o dilúvio; o Senhor se assenta como Rei, perpetuamente.
O Senhor dará força ao seu povo; o Senhor abençoará o seu povo com paz.”

Salmo 29

Os sete trovões

Uma forte tempestade está se aproximando do mar. O olhar piedoso do Antigo Testamento vê nas manifestações da natureza lá fora uma solene antecipação, pois é esperada uma grande revelação. Um relâmpago cintila no céu rasgando as nuvens. Ele também rasga uma cortina sobre o olho que o observa. A alma sabe que não está mais no âmbito da Terra, mas sim vivenciando um culto no céu, tal como é celebrado pelos habitantes dos mundos superiores.

Voltando à Terra, a alma agora, consagrada pela visão, é capaz de dar o nome correto: “A voz do Senhor” — (qôl Yahweh). — Para os hebreus essa era uma designação de trovão. Sete vezes esse chamado “qôl Yahweh” soa no Salmo 29.

A voz de Yahweh sobre as águas — a memória surge no início da criação, como o espírito de Deus uma vez pairou sobre as águas. Do mar para a terra. O que se solidificou e endureceu no âmbito da Terra é o que no início ainda era um mar formativo. O mundo do que se tornou treme diante da palavra criativa do Altíssimo. O que tomou forma na terra parece questionado quando o Eterno fala novas palavras com autoridade. O salmo vê isso em imagens múltiplas. Cedros antigos e árvores altas foram atingidos por raios e quebrados. Quem pode olhar para isso sem se deixar dominar pela seriedade do Juízo Final? As montanhas estremecem, sacudidas por um terremoto — A tempestade passou em sete fortes trovões, três sobre o mar, quatro sobre a terra. Isso faz lembrar os sete trovões do Apocalipse de João: “Os sete trovões emitiram as suas vozes” (Apocalipse João 10,3).

Glória ao Senhor — ele está entronizado sobre o dilúvio. Sim, ele, o Senhor, será entronizado, um rei para sempre. O Senhor — ele dará força ao seu povo. O Senhor — ele abençoará seu povo com paz.

O salmo termina onde começou: no santuário celestial. Lá em cima se ouve a “Gloria in excelsis” das hostes celestiais. No Apocalipse de João, é particularmente impressionante como, em meio às visões de destruição, a imagem do trono celestial aparece repetidamente como um mastro de repouso, o que nos dá a certeza de uma última direção significativa dos eventos. A última palavra deste salmo de tempestade é “paz”. O arco-íris, sinal divino da salvação da aliança, segue a tempestade. Quem passou pela tempestade e se deu conta de sua imortalidade sente a passagem pela zona de destruição como um aumento de força interior. “O Senhor dará força ao seu povo.” Depois desta palavra de força vem a palavra de paz!

“Gloria in excelsis” é respondido pelo “et in terra pax”. Através do tempo, o homem sabe que está conectado com aquele que está entronizado em majestade eterna. Há paz divina no trono celestial, há paz e esperança poderosa abaixo nos corações dos seres humanos. Em meio às tempestades e crises pelas quais passamos, nos conscientizamos das manifestações de Deus na Terra e nos voltamos interiormente ao que realmente importa, despertando do sono e nos voltando para a realização de nossa missão, a construção da paz.

Carlos Maranhão

Reflexão para o domingo, 30 de agosto

Referente ao perícope de Marcos 7, 31-36

“E ele, tornando a sair dos termos de Tiro e de Sidom, foi até ao mar da Galiléia, pelos confins de Decápolis. E trouxeram-lhe um surdo, que falava dificilmente; e rogaram-lhe que pusesse a mão sobre ele. E, tirando-o à parte, de entre a multidão, pôs-lhe os dedos nos ouvidos; e, cuspindo, tocou-lhe na língua. E, levantando os olhos ao céu, suspirou e disse: Efatá; isto é, Abre-te. E logo se abriram os seus ouvidos, e a prisão da língua se desfez, e falava perfeitamente.
E ordenou-lhes que a ninguém o dissessem; mas, quanto mais lhos proibia, tanto mais o divulgavam.”

