Conto: Os elementos no caminho a Belém

Parte III

Os caminhos pelas regiões montanhosas tornaram-se cada vez mais difíceis. José decidiu que melhor seria descer a montanha e viajar pela costa, junto ao mar. 
A viagem foi bem agradável no começo. A brisa fresca do mar era aprazível. O jumentinho trotava com mais facilidade sobre a areia macia. Quando surgia uma aldeia de pescadores, José trocava um pouco dos alimentos que trazia por peixe fresco que assava sobre as brasas de uma fogueira e o comia junto com Maria.
Após alguns dias de viagem, aproximaram-se de uma parte do litoral, onde a praia era uma estreita faixa de areia entre o mar e as encostas rochosas. Caminharam muitas horas por aquele lugar, não encontraram aldeias nem vilas de pescadores. O sol brilhava forte no céu e fazia bastante calor. A água que traziam estava terminando. José observava com atenção se nas paredes rochosas surgia um pequeno córrego de água doce para reabastecer seu odre, mas nada encontrou.
As horas passavam e o calor aumentava. Haviam tomado os últimos goles e o caminho à frente era longo.
— José, – disse Maria – Minha garganta está seca! Quando será que encontraremos água fresca?
José olhava para o imenso mar e refletia:
— Toda esta água aqui tão próxima, mas não nos serve para beber!
Também o jumento demonstrava que tinha sede, pois seu trote foi se tornando cada vez mais lento e pesado. Para não sacrificar demais o pobre animal, Maria decidiu caminhar ao lado do esposo e com a mão sobre o pescoço do jumentinho, sussurrava próximo a suas grandes orelhas:
— Querido burrico! Não desistas agora!
José subitamente apontou para frente e gritou:
— Maria, olha! Lá a nossa frente há um rio que desemboca no mar! Apressemo-nos! Quem sabe, suas águas são límpidas e nos sirvam para saciar a sede.
A visão do rio trouxe ânimo aos viajantes. Aceleraram a marcha em direção ao rio. Quando estavam próximos perceberam que suas águas eram barrentas. Assim mesmo o jumento enfiou seu focinho nas águas turvas e bebeu até fartar-se.
— Pelo menos nosso animalzinho conseguiu apaziguar sua sede – disse Maria.
— Mas agora estamos com outro problema! – observou José – Este rio que desce das encostas rochosas é caudaloso. Não podemos atravessá-lo, sua correnteza é forte e não vejo ponte onde possamos cruzá-lo…
Neste instante ouviram uma voz que lhes chamava: 
— Viajantes! Viajantes! Vinde aqui!
Sobre uma pedra à margem do caudaloso rio, estava sentada uma velha mulher. Seu vestido esverdeado era longo e estava em parte submerso nas águas do rio. Seus longos cabelos brancos escorriam sobre seus ombros e brilhavam à luz do sol numa suave tonalidade que se aproximava ao azul.
Maria e José se aproximaram da mulher, que lhes perguntou: 
— O que procurais?
Maria lhe respondeu:
— Minha senhora, estamos sedentos. A água de nosso odre terminou. Caminhamos há horas sob o sol e estamos sedentos! Vimos o rio e nos alegramos, mas as águas estão com tanto barro que não podemos beber…
 José acrescentou:
— Além disto, não podemos prosseguir viagem, pois não há como cruzar esta correnteza!
A mulher levantou-se da pedra onde estava sentada. Era de pequena estatura, mas se movia com agilidade. 
— Pois eu sei como ajudar-vos. Segui-me!
A mulher de longos cabelos brancos azulados começou a caminhar pela margem do rio. Seu longo vestido impedia a visão de seus pés e era arrastado em parte na terra em parte nas águas do rio enquanto ela caminhava. Maria, José e o jumentinho a seguiam.
O grupo caminhou pela margem no sentido oposto à correnteza, em direção as paredes rochosas de onde vinham as águas. Ao se aproximarem, eles perceberam que naquele lugar onda as águas das regiões altas desciam pelas encostas pedregosas o terreno era bem irregular. A mulher com o longo vestido, subia com habilidade pelas rochas molhadas da margem do rio. José ajudava Maria a fazer a escalada, escolhendo os pontos mais fáceis e mais seguros para que ela não escorregasse. O burrico também encontrava nas pedras da margem os lugares para apoiar-se e subir com firmeza.
Não foi uma subida fácil! Mas, por fim, eles chegaram a um lugar onde havia grandes fendas nas paredes rochosas. A mulher lhes indicou uma greta escura. Ao se aproximarem perceberam que do interior da fenda escorria um filete de água cristalina. José encheu o odre e deu-lhe a Maria para beber. Ele mesmo, juntando as mãos em concha, também saciou sua cede. Aquela água cristalina era fresca e agradável!
— Senhora, – disse José dirigindo-se a mulher dos cabelos azulados – estamos muito agradecidos a ti por nos mostrar o caminho até esta fonte refrescante!
A mulher então falou-lhes: 
— Vinde comigo um pouco mais adiante. Quero mostrar-vos um vau onde as águas deste rio não são tão profundas e a correnteza não é tão forte. Lá podereis atravessar sem dificuldade.
José e Maria a seguiram. Desta vez o caminho não era muito íngreme. Chegaram a um local onde o rio fazia uma ampla curva. Naquele vau o leito era raso e os viajantes puderam cruzar as águas com facilidade. Ao chegarem na outra margem, Maria disse à mulher: 
— Boa mulher, tu foste muito gentil conosco! Nós te agradecemos, pois nos mostras-te a fonte de água fresca e nos acompanhaste até este vau. Como te chamas?
— Aqui todos me chamam de Aquália! – e estendendo o braço entregou a Maria um pequeno frasco de vidro.
— Leva isto contigo. Sempre que sentires sede, esta água irá te saciar. Um dia teu filho trará ao mundo a água viva, que saciará a quem tiver sede.
Após dizer estas palavras, Aquália desapareceu, como se tivesse sido levada pela corrente do rio.
Maria guardou o precioso frasquinho, montou no jumento e prosseguiu com José a viagem a Belém.

Renato Gomes

No quarto Advento, domingo dia 20 de dezembro seguirá a última parte deste conto.

Conto: Os elementos no caminho a Belém

Parte II

O caminho para Belém conduziu José e Maria por um extenso planalto. O terreno era pedregoso, não havia árvores, apenas aqui e ali cresciam alguns arbustos espinhosos. Quanto mais avançavam, mais o solo se tornava arenoso. O sol brilhava alto no céu e fazia calor. Subitamente o vento do leste trouxe uma tempestade de areia. José conhecia aquela região pois já havia passado algumas vezes por ali quando era mais jovem. Ele sabia que não estavam muito distantes de uma aldeia onde fizera amizade com alguns pastores, mas a tempestade de areia trazida pela borrasca não lhes permitia ver bem por onde andavam. Maria teve que cobrir o rosto com seu manto para se proteger, o jumentinho também sofria com a ventania e a areia que lhe entrava nos olhos e nas narinas. José abaixou o capuz sobre a face e com a manga de sua roupa cobria o nariz e a boca. Com os olhos entreabertos tentava com grande dificuldade enxergar algo…
A duras penas avançavam, mas sem perceber foram se desviando do caminho…
A areia soprava de todos os lados, o vento forte assoviava com intensidade. Tornou-se então impossível prosseguir a viagem. José ajudou Maria a desmontar e ambos se abraçaram junto ao jumento; encolhidos esperavam que a tempestade amainasse.
Enquanto aguardavam ali agachados, ouviram longe um assovio diferente, que dava a impressão de estar cada vez mais perto deles. O assovio foi se tornando mais audível e aos poucos começaram a escutar naquele assovio uma espécie de melodia. José levantou um pouco a cabeça e distinguiu no meio da tempestade de areia uma figura que caminhava em sua direção. Quando estava bem próxima, José reconheceu que se tratava de uma jovem, cujos véus da vestimenta dançavam ao vento. Com uma voz musical a jovem lhes disse: 
 – Caminhantes, levantai-vos! Vinde comigo!
A jovem ajudou Maria a se erguer e cobriu-a com um de seus véus. Estendeu a outra ponta do véu sobre os ombros de José. Lançou ainda sobre o jumentinho um dos delicados mantos que pendiam de sua cintura. O grupo caminhava a passos curtos e próximos uns aos outros. A jovem cantarolava todo o tempo uma delicada melodia que alegrava o coração. Protegida pelo véu daquela estranha figura, Maria sentiu alívio, pois a areia não fustigava mais seu rosto. 
José e o jumento também seguiam mais aliviados. A tempestade continuava soprando violentamente, mas o pequeno grupo seguia sereno seu caminho.
A jovem os conduziu até uma velha choupana em ruínas.
 – Entrai e repousai! – disse.
José acomodou o jumento num canto onde havia um monte de feno. Depois sentou-se num banco de madeira junto a Maria.
 – Minha jovem – indagou Maria – como te chamas?
A jovem respondeu com sua voz cantarina:
—Todos que me conhecem me chamam de Brisa!
—Jovem Brisa – exclamou José – nós muito te agradecemos por nos ajudar a chegar a esta choupana que nos protegerá enquanto durar a tempestade de areia.
Brisa se mantinha de pé junto a porta e olhava intensamente Maria; começou então a entoar um lindo canto e, enquanto cantava, os véus que lhe cobriam o corpo se moviam, como que agitados por um sopro invisível no ritmo da melodia:
—Maria, Maria! 
Teu nome me foi soprado pela ventania! 
Antes de aqui chegares, eu já o sabia.
O Sopro do Altíssimo que em teu ventre agora habita 
ecoará um dia pelo mundo qual voz forte e infinita!

Maria ficou impressionada com as palavras daquele canto, fechou os olhos para que a melodia reverberasse ainda em seus ouvidos e, quando olhou de volta, percebeu que Brisa não estava mais lá.
Do lado de fora a tempestade ainda se mantinha agitada. A choupana não tinha porta e as velhas paredes estavam cheias de buracos, mas miraculosamente o ar no seu interior estava sereno, a areia não penetrava. José e Maria ficaram sentados no velho banco em silêncio, observando tudo. Tinham a impressão de que um suave assovio preenchia o ar, quase imperceptível aos ouvidos, mas que lhes fazia sentir segurança naquele lugar.
Já havia escurecido quando a tempestade cessou. 
Os viajantes decidiram passar a noite naquela choupana.
No dia seguinte, retomaram sua jornada. José reconheceu à luz do novo dia qual direção deveriam tomar para chegar à aldeia de seus amigos pastores. Maria olhou para trás e se despediu da choupana cantarolando:
—Brisa gentil! Brisa acolhedora! 
A ti agradecemos, a voz protetora!

Renato Gomes

Conto: Os elementos no caminho a Belém

Parte I

O Arcanjo Gabriel havia anunciado a Maria que o menino Jesus viria ao mundo; depois, em sonho, havia aparecido a José para lhe dar esta boa notícia.
Naqueles tempos o Imperador Augusto, interessado em saber quantas pessoas viviam nos muitos reinos e províncias dominadas pelos romanos, decretou que todos deveriam registrar seus nomes em listas, cada um na cidade de seu nascimento.
José havia nascido na pequena cidade de Belém; por este motivo foi necessário que, juntamente com sua esposa Maria, empreendessem a longa jornada de Nazaré, na província da Galileia, até Belém, nas montanhas da Judeia. Era um longo caminho que cruzava todo o país de norte a sul, passando por regiões desérticas e montanhosas. Seriam necessários vários dias de caminhada até chegarem ao destino.
Maria estava preocupada, pois faltavam poucos dias para o nascimento de seu filho. José conseguiu emprestado um jumento jovem e forte, que poderia carregar sua esposa na tão longa jornada.
Deixaram Nazaré numa tarde em que o céu estava encoberto e soprava um vento frio que vinha das altas montanhas do Hebron, situadas ao norte da Galileia, sempre cobertas de neve.
A noite chegou rápida e o frio tornou-se mais intenso. Não havia cidades ou aldeias na região por onde iam. José conduzia pelas rédeas o jumentinho, sobre o qual Maria vinha montada, envolvida em seu manto, para proteger-se do vento gelado.
– José, onde iremos passar a noite? Faz tanto frio e não vemos nenhum sinal de vilas ou aldeias a nossa frente…
– Maria, respondeu José, prossigamos um pouco mais, talvez enxerguemos alguma luz que nos possa conduzir à casa de um camponês que habite por aqui…
Prosseguiram um longo trecho do caminho, mas nada encontraram. A noite se tornava cada vez mais escura e o vento mais frio…
– José, está muito difícil prosseguir… o jumentinho está cansado, estamos tremendo de frio… temos que parar e repousar…
– Maria, não podemos parar ainda … precisamos encontrar um lugar que pelo menos nos proteja deste vento gelado…

José olhava para a escuridão à sua frente e mal conseguia enxergar o caminho por onde iam… De repente teve a sensação de avistar um lume.
 – Maria, olha ali à frente, vês aquela luz?
A princípio Maria não via nada, pois tinha a cabeça tão  envolta em seu véu para se proteger e mantinha os olhos fechados que demorou um pouco a se acostumar com a escuridão da noite; mas depois de um tempo, observando na direção em que José apontava, também ela teve a sensação de perceber algo brilhando à frente.
Apressaram o passo em direção àquilo que poderia ser a luz de uma cabana ou de uma fogueira. Se havia luz, haveria com certeza alguém lá que talvez os pudesse ajudar.
Quando se aproximaram o suficiente, perceberam que a luz provinha de um pequeno lampião carregado por um menino.
– Boa noite caminhantes! – exclamou o menino, – por que caminhais neste frio?
Maria respondeu-lhe:
 – Estamos nos dirigindo a Belém, para colocar nossos nomes nas listas, conforme o desejo do Imperador. A noite escura nos desorientou… buscamos um lugar para passar a noite e para nos proteger do vento gelado das montanhas.
O jovem com o lampião lhes disse:
– Por aqui não vão encontrar vivalma! Se quiserdes me acompanhar, eu vos poderei ajudar!
José respondeu:
– De bom grado te acompanhamos e agradecemos tua generosa ajuda.
O menino com o lampião iluminava o caminho. Maria e José puderam então observá-lo um pouco melhor à luz que irradiava da pequena vela no lampião. O jovem tinha um gorro vermelho e pontudo sobre a cabeça, seu rosto era alegre, seus lábios estampavam um sorriso enquanto falava e seus olhos pareciam duas brasas que irradiavam à luz do lampião, vestia-se com uma túnica curta cuja cor lembrava tons rubros e alaranjados. Apesar de ter seus braços e pernas descobertos, parecia não sentir frio.  Curiosamente Maria começou a perceber que, apesar do vento frio continuar a soprar, a pequena luz do lampião do menino aquecia seu coração. José também percebeu algo parecido e sentiu que suas pernas não estavam tão enrijecidas pelo frio como antes e havia se tornado mais fácil prosseguir a caminhada ao lado do menino.
Às vezes o jovem parava, alumbrava com seu lampião o chão e dizia:
– Olha, aqui temos um graveto! Vamos levá-lo pois, se juntarmos alguns mais, poderemos acender uma fogueira.
José ia então recolhendo os gravetos e pequenos ramos que encontrava num cesto que carregava às costas.

O menino do lampião os conduziu a um grande paredão rochoso que os protegia do vento.  Maria desceu do jumentinho e sentou-se no chão encostada à grande rocha.  José juntou os galhos recolhidos no caminho e armou com eles uma pilha, que foi então acesa pela luz do lampião do menino. José se acomodou ao lado de Maria, também o jumentinho veio se deitar próximo ao fogo para se aquecer.
– Queremos te agradecer, bom menino, – disse Maria – por nos ajudares a encontrar este lugar protegido.  Como te chamas?
O menino do lampião respondeu:
– Chamam-me Ígneo. Foi para mim uma alegria prestar esta ajuda a ti e aquel’Ele que carregas próximo a teu coração, pois chegará o dia em que Ele acenderá o fogo que iluminará todas as trevas. 
José dirigindo-se ao menino, falou:
– Meu jovem Ígneo, não temos muito para oferecer, mas nos alegraremos se quiser compartilhar conosco nosso alimento. Enquanto falava, José começou a retirar do alforje o pão e os poucos alimentos que haviam trazido na viagem. 
– Agradeço-lhe, bom homem, mas meu alimento é de outra natureza!
 Ao dizer isto, o jovem Ígneo desapareceu num clarão, deixando José um pouco desconcertado…
Maria e José depois de comerem se deitaram junto ao fogo. Apesar de ter sido feita com os poucos gravetos achados no caminho, a fogueira permaneceu acesa e vigorosa durante toda a noite e manteve os viajantes aquecidos.
No dia seguinte o vento frio havia passado e o sol aquecia a manhã. Quando Maria e José se despertaram, notaram que havia sobrado apenas um punhado de cinzas no local da fogueira. Lembraram do menino que encontraram na noite anterior. Maria tocou as pedras, ainda mornas, em volta do lugar da fogueira e olhando para as cinzas disse:
– Ígneo, não sabemos ondes estás agora, mas queremos te agradecer pela luz que nos guiou na escuridão e pelo calor que nos deste!
Depois disto o casal retomou sua viagem a Belém.