Marcos 7, 31-36

A audição e a fala são dons que temos e estão intimamente relacionados um com o outro. Quando falamos, nos escutamos a nós mesmos. E quando escutamos alguém falando, nossas cordas vocais vibram simultaneamente. Na realidade, quando ouvimos uma outra pessoa falando, não apenas as nossas cordas vocais vibram: nosso corpo inteiro vibra muito suavemente também. Fisiologicamente não existe um ‘falar sem ouvir’, tampouco um ‘ouvir sem falar’. Falar e ouvir são como dois lados de um todo. Vemos na fisiologia, assim como em tantas outras situações, que recebemos inconscientemente uma sabedoria do nosso corpo, tal como uma orientação para aquilo que temos de desenvolver conscientemente em nossa alma: a audição e a fala necessitam estar intimamente relacionadas, uma com a outra.
Aquilo que não é possível fisiologicamente, pode se tornar o normal animicamente. Que, quando escutamos o outro falar, não estamos realmente ‘vibrando’, no íntimo, com aquilo que ele está nos dizendo. Quantas vezes, enquanto escutamos o outro, estamos pensando os nossos pensamentos, sentindo os nossos sentimentos. Estamos com a boca cerrada, mas ao mesmo tempo falando em nosso íntimo e não estamos, realmente, escutando o outro. Nos admiramos, então, que não compreendemos o outro.
Quando falamos para o outro, quantas vezes não estamos, na verdade, escutando aquilo que estamos dizendo, ou seja, não estamos ponderando o significado que a nossa fala terá para o outro, não estamos sentindo as consequências que as nossas palavras terão para o relacionamento. Nos admiramos, então, que o outro não nos compreenda.
Podemos ouvir e falar no âmbito do nosso corpo, mas corremos o risco de sermos surdos e mudos no âmbito das nossas almas.
O que nos pode ajudar nessa situação é aquilo que o Cristo Jesus falou para o surdo e mudo, quando o curou: “Efatá, isto é, Abre-te.”
Não são os nossos ouvidos que têm de se abrir para que possamos ouvir. Não é a nossa boca que tem de se abrir para que possamos falar. O que tem de se abrir é o nosso coração. Com os ouvidos podemos ouvir o que o outro está nos dizendo. Com o coração podemos compreender o que o outro está querendo nos dizer. Com a boca podemos falar o que queremos dizer. Com o coração podemos ponderar como nós devemos dizer, para que o outro possa nos compreender.
Assim podemos sentir o Cristo Jesus falando para nós: Efatá, isto é, abre o teu coração, quando estiver ouvindo; abre o teu coração quando estiver falando.

João F. Torunsky

Reflexão para o domingo

Referente ao perícope de Lucas 18, 35-43

Jericó é uma das mais antigas cidades de Israel (e do mundo) que se mantém habitada desde seus primórdios. Foi citada, inúmeras vezes no Antigo Testamento. No livro de Josué encontramos uma marcante narrativa que envolve esta cidade: Josué, genro de Moisés, recebe de seu sogro a tarefa de conduzir o povo Hebreu, que peregrinou pelo deserto por 40 anos, em sua etapa final até retornar à Terra Prometida. Jericó situava-se num local estratégico, na rota de acesso ao país dos hebreus. Por causa de sua localização, Jericó impedia a passagem, pois os habitantes da cidade não permitiam a Josué nem a seu povo que cruzassem por ali. A narrativa é extensa e marcada por muitas passagens e acontecimentos significativos. (Ver livro de Josué, primeiro livro após o Pentateuco, os cinco livros iniciais da Bíblia). A culminação desse episódio se dá por inspiração divina ao próprio Josué, que ordena que o povo circunde sete vezes as muralhas da cidade, carregando a Arca da Aliança e que toquem suas trombetas. No final da sétima circunvolução, ao soar das trombetas, as gigantescas muralhas de Jericó desmoronaram. O povo hebreu venceu aqueles que lhe barravam a entrada em seu país e consegue desse modo retornar à Terra Prometida. No trecho do Evangelho de Lucas desta semana, fala-se de um cego sentado à entrada de Jericó, pedindo esmola. Não se diz que ele esteja impedido de entrar na cidade, contudo é muito provável que os mendigos e pedintes daquela época tivessem de ficar do lado de fora, para não incomodar os moradores da cidade nem os viajantes que nela entravam. O fato é que ele está ali, do lado de fora, sentado, enquanto que, diante dele, as pessoas passam, entrando ou saindo da cidade. O cego permanece do lado de fora, um tanto alheio ao que se passa lá dentro. Sua cegueira é, de certo modo, uma muralha que o impede de perceber o que acontece além do seu limitado campo de observação. Ele ouve as pessoas passarem, mas não tem ciência de onde vem ou para onde estão indo ou o que fazem. Poderíamos também imaginar que sua cegueira o aprisiona dentro de sua própria muralha, e lhe impede de prosseguir sua própria jornada na vida, por isso permanece ali sentado.