Renato Gomes

Conto: A Grande Pausa

Parte II

As Rainhas decidiram juntas fazer um decreto real: todas as famílias devem ficar em casa juntas. Ninguém estava autorizado a trabalhar, e as crianças não poderiam voltar para o poço na floresta. “Quanto tempo nós devemos ficar em casa?” perguntaram as famílias. “Até nós lhe dizermos que é seguro”, disseram as Rainhas. Então, todas as pessoas no reino foram para suas casas, se aconchegaram juntas lá dentro, e esperaram. Os primeiros dias em casa foram divertidos, mas depois de muitos dias, os adultos começaram a se preocupar com todo o trabalho que precisava ser feito e as crianças começaram a ficar inquietas e sentir falta dos amigos!

Dia após dia, eles esperavam para ouvir o que diriam suas Rainhas. Enquanto isso, as Rainhas haviam se reunido ao redor do Poço. Elas trabalharam juntas para drenar a água do poço, o que levou muitos dias, pois era muito profundo, e estavam trabalhando com cuidado para não respingar uma única gota sobre elas mesmas. Depois de muitos dias esvaziando balde após balde, elas finalmente chegaram ao fundo do poço, embora não pudessem vê-lo. Então enviaram um pássaro para inspecionar o poço e ver se algo parecia suspeito. De fato, o pássaro encontrou uma pedra cinza escura e coberta de musgo, bem no fundo do poço. Quando o pássaro contou isso para as Rainhas, elas imediatamente souberam a quem a pedra pertencia: “A Velha do Musgo!” elas disseram juntas.

Quando disseram o nome dela, uma mulherzinha bem pequena e coberta de musgo apareceu dançando ao redor de seus pés, a mais sábia dos pequenos seres, a Velha do Musgo. “Esta pedra é sua?” perguntaram as Rainhas. “Sabemos que você não faria mal às pessoas do nosso reino, mas parece que esta pedra envenenou nossa água.”

“Minhas queridas”, disse a Velha do Musgo, “seu povo tirou um bom e longo descanso? Este não é nenhum veneno, mas simplesmente uma pausa para que seu povo se lembre o que é mais importante. Você verá como, depois desse bom descanso, eles voltarão com mais alegria e entusiasmo!”

Ela pegou sua pedra de musgo e desapareceu rapidamente entre as folhas no chão da floresta.

Assim como ela havia prometido, de fato, depois de um longo tempo em casa juntos, o povo do reino encontrou uma alegria renovada em passar tempo com suas famílias. Especialmente aqueles que estavam tão cansados​ do trabalho que ficaram imóveis como pedras, pois precisavam tanto dormir! Quando acordaram da quietude, estavam revigorados de energia.

As Rainhas convidaram todos a se reunirem na floresta mágica ao redor do poço mais uma vez e anunciaram que todos poderiam voltar a ficar juntos novamente. As crianças ficaram muito felizes ao encontrar seus amigos, de quem tanto tinham sentido falta, e as pessoas decidiram que poderiam deixar seu trabalho no trabalho a partir de agora e aproveitar as pequenas pausas todos os dias.

E todos viveram felizes para sempre.

Elizabeth Emmett

Conto: A Grande Pausa

Parte I

Era uma vez, em uma terra distante, mas não tão distante assim, há algum tempo, mas não tanto tempo assim, havia um pequeno e adorável reino de pessoas muito trabalhadoras. Neste reino, havia quatro aldeias, cada uma governada por uma Rainha sábia e gentil. Havia a aldeia Norte, a aldeia Sul, a aldeia Leste e a aldeia Oeste. A aldeia Norte era uma terra cheia de morros e montanhas, onde as pessoas trabalhavam duro forjando ferramentas para o reino e cortando madeira para casas. Na aldeia Leste, ficava o mar onde os pescadores passavam seus dias quentes no mar e os comerciantes trabalhavam incansavelmente para fabricar e vender seus artesanatos e mercadorias. Na aldeia Sul, os agricultores cuidavam de seus campos e animais, trabalhando incansavelmente para alimentar o reino. Na aldeia Oeste, havia uma grande cidade cheia de arranha-céus, onde as pessoas trabalhavam em seus computadores e realizavam muitas reuniões para administrar os negócios do reino. Enquanto os adultos trabalhavam todos os dias, as crianças do reino se reuniam para brincar na floresta mágica ao redor do poço, no centro do reino. 
As crianças cantavam e dançavam juntas, construíam casas para os pequenos seres da floresta e faziam muitas rodas ao redor do antigo poço. No final de seus dias cansados, o trabalho das crianças era levar um balde de água de volta para cada uma de suas casas no reino. Todos no reino sabiam que a água do poço era a melhor para lavar, cozinhar e se nutrir, pois ela possuía uma qualidade mágica
que diziam ter vindo dos pequenos seres da floresta mágica.
Um dia, quando os adultos estavam voltando para casa depois de um longo dia de trabalho, e as crianças estavam se despedindo de seus amigos e enchendo seus baldes para levar para casa, algo muito estranho aconteceu. 
Uma criança que estava cansada de tanto brincar decidiu tomar um grande gole da água do balde. Seus amigos notaram que depois que ele bebeu a água, seu corpo ficou parado como uma estátua. Era como se ele tivesse virado pedra.

As crianças correram rapidamente para casa para contar às suas famílias. Uma criança foi para sua casa no Norte e foi recebida por seus pais, que estavam voltando do trabalho nas minas. Seus rostos e mãos estavam cobertos de fuligem e, quando a criança tentou explicar o que viu no poço, seus pais começaram a lavar a fuligem com a água do balde. Assim que molharam o rosto com a água, eles também ficaram imóveis como pedra, com a água pingando de seus narizes.
No Oeste, uma criança chegou em casa e encontrou seus pais, que eram alfaiates. Eles tinham trazido sua costura para a mesa do jantar e disseram que simplesmente não podiam parar para comer. Eles teriam que comer enquanto costuravam para conseguir cumprir sua meta. A criança preparou um mingau de aveia com a água do poço e, enquanto cada um deles comia uma colherada, sem
tirar os olhos do trabalho, eles também ficaram imóveis como pedras.
Uma criança levou sua água para casa em uma fazenda no Sul. Os fazendeiros ficaram muito animados por terem um balde de água fresca para regar suas plantações, mas assim que a água se espalhou sobre o milharal, cada caule ficou duro como pedra, e nenhuma brisa poderia dobrá-los ou mexê-los. A criança que foi para casa na cidade grande levou o balde para o apartamento onde sua família
trabalhava nas telas dos computadores. Eles nem notaram o garoto tropeçar no tapete e derramar a água no chão, mas os respingos da água espalharam pingos e gotas que, voando, caíram sobre os computadores, telefones e móveis. De repente, eles também ficaram petrificados. 
As pessoas no reino não sabiam o que fazer; então, é claro, pediram ajuda às rainhas.

Elizabeth Emmett

Conto: A Ilha das Pedras

Parte II

Certa manhã o Bardo disse: “A filha do rei está à sua procura. Ela tem um coração puro, e te ama profundamente.”
O rapaz muito se surpreendeu, e disse: “Eu não a conheço; como pode ela me amar?” “Ela escutou seu canto e reconheceu a sua alma. Vá até o castelo, pergunte-a sobre a velha lira do falecido Rei, voltem os dois até mim o mais rápido possível, pois eu quero lhes cantar uma música antiga, desconhecida.”
O rapaz saiu bem depressa. Porém em toda a ilha já havia brigas e caos. As pessoas não mais se entendiam direito entre si.  O que uma pedra dizia no coração, não combinava mais com aquilo que outra dizia. Era como se todas falassem línguas diferentes entre si. E os dons das pedras desvaneciam e murchavam, assim como rosas que um dia foram maravilhosas, mas cuja decomposição agora não podia mais ser estancada.
O caminho até o castelo era longo, e o rapaz tinha que parar várias vezes para se orientar e não errar o caminho. Quando enfim chegou no castelo, viu pela primeira vez a filha do rei, seu cabelo escuro e longo, os olhos luminosos, suas mãos delicadas. Ele perdeu a fala, e assim eles apenas se olharam por um longo tempo. Com isto passou-se um tempo precioso, pois o velho bardo estava morrendo. Calada, a filha do Rei conduziu o rapaz pelos seus aposentos, ele então viu a antiga lira dourada do Rei encostada na parede. Imediatamente ele se lembrou que tinham que ir imediatamente até o velho doente, que estava morrendo. Ele disse: “Querida criança das estrelas, venha comigo com a lira dourada de seu pai, até o meu professor que está morrendo. Ele quer nos cantar uma canção que nós precisaremos na luta contra o Rei Trevas com as 11 bestas.”
Imediatamente ela pegou o precioso instrumento, embrulhou-o num pano, e juntos saíram do castelo. Enquanto isso a noite havia chegado: soprava um vento gélido sobre a ilha. As duas crianças mal conseguiam seguir adiante.
Ao mesmo tempo o Bardo percebeu que seu tempo havia terminado, no entanto ele estava completamente só. Onde estava o rapaz, onde estava a filha do rei?
Naquele mesmo instante – a milhões de quilômetros de distância – o Rei Trevas, com as suas 11 bestas, havia aprisionado o marinheiro que certo dia havia partido da Ilha com os outros 11 moradores. O marinheiro havia ficado velho e grisalho. 
Há muito tempo ele havia percebido os erros que cometera e estava muito arrependido. A pedra em seu coração não havia esfriado totalmente; no entanto como ele poderia resguardá-la do Rei Trevas, em cujo poder ele havia caído? Certo de seu negócio, o Rei Trevas disse: “Se você me der voluntariamente a pedra do seu coração, eu te darei a vida. Bem, você poderá ser o cuidador dos meus cães”.  “Nunca, jamais!” disse o velho marinheiro. “Minha pedra você não terá.” O Rei acenou irritado para uma de suas bestas. Esta mostrou seus dentes e o fedor de sua fuça sufocou a respiração do marinheiro. Ele parecia desmaiar. 
Nesse momento a vida do velho bardo expirou, sem ele ter tocado a canção na lira dourada; pois neste mesmo instante, a filha do rei e o rapaz tinham se desviado do caminho e caído dentro de um buraco, e a lira caiu na lama. No momento da morte a pedra do amor brilhou no coração do Bardo e uma luz revigorante projetou-se sobre o rapaz, a filha do rei, e também sobre o ameaçado marinheiro, de tal maneira que o assustado Rei Trevas ficou ofuscado por um momento.
Do âmbito espiritual ressoava a voz de um ser sublime: “Esses três agora deverão resistir com a sua ajuda, Bardo”. Era o falecido rei da ilha que, de distantes esferas solares, participava de tudo o que acontecia. Grande inquietude tomou conta das 11 bestas. Elas começaram a se atacar mutuamente. O Rei Trevas chamou-as à ordem, mas nesse instante, elas não mais o obedeciam.
No mesmo instante o rapaz tirou a lira dourada do barro e, por acaso, tocou nas cordas. Neste momento, ele e a filha do Rei souberam que o Bardo havia morrido. Mas aconteceu o milagre que o rapaz, na voz do Bardo, cantou e tocou a velha canção, que nunca se fizera ouvir. Era como se o velho Bardo tocasse e cantasse através dele. A filha do rei acolheu essa canção profundamente em seu coração.
Ao mesmo tempo o marinheiro, em meio ao perigo, ouviu essa canção, sua coragem retornou e a pedra em seu coração ganhou vida. O próprio Rei Trevas, que estava à sua frente de adaga erguida, ficou mudo. O marinheiro então cantou conforme lhe mandava o coração, com a voz rouca e destreinada. As bestas acompanharam uivando horrivelmente, o Rei Trevas se irritou profundamente, no entanto ele estava impotente. Afinal o marinheiro escapou da ameaça do Rei Trevas; ele foi levado nas asas do Canto e a alma do falecido velho o conduziu de volta à sua pátria, na ilha, para o buraco com barro, junto ao rapaz que estava cantando com a lira dourada e a filha do rei.
Do que tratava a canção nunca ouvida? No fundo não era nem velha nem nova. Ela vinha do “não-nascido”. Ela só poderá ser ouvida por seres humanos cuja vontade de sacrifício é tão grande, que eles conseguem se apartar daquilo que se tornou, daquilo que existe. Para aqueles que ainda estão ancorados na solidez, na riqueza desse mundo, essa canção é incompreensível, certamente quase inaudível.
Assim cantava o jovem, com a lira dourada que havia caído no barro, ao lado da filha do rei que tremia de emoção, e do velho marinheiro que havia sido enviado pelo falecido Bardo. 
Quanto ao Rei da Ilha originária de remotas distâncias solares, o rapaz cantou sobre a transformação do Mal.
Este é o segredo do Mal, que ele quer ser transformado. O Pai Divino permeia tudo, até o Rei Trevas e as 11 bestas. E era disto que falava o canto do rapaz: que tudo pode ser renovado. 
No caminhar do mundo nada precisa ficar para trás. Sua melodia passava por 11 tons, que ao tecer transformava esses 11 tons em um vibrante tapete sonoro. 
E naquela noite ficou claro, nesta ilha no imenso mar, que nada é mais forte do que o amor, que compreende. O Mal não consegue inferir o destino do mundo. O Mal não leva a harmonia alguma. Por isso, a harmonia dos corações consegue superar o Mal e transformá-lo.