“… havia um cego assentado junto do caminho, mendigando…”

Hoje o mundo passa por um momento de incertezas e preocupações. Muitos sentem como é difícil olhar para o futuro e prever algo, planejar a médio e longo prazo, criar imagens do que queremos fazer nos próximos anos. A crise que se abateu sobre a humanidade, de certo modo também nos colocou “assentados”, esperando à beira do caminho que tudo passe e a vida prossiga como era antes. Será que a vida prosseguirá como era antes? Esta dificuldade em ver mais além, de lançar um olhar para o futuro e planejar, pode também ser vista como uma cegueira ou um aprisionamento dentro de nossa própria muralha anímica, erguida pelo medo, pela insegurança e pelas dúvidas em relação às coisas que estão acontecendo a nossa volta.

Josué e o povo hebreu reconheceram que as muralhas de Jericó eram o fator que os impedia entrar em sua Terra Prometida. Por inspiração divina eles rodearam as muralhas, tocaram as trombetas e as muralhas caíram, abrindo-se assim o caminho. O cego à beira do caminho, ouviu que algo acontecia, que alguém especial passava por ali. Ele então tomou uma atitude, levantou-se, alçou a voz como trombeta e as muralhas de sua cegueira desmoronaram.

“… e o cego viu e O seguiu, glorificando a Deus!”

Cabe a cada um de nós nos perguntarmos, se há momentos em que estamos parados, sentados à beira do fluxo da vida esperando, porque não conseguimos ver um pouco mais além, pois presos estamos em muralhas internas que nos encobrem a visão do espírito. A paciência é, sem dúvida, uma virtude, a passividade, nem sempre. Não podemos mudar o curso dos acontecimentos atuais, apenas por vontade própria, isso, com certeza, ninguém pode. Contudo podemos ficar atentos ao que se passa à nossa volta, tomar atitudes, alçar a voz (não com gritos rebeldes ao vazio que não levam à mudança alguma, mas alçar a voz no sentido de deixar falar mais alto os impulsos mais profundos e verdadeiros, latentes na própria alma), sem perder o foco daquilo que nos é sagrado (Josué e o povo carregavam a sagrada Arca da Aliança enquanto rodeavam as muralhas; o cego se levantou quando ouviu o nome de quem estava passando). Assim, encorajados, podemos começar a derrubar as muralhas da cegueira espiritual que, por vezes, almeja se apoderar de nossa alma e quer nos impedir de prosseguir nosso caminho.

Renato Gomes

Reflexão sobre o salmo 148

“Aleluia! Louvai o Senhor nos céus, louvai-o nas alturas.
Louvai-o, vós todos, seus anjos, louvai-o, vós todos, seus exércitos.
Louvai-o, sol e lua, louvai-o, vós todas, estrelas brilhantes.
Louvai-o, céus dos céus, e vós, águas de cima dos céus.
Louvem o nome do Senhor, porque ele mandou e foram criados.
Firmou-os para sempre, eternamente, deu-lhes uma lei que jamais passará.
Louvai o Senhor na terra, cetáceos e todos os abismos,
raio e granizo, neve e neblina, vento tempestuoso que cumpre suas ordens;
montes e todas as colinas, árvores frutíferas e todos os cedros,
feras e animais domésticos, répteis e aves que voam.
Os reis da terra e todos os povos, governantes e chefes todos da terra,
rapazes e moças, os velhos junto com as crianças,
louvem o nome do Senhor porque só seu nome é sublime. Sua majestade resplandece sobre o céu e a terra.
Ele aumentou o poder do seu povo. É canto de louvor para todos os seus fiéis, para os filhos de Israel, povo que está perto dele. Aleluia.”

Salmo 148

Louvai o Senhor!

Hoje em dia nos ocupamos muito mais com outras coisas do que com o louvor e a gratidão. Normalmente olhamos para os nossos feitos e para as dificuldades da vida. Tornou-se incomum agradecer e louvar. O salmo nos mostra como o louvor e a gratidão podem ressoar por toda a criação. Primeiro nos reinos dos céus e em suas forças. Depois no reino da Terra e em tudo que vive em sua face. De toda a criação, o ser humano tem uma tarefa especial. Ele está apto a desenvolver sua liberdade. Adquirindo a possibilidade de se relacionar em liberdade com o mundo espiritual. Desta maneira, está em nossas mãos agradecer e louvar.

Louvai o Senhor!

Podemos fazer pequenos passos para intensificar a gratidão em nós. No final do dia podemos silenciar por um instante e perguntar: Por qual momento do dia sinto gratidão? Perceberemos que temos muito a agradecer: aos nossos familiares, amigos e pessoas que encontramos. À Terra que nos sustenta e aos céus de onde trouxemos nossa missão de vida, e para onde voltaremos. Essa gratidão pode se tornar um grande louvor ao Senhor. O ser humano caminhará para uma harmonia com o louvor de todas as hierarquias.

Louvai o Senhor!

Julian Rögge