Steffen Hartmann

Conto: A Ilha das Pedras

Parte I

Era uma vez um pequeno reino numa ilha distante.  Certo dia o rei dessa ilha decidiu dar pessoalmente, a cada habitante do reino, um presente. Entregou a cada habitante, adulto ou criança, uma Pedra do Amor. As pedras eram feitas de puro amor. Elas tinham a particularidade de serem invisíveis, não terem peso físico e, no entanto, serem bem perceptíveis. Os habitantes perceberam logo que o melhor lugar para se guardar essas pedras de amor era dentro do coração. No coração elas aqueciam totalmente a pessoa e atuavam de tal maneira, que cada um passou a pensar e sentir o melhor sobre cada morador da ilha.
Depois que o sábio rei da ilha entregou a Pedra do Amor para cada um dos habitantes, ele faleceu. Na noite da morte do rei, uma grande tristeza tomou conta da povoação daquela ilha em alto mar. Elas se sentiram solitárias e abandonadas.
No entanto, o dia seguinte despontou especialmente calmo na ilha, e havia um brilho surpreendente em cada pessoa. Eram as Pedras de Amor do rei, que naquele momento começaram a brilhar como partes de uma grande obra, e em alguns casos, até começaram a soar. Outra peculiaridade dessas “pedras-presente” logo se fez perceptível – elas eram como puros espelhos: nelas se podia ver espelhada a própria alma. Também as almas de outras pessoas se espelhavam nas pedras, de forma pura e natural. Isso ocasionou uma nova e grande união entre as pessoas da ilha.
Ora, aconteceu que nessa ilha também havia um marinheiro extraordinário e descobridor, que quando era jovem havia viajado pela metade do mundo. Ele foi tomado então por uma grande saudade de partir para terra firme, e lá contar às pessoas sobre o Rei da Ilha, sobre sua morte e sobre suas pedras peculiares. Mas quem lá nas lonjuras, lhe daria crédito, já que ele estava sozinho?
Assim sendo, ele procurou quem o acompanhasse nessa viagem. Ele contou sobre terras estranhas e costumes enigmáticos que ele havia visto, despertando assim em alguns de seus amigos o desejo pelo desconhecido. Ele também descreveu vivamente como os poderosos desse mundo reagiriam às preciosas pedras do amor que cada morador da ilha trazia consigo. Não seria tentador coletar algumas dessas pedras e, conforme o interesse despertado, negociá-las por animais raros, plantas curativas e metais preciosos? 
A troca do presente do rei por dinheiro e ouro incomodou bastante aos que queriam participar da viagem. Isso era correto? Isso não traria azar?
Prontamente este fato fez com que as pedras nos corações dos envolvidos se tornassem imperceptivelmente mais escuras e pesadas. 
Elas ainda brilhavam, mas um leve alvoroço surgiu nas pessoas, no sentido de lançarem-se logo na aventura e arriscarem-se ao negócio.
Assim que, em dia propício, doze pessoas partiram da ilha, lançando-se ao mar equipados de víveres e de bom humor, um velho adivinho que não tinha ido junto, descobriu em seu coração o dom de ver o futuro através de sua pedra. Muito assustado ele previu como os viajantes cairiam em uma tempestade, e também como, através do poder de suas pedras, conseguiriam acalmar os elementos da natureza, a tempestade daí para frente atuaria em suas almas e, em cada um, as dádivas das pedras aos poucos levariam a um sutil egoísmo. Um medo que as pedras pudessem ser roubadas tomou conta dos viajantes, principalmente em terra firme, a qual alcançaram totalmente esgotados depois de sete semanas. Este medo levava continuamente à vontade de ralhar, de brigar, de não mais se unir. E sempre quando um dos que portava a pedra se voltava contra outro que também portava a pedra, essas pedras se tornavam ao mesmo tempo mais escuras e pesadas, o mesmo acontecia com as que havia na ilha distante…
O velho Bardo guardou em sua alma todas essas visões do futuro, e calou-se. Mas elas o tornaram sério e ressequido. Enquanto isso, os outros habitantes da ilha passavam por um período feliz. Descobriram o dom curativo das pedras. Quando dois moradores da ilha, um doente e outro sadio praticavam uma boa ação em conjunto, como por exemplo, montar um canteiro de flores, ou preparar uma gostosa refeição para outros, milagrosamente o doente sarava. E quando duas ou três pessoas mantinham uma conversa profunda, e realmente escutavam umas às outras e faziam perguntas sinceras, percebiam curiosamente como todas eram nutridas e carregadas por suas pedras. De tal maneira que, alguns grupos, a partir daí, passaram a se alimentar mais através de suas conversas do que como anteriormente, através de comida e bebida.
Somente o velho percebia durante as noites que o seu coração doía, e ele percebia como o destino trágico dos doze viajantes também atuava sobre os habitantes da ilha. Desde então aconteciam mais frequentemente pequenas brigas na ilha. Em si elas eram inofensivas, mas tinham efeitos estranhos: acontecia que quando um deles achava que sabia exatamente como seria o tempo no dia seguinte, e os outros não, ou quando um achava que a sua pedra tinha forças curativas especiais, essas discordâncias faziam com que todas as pedras ficassem mais fracas, e às vezes, não faziam efeito.
Na ilha vivia um jovem, que era um aluno aplicado do velho Bardo. Ele aprendera com o velho a tocar a lira, todas as canções antigas e suas melodias. O Bardo nunca falava sobre suas histórias desastrosas do futuro, no entanto, o rapaz sabia do porquê. Ele sabia ler as pedras em todos os corações, de forma especialmente pura e clara. Ele também acompanhava o destino dos 12 viajantes, que neste ínterim haviam brigado entre si e se separado. Ele sabia que o Rei Trevas já havia capturado 7 pedras, e que este pensava dia e noite sobre como conseguir as outras 5.  O rapaz sabia que isso não poderia acontecer.
O que deveria acontecer para que o Rei Trevas não alcançasse seu objetivo ficando com todas as 12 pedras em seu poder? O rapaz refletiu sobre isto várias noites. 

O Bardo percebeu através do canto dele o quanto a seriedade da existência havia penetrado em sua vida, e também pôde ver as forças de sacrifício muito especiais que eram exigidas da pedra dele. Mas ele ainda precisava de uma terceira alma, que acordasse, para que os acontecimentos na ilha pudessem ser discutidos…
Desde a morte do rei, sua filha – uma jovem de pura alma – vivia muito recolhida no castelo. Ela conversava com seu pai através de seu coração e raramente se misturava com as pessoas.  Certo dia, quando caminhava pelas ruas em trajes simples, escutou por uma janela aberta o canto suave do rapaz. Ela nunca havia escutado algo assim. Soava como o murmúrio do mar, o canto dos pássaros, a risada das crianças pequenas, e mesmo assim, ainda havia algo a mais – a pedra do amor dele cantava junto, soava de forma muito viva, como se partisse de várias gargantas ao mesmo tempo. Isso despertou nela um profundo amor por esse rapaz cantor.
Na noite seguinte, ela então viu que esse rapaz corria grande perigo. Um Rei Trevas com 11 cães terríveis caçava o rapaz por uma floresta escura. Por um triz ele conseguiu entrar no oco de uma árvore, totalmente sem fôlego, e o Rei Trevas, com suas 11 bestas, passou voando e sumiu dentro da noite cinzenta. Protegido pela árvore, o rapaz estava totalmente desesperado. Ele sabia que se o Rei Trevas capturasse mais uma pedra, ele então teria todas as 12 em mãos. Então surgiria a décima segunda besta, e também a ilha estaria perdida. Pois elas surgiriam e ficariam com tudo e os moradores da ilha ficariam desprotegidos como crianças adormecidas.
A filha do rei então sentiu uma dor muito profunda ao ver o rapaz tão desesperado, e chamou-o dizendo que queria ajudá-lo… mas nesse instante ela acordou. 
Nesta mesma noite o velho Bardo adoeceu severamente, e o rapaz precisou cuidar dele a partir de então.  A filha do rei então mandou procurar o rapaz, mas as suas servas não o encontraram. O rapaz usou de todas as suas artes curativas para salvar o amado mestre da morte. De noite lutava contra os demônios e de dia cuidava do velho. Este se calava. 
Assim se passaram 40 dias.

Steffen Hartmann

(continuação no domingo dia 08/11)

Conto: A Ponte do Guardião

Parte III

Os moradores das aldeias do continente, num primeiro momento, acharam melhor manter em segredo que a Ponte do Guardião havia crescido de novo. Entretanto, um segredo assim não pode permanecer oculto por muito tempo. Sempre há viajantes indo de um lugar para o outro e, desse modo, a notícia se espalhou com maior rapidez do que os aldeões do continente teriam desejado.
Pessoas vindas de outros lugares queriam visitar Amazoil. Os aldeões, entretanto, só autorizavam quando a pessoa se comprometia a respeitar as regras de harmonia da ilha. Do contrário lhes barravam o acesso à ponte e as obrigavam a retornar a suas cidades. Todos temiam que algo triste ocorresse de novo, semelhante à destruição do passado, principalmente porque agora não havia mais o forte portão para proteger a entrada e o novo guardião era bem pequenino… Ninguém entendia porque os Caa-porás haviam refeito a Ponte, mas não haviam reconstruído o portão que deveria até mesmo ser mais reforçado; melhor ainda se, em lugar de um, tivessem colocado dez guardiões para impedir a entrada àqueles que não viessem com boas intenções.
Os procederes dos Caa-porás eram muitas vezes bem misteriosos!
Todos esses cuidados que os aldeões começaram a ter quando apareciam visitantes de outros lugares, fizeram com que as coisas sucedessem de boa maneira. Amazoil recebia seus visitantes, o pequeno guardião lhes abria a cortina de lianas com flores amarelas e as pessoas regressavam de lá repletas de alegria e encanto por tudo que viam e vivenciavam, na ilha dos Caa-porás protetores da floresta.
Um dia chegou um homem àquele lugar que carregava um saco às costas. Os habitantes das aldeias ficaram preocupados, pois não se sabia quais eram suas intenções nem o que carregava dentro do saco. Era um homem inteligente; disse que vinha de uma grande cidade chamada Planalto Central; não tinha o aspecto rude e grosseiro daqueles que no passado queimaram parte de Amazoil. Com boas explicações conseguiu convencer os moradores de que viera visitar a ilha para recolher amostras de plantas, que levaria a sua cidade para que cientistas as estudassem e com elas preparassem novos remédios. Por lá havia algumas doenças que médico algum conseguia curar. Havia ouvido que em Amazoil crescia todo tipo de plantas e que as riquezas do lugar ajudavam muitas pessoas. Não seria justo então que também os que viviam em Planalto Central pudessem se beneficiar com os dons de Amazoil?
Diante de tais argumentos os aldeões consideraram que podiam deixar aquele homem visitar a ilha. Sobre o que carregava no saco, o homem nada mencionou. Cruzou a Ponte do Guardião e chegou até a cortina de lianas amarelas. O guardião-mirim lhe interpelou:
– Visitante, que promessa me dás em penhor, para que eu te deixe entra em Amazoil?
O homem respondeu: 
– Venho a Amazoil buscar um pouco daquilo que aqui existe em abundância para levá-lo aos meus companheiros de Planalto Central. Tenho certeza de que eles ficarão muito contentes com o que eu lhes levar desta maravilhosa ilha.
As palavras daquele homem soaram enigmáticas nos ouvidos do pequeno guardião. Não lhe parecia um problema que o homem quisesse levar folhas, frutos ou sementes das plantas de Amazoil; tantos outros já o haviam feito antes e com boas intenções… Contudo o guardião sentiu-se incomodado, pois aquelas palavras, ainda que bem formuladas, pareciam ocultar algo…
– O que carregas neste saco? – perguntou o guardião.
O homem ficou embaraçado e, apertando a boca do saco, disse que eram seus instrumentos de trabalho. O pequeno guardião lhe disse então:
– Se não me mostras o que carregas no saco, não te libero a entrada.
O homem, visivelmente nervoso, abriu a boca do saco e tirou de lá um enorme machado:
– Se queres saber, aqui está: Isto é o que eu carrego! Em minha cidade se ouviu dizer que as coisas estavam bem diferentes no portal da ilha desde o dia em que aqui estiveram meus antepassados. Meus amigos de Planalto Central me aconselharam vir sozinho para averiguar e para levar um pouco dos ricos minerais daqui! Vejo que as coisas serão bem mais fáceis agora, pois não há portão e o guardião é um fracote minguado!
O guardião-mirim se colocou na frente do homem que empunhava o machado e com seus pequenos braços abertos insistiu:
– Tu não podes entrar em Amazoil. Tuas intenções não são boas! Retorna pelo caminho que vieste!
O homem com o machado riu alto e vociferou:
– Seu nanico, tu pensas impedir minha passagem?
Empurrou com violência o guardião para o lado e, por meio de um gesto firme de ombros, forçou caminho por entre as lianas de flores amarelas. Os delicados ramos cederam sem resistência à passagem do homem com o machado nas mãos. Por causa do movimento brusco, as delicadas flores amarelas foram sacudidas e soltaram grãos de pólen que caíram em cima da cabeça do visitante não autorizado.
O homem andou alguns passos e de repente parou. Olhou em todas as direções e soltou um grito enraivecido:
– Amazoil é uma grande mentira! Aqui não existe uma única árvore, esta ilha é um deserto! Vejo apenas cinzas neste chão esburacado! Este lugar não serve para nada.
Rapidamente cruzou de volta o portal da cortina de lianas, desceu pela ponte e, correndo de volta a sua cidade, contava a todos que encontrava no caminho que a ponte para Amazoil de fato havia sido reconstruída, mas a ilha já tinha sido saqueada e queimada por outros antes dele!
Os habitantes da aldeia, que ouviram o homem vociferar tais palavras, acudiram com pressa à Ponte do Guardião. Encontraram o pequeno guardião sentado numa pedra ao lado do tronco de uma das grandes Sumaúmas do portal, com um sorriso de satisfação no rosto.
– É verdade o que aquele homem está dizendo? Amazoil foi queimada de novo? – perguntaram.
– Cruzai a cortina e vereis! Qual é a promessa de penhor que me entregais, para transpor o portal?
As pessoas lhe responderam: 
– Nós todos te prometemos que faremos de tudo para que Amazoil se recupere, trabalharemos o quanto for necessário. Queremos desta vez ajudar os Caa-porás no que necessitem. Podeis contar conosco!
– Sendo assim vos permito cruzar o portal. – respondeu o pequeno guardião e fez o gesto no ar para que as lianas abrissem o caminho.
As pessoas passaram e encontraram Amazoil como sempre havia estado: a floresta verde e silenciosa, pulsante de vida, podia ser vista em todas as direções.
As pessoas regressaram pelo portal e encontraram, na saída junto ao pequeno guardião, o mais sábio e velho dos Caa-porás. Todos ficaram tão surpresos e assustados que mal conseguiam pronunciar uma palavra, pois raramente os Caa-porás, principalmente os mais velhos entre eles, se deixam ver pelos seres humanos. O velho Caa-porá, contudo, se adiantou:
– Não tenhais medo! Eu vim aqui para vos ajudar a entender o que aconteceu. Nós, o povo dos Caa-porás, demoramos muito tempo para decidir se deveríamos reconstruir a Ponte do Guardião ou não. Todos sabíamos que a vinda de seres humanos com boas intenções no coração à Amozoil é imprescindível, alguns entretanto achavam que, para que isto acontecesse, seria necessário construir um portão ainda mais resistente que o anterior e postar aqui muitos de nossos companheiros para barrar a entrada aos que carregam machados e tochas nas mãos e ambição nos corações… Eu, porém, consegui convencer a todos os meus companheiros que nada disso fazia sentido. Sempre correríamos o risco de que o portão fosse estilhaçado por armas cada vez mais poderosas e que nossos guardiões fossem atirados no mar… Melhor seria fazer uma delicada cortina de lianas floridas. Basta apenas a ajuda do nosso pequeno guardião, que com habilidade usa seus poderes mágicos para abrir delicadamente a cortina aos que entram com os desejos sinceros de contribuir com a harmonia de Amazoil. Contudo todos aqueles que forem barrados pelo pequeno guardião e, ainda assim forçarem a entrada, irão receber por cima da cabeça o pólen sacudido das flores amarelas. Ao entrarem na floresta, seus olhos e todos os demais sentidos estarão impedidos de ver as árvores, de sentir o perfume das flores, de ouvir os cantos dos pássaros. Verão e perceberão apenas a tristeza e a desolação que vivem em suas próprias intenções. Foi por este motivo que aquele visitante percebeu somente a terra vazia e as cinzas… Este será daqui para frente o nosso maior segredo e a única forma de proteger a ilha. Nós, os Caa-porás, necessitamos de todos vós, seres humanos. Decidimos que a Ponte do Guardião devia ser reconstruída e permanecer pelos tempos futuros, mas doravante só terão acesso à floresta e poderão se beneficiar dela aqueles que cultivaram o amor e o respeito à Amazoil, pois é apenas por meio destes nobres sentimentos humanos que Amazoil poderá continuar existindo.

Os aldeões prometeram aos Caa-porás guardar o segredo; a seguir retornaram tranquilos e alegres a suas casas e continuaram visitando Amazoil sempre que desejavam. Ensinaram seus filhos e netos a amar e respeitar a floresta e todos os que nela vivem.

Renato Gomes

Conto: A Ponte do Guardião

Parte II

Na noite da invasão destruidora em Amazoil, os Caa-porás se reuniram na borda da floresta queimada para deliberar o que fazer. Algo assim nunca havia ocorrido no passado. As pessoas sempre visitaram a ilha e respeitaram as regras do lugar. Os Caa-porás sabiam que muitas pessoas amavam Amazoil. Na verdade acreditavam que todos os seres humanos sentissem algo semelhante pela ilha. Não puderam imaginar que de repente surgissem pessoas que já não conseguissem mais entender o que a floresta tinha de bom e que encontrassem satisfação em destruir apenas para retirar da terra minerais preciosos. Os Caa-porás sempre souberam que os minerais estavam lá, justamente por este motivo Amazoil era tão especial. Aqueles minerais haviam sido a base que nutria as raízes das árvores que, por sua vez, davam alimento e abrigo aos animais e também proporcionavam alegria, conhecimento e remédios aos seres humanos que aprenderam a amar e respeitar a floresta, mas parecia que os tempos estavam mudando…

Os Caa-porás deliberaram toda a noite. Concordaram que algumas coisas precisavam ser feitas. Teriam que trabalhar muito para recuperar e reflorestar aquela parte queimada pelo fogo; isto levaria muito tempo. Concordaram também que, para esta tarefa, seria necessário impedir a entrada das pessoas na ilha; por este motivo recolheram a ponte de raízes. Em relação a um ponto, porém, não chegaram a uma conclusão:

– Vamos permitir que os seres humanos um dia retornem a Amazoil?

Alguns opinavam que melhor seria manter a ilha isolada para sempre. Com certeza grupos como aquele voltariam e os estragos poderiam ser maiores.

Outros, porém, diziam que durante séculos houve visita de tantas pessoas e os Caa-porás bem sabiam que, de todos os seres da natureza, os seres humanos eram os mais diferentes, pois eles podiam escolher tanto amar como destruir. Até então eles conheceram somente as pessoas que souberam demostrar seu amor pela ilha.

Um dos Caa-porás mais antigos e sábios disse:

– Companheiros não sejamos precipitados em nossas decisões. Bem podemos evitar que os seres humanos venham a Amazoil, com isto estaremos nos protegendo daqueles que preferem escolher a destruição, mas estaremos também punindo aqueles que aprenderam a amar nossa ilha impedindo-os de chegar aqui. Todos sabemos o quanto o amor dessas pessoas, durante todos os séculos em que aqui pisaram, fortaleceu as raízes de nossas árvores no solo, pois as árvores são sensíveis e, ao serem amadas, se afiançam com mais força no chão; o quanto o olhar interessado dos visitantes ajuda as plantas, pois respondem a este olhar amoroso e interessado tornando-se mais belas; o quanto as aves que vivem nas copas das árvores se esmeraram em desenvolver cantos cada vez mais bonitos e elaborados, pois perceberam que o ouvido humano, atento e interessado em aprender as melodias dos pássaros, lhes estimula o canto; além disso, também nós, os Caa-porás, sempre soubemos que foi o amor dos seres humanos por todas as criaturas que nos manteve vivos todos os séculos de nossa existência; assim nos foi possível prosseguir com nossa tarefa aqui em Amazoil!

Os Caa-porás ao ouvirem as palavras do sábio ancião fizeram grande silêncio! Depois de um longo tempo, alguns argumentaram:

– Mestre, tu sempre falas bem e nos recorda as coisas essenciais. Por tudo isso te agradecemos, mas também sabes que o descaso pela natureza e a ganância do ser humano não destrói apenas a floresta mas também a nós…

Houve um novo silêncio, mas desta vez pesado de melancolia.

Assim como naquela noite no continente as pessoas não encontravam respostas às perguntas que se faziam, os Caa-porás também não souberam qual seria a melhor decisão a tomar. Precisavam salvar Amazoil da face destrutiva do ser humano, mas precisavam também do ser humano para que Amazoil pudesse continuar existindo…

Os anos passaram. Os habitantes das aldeias tiveram que se acostumar a visitar Amazoil apenas nos seus sonhos e nas suas lembranças. Muitos fizeram canções e poemas para ensinar aos mais jovens como era maravilhosa a floresta da ilha, e para que nunca esquecessem o que haviam recebido e aprendido com as visitas àquele lugar.

As pessoas com tochas e machados vieram algumas vezes, mas como não encontraram a Ponte do Guardião, regressaram furiosas e decepcionadas a suas casas. Depois de um tempo elas pararam de vir. Nas aldeias, porém, as pessoas começaram a relembrar a data em que a Ponte do Guardião havia sido recolhida com uma festa que durava toda a noite. As pessoas vinham ao local na praia onde a antiga ponte tocava o solo do continente e ali cantavam e dançavam, olhando sempre para a ilha, na esperança de que um dia os Caa-porás fizessem com que as raízes das grandes Sumaúmas crescessem de novo em direção ao continente e reconstruíssem a Ponte.

Passaram muitas gerações; todas os seres humanos que um dia haviam pisado em Amazoil, já havia morrido. As pessoas só conheciam algo de lá pelas canções, pelos poemas e pela festa celebrada anualmente no lugar da antiga ponte…

Todavia, a esperança dos aldeões não foi em vão!

Numa noite de festa, para surpresa geral, enquanto os aldeões cantavam, alguns notaram que um ruído vinha do mar. Não era o barulho das ondas, pois o mar estava tranquilo naquela noite; parecia o som abafado de troncos roçando uns nos outros. A música cessou, as pessoas fizeram silêncio para ouvir aquele misterioso som que provinha dos lados de Amazoil.

O roçar foi ficando mais intenso e vibrava preenchendo o ar marinho. As pessoas olhavam a escuridão, atentas na direção de onde vinha o som, até que pouco a pouco, alguns começaram a perceber que sombras se moviam sobre as águas e notaram raízes que se enroscavam umas às outras como grossos tentáculos e cresciam com rapidez em direção à praia onde os aldeões estavam observando. As raízes tocaram o solo, se aprofundaram no chão, ainda se torceram, até se afirmaram umas às outras e o ruído cessou. Tudo isto demorou um bom tempo. Ninguém disse nada. Todos ouviam com atenção e observavam. A luz de um novo dia começou a surgir e todos puderam ver que a Ponte do Guardião havia crescido de novo e religava o continente à ilha dos Caa-porás.

Todos saltaram de alegria! As pessoas se abraçaram e cantaram e apontaram para a magnífica ponte que havia surgido de novo, após tão prolongado tempo.

-Vamos até lá! – sugeriam alguns

– Sim, boa ideia, mas não podemos esquecer o que os antigos nos ensinaram: precisamos pensar primeiro o que vamos prometer ao guardião! – diziam outros.

– Tendes razão! Com certeza haverá no portal um novo guardião que só nos deixará entrar se pudermos lhe prometer algo que não cause mal à Amazoil.

As pessoas se sentaram em pequenos grupos para confabular melhor o que cada qual poderia prometer, segundo os desejos de cada um. Uns pensavam em prometer ouvir os maravilhosos cantos dos pássaros, outros queriam ver as flores e observá-las com toda atenção; que cores teriam nesta época do ano? Outros ainda, simplesmente, prometeriam caminhar em silêncio por entre as árvores para sentir um pouco do que pulsa e vibra na floresta…

À medida em que as pessoas formulavam as promessas que fariam ao guardião, iam se encaminhando para a ponte. O primeiro grupo que chegou diante do lugar do antigo portal ficou surpreso, pois o que lá encontrou era bem diferente de tudo o que os antigos haviam contado e escrito nas canções, nos poemas e nas histórias sobre Amazoil…

Os troncos das duas grandes Sumaúmas ainda formavam o portal, mas no lugar do massivo portão de toras, havia um arco formado de galhos; e delicadas lianas pendiam do arco formando uma espécie de cortina; nesses delicados ramos cresciam flores amarelas. Diante desta cortina de flores no portal havia um jovem e pequenino Caa-porá-mirim, que era o novo Guardião do Portal.

– Visitantes, o que me prometeis como penhor para que eu vos deixe entrar em Amazoil? – perguntou o guardião-mirim.

As pessoas expressaram então ao pequeno guardião suas promessas. Esse, com um delicado gesto no ar, fez com que as lianas da cortina de flores se afastassem com suavidade e deixassem uma abertura para os visitantes passarem.

Os aldeões do continente ficaram admirados com tudo que viram na ilha, principalmente porque não havia nenhum sinal do incêndio e da destruição ocorridos no passado. Os sábios e poderosos Caa-porás haviam sanado tudo e feito com que arbustos e novas árvores crescessem no lugar da terra, outrora árida e queimada, naquele triste dia em que alguns por ambição tinham levado parte da riqueza de Amazoil em seus sacos.

A partir daquele dia foi possível aos seres humanos do continente visitar a ilha, sempre que quisessem. Necessitavam apenas prometer ao pequeno guardião algo que estivesse em harmonia com o ciclo da vida em Amazoil.

Este conto continua na próxima semana…

Renato Gomes

Conto: A Ponte do Guardião

Parte I
Amazoil era o nome do país dos Caa-porás, seres protetores da natureza, dotados de grandes poderes mágicos sobre plantas e animais. Amazoil era uma ilha, coberta com densas florestas, cujas árvores centenárias com seus enormes troncos estendiam seus galhos entrelaçando-os nas copas umas das outras, formando uma grossa cobertura de folhas que filtrava a luz do sol, criando assim um ambiente fresco, silencioso e belo onde viviam inúmeros animais. Próximo ao solo, junto às gigantescas raízes das árvores, cresciam os mais variados arbustos que floresciam alternadamente nos doze meses do ano. Em Amazoil podia-se saber a época do ano, observando a coloração das plantas que floresciam. Havia os meses das flores amarelas, das flores brancas, das flores azuis… Pelo perfume que essas flores exalavam também era possível saber a hora do dia pois, pela manhã, se sentia na floresta um aroma suave e doce que ficava mais intenso ao meio-dia; pela tarde predominavam os aromas mais intensos e cítricos e durante a noite eram os troncos das grandes árvores que desprendiam o cheiro forte e resinoso de suas madeiras. Os animais viviam em perfeita harmonia nesse lugar. Não havia predadores nem presas, todos se alimentavam das frutas e das folhas da vegetação. Os Caa-porás eram os guardiões e cuidadores do lugar. Parecia que estavam em todos os lugares, mas raramente se deixavam ver. A ilha não ficava muito distante do continente, entretanto, por mar não havia como chegar, pois a costa de Amazoil era formada por íngremes falésias e as ondas agitadas não permitiam que nenhum barco se aproxima-se sem que fosse lançado com violência contra os rochedos. 
A única forma de chegar lá era cruzar uma magnífica ponte que surgiu do entrelaçamento de grossas raízes que haviam crescido da ilha e alcançado o continente. As raízes pertenciam a duas enormes Sumaúmas, árvores mães-da-floresta, cujos troncos formavam o portal de entrada para Amazoil.  A ponte de raízes havia sido obra da magia dos Caa-porás em épocas muito antigas. Desse modo as pessoas do continente podiam cruzar a ponte e chegar a Amazoil, mas antes de cruzar o portal, se encontravam com um grande Caa-porá, vestido com uma armadura de cascas de árvore, que era o guardião do massivo portão feito de toras de madeira. Por este motivo a travessia ficou conhecida como a Ponte do Guardião. Os Caa-porás, senhores da ilha, permitiam que os seres humanos visitassem o lugar, mas precisavam atender à solicitação do guardião. O visitante que cruzava a ponte chegava diante do grande portão que permanecia sempre fechado. Era necessário bater forte. O guardião abria uma portinhola e perguntava:
– Visitante, o que me prometes como penhor, para que eu te deixe entrar em Amazoil?
O visitante, neste instante, deveria fazer uma promessa ao guardião, do contrário lhe seria vedada a entrada. A promessa consistia sempre em algo que não viesse a molestar a harmonia da vida dos seres que existiam na ilha. 
Alguns diziam:
– Eu prometo que andarei por Amazoil em silêncio para ouvir os cantos das aves.
Outros:
– Prometo que vou apreciar com toda a atenção a beleza das flores que se abrem nesta época do ano.
Havia também a possibilidade de colher folhas, frutos ou sementes das plantas, mas isto deveria também constar na promessa ao guardião:
– Eu me comprometo em utilizar qualquer folha ou fruto que recolher em Amazoil para preparar remédios que irão ajudar a curar pessoas doentes.
Era possível colher um ramalhete de flores, mas o motivo para isto devia também constar na promessa à entrada: 
– Prometo que o buquê de flores que colherei em Amazoil será para enfeitar e alegrar a sala de aula das minhas crianças!
Durante muitos séculos as pessoas tiveram livre acesso a Amazoil e aprenderam a refletir bem no motivo que as levava a visitar a ilha. Os habitantes das aldeias do continente amavam aquele lugar, pois percebiam que Amazoil preenchia suas vidas com beleza, com alegria, com as plantas medicinais que necessitavam e que cada visita ao lugar também lhes possibilitava aprender algo sobre a profunda sabedoria que os Caa-porás haviam plantado na floresta junto com as árvores.
Um dia chegou às aldeias do continente um grupo de pessoas diferentes, que carregavam pesados machados às costas. Eram brutos e desrespeitosos com as pessoas do local. Um de seus líderes perguntou onde ficava a Ponte do Guardião, pois eles também queriam ir a Amazoil. As pessoas do local lhes explicaram como eram os costumes daquele lugar e que era necessário fazer ao guardião do portal uma promessa que estivesse em harmonia com as intenções dos Caa-porás, do contrário eles não poderiam entrar em Amazoil.
O líder daquele grupo, balançando o seu pesado machado, ouviu tudo com atenção e respondeu com um sorriso irônico nos lábios:
– Nós sabemos muito bem o que vamos prometer ao guardião!
 O grupo se dirigiu à ponte; enquanto caminhavam alguns deles começaram a aceder tochas, outros agitavam seus machados no ar e emitiam urros e gritos incompreensíveis. Cruzaram a ponte e chegaram em frente ao portão; o líder do grupo o golpeou forte com o dorso de seu machado. O guardião abriu a portinhola e fez a costumeira pergunta sobre a promessa de cada um deles.
O líder respondeu em tom sarcástico:
– A promessa de todos nós é a mesma, vamos derrubar algumas árvores com nossos machados e queimar um trecho da floresta, pois ouvimos dizer que debaixo das raízes existem minerais preciosos. Nós prometemos que vamos arrancá-los do chão e encher com eles nossos sacos!
 Neste instante todos começaram a gritar e uivar ao mesmo tempo que iriam levar tudo, que queimariam tudo, que queriam ficar ricos!
Serenamente o guardião respondeu que aquela promessa ele não poderia aceitar e que por este motivo não lhes concedia entrada em Amazoil; dito isto, fechou a portinhola.
Enfurecida a turba avançou sobre o portão e o despedaçou com seus machados; lançou o Caa-porá guardião nas águas do mar e como uma boiada desenfreada invadiu a ilha.
As pessoas no continente viram quando a fumaça começou a subir aos céus em rolos escuros; puderam também notar que as copas de algumas árvores centenárias começavam a tremer e de repente tombavam. Durante toda aquela tarde o grupo derrubou árvores, queimou a mata e escavou a terra até encontrar os minerais preciosos que buscava. Os habitantes das aldeias do continente estavam muito assustados com o ocorrido e imaginavam que os Caa-porás fossem fazer alguma coisa para impedir toda aquela destruição, mas nada aconteceu… Somente quando os incendiários e cortadores de árvores viram que seus sacos estavam cheios, ficaram satisfeitos. Cruzaram a ponte de volta ao continente e retornaram ao lugar de onde haviam vindo. Enquanto o grupo retornava pelas ruas e caminhos das aldeias, alguns dos aldeões ouviram que vários deles diziam que tinha sido mais fácil do que imaginaram; melhor seria regressar no ano seguinte com um grupo ainda maior, pois com certeza obteriam muitos mais sacos repletos dos valiosos minerais!
Aquela noite foi triste para todos nas aldeias. Quem olhasse do continente em direção a Amazoil poderia ver os restos das queimadas ainda acesos, iluminando a escuridão da noite. Muitos se perguntavam:
– Por que os Caa-porás não fizeram nada?
– Como permitiram que aquele grupo fizesse tamanha destruição?
Muitas perguntas eram lançadas no ar, mas ninguém sabia respondê-las…
No dia seguinte os aldeões tiveram uma grande surpresa, pois notaram que a Ponte do Guardião havia desaparecido. Miraculosamente as duas grandes Sumaúmas que formavam o portal de entrada tinham recolhido durante a noite suas raízes, impedindo assim o acesso de qualquer pessoa a Amazoil. O povo das aldeias ficou triste, mas entendeu que os Caa-porás precisavam fazer algo para proteger a ilha e preservar o que não havia sido destruído…

Este conto continuará no próximo domingo.

 
Renato Gomes