Reflexão para o domingo, 17 de agosto de 2025

Referente à perícope do Evangelho de Lucas 9, 1-17

Imaginemos a flor do campo. O destino a enviou àquele solo, o vento trouxe a semente da qual nasceu. Ali — sem esforço calculado — cresceu, floresceu e ofereceu sua beleza a todos os que por ali passavam. Chegou ao auge de seu esplendor e, sem preocupação alguma, entregou suas sementes a um futuro que não planejou.

Quando Jesus envia os discípulos, Ele antes lhes dá poder sobre os espíritos impuros e sobre as doenças — um poder que não brota deles próprios, mas que lhes é concedido. E então lhes ordena: “Não leveis nada convosco, nem pão, nem alforje, nem dinheiro; apenas a roupa do corpo.” Podemos tentar imaginar o que significa isso: sair despojados de toda segurança, sem provisões, sem reservas, sem cálculos antecipados. Isso contrasta fortemente com nossa época, em que prevalece a chamada ‘lei de Murphy’: “se algo pode dar errado, dará.” Nossa civilização se molda sobre a prevenção, sobre o seguro, sobre o planejamento do conforto — não apenas para sobreviver, mas para viver supostamente bem.

Mas o Evangelho nos aponta noutra direção. Ele nos convida a viver com confiança total no Cristo, a confiar no guia espiritual que tudo vê, a ousar caminhar na fé em vez de no medo. O envio dos discípulos não é um apelo à imprudência, mas ao despojamento interior: não depender daquilo que acumulo, mas da força que me é dada. É claro que tomamos cuidados no dia a dia, e não precisamos abrir mão deles de forma literal. Mas Jesus nos mostra que a questão é mais profunda: trata-se da atitude do coração. Eu posso preparar o necessário, mas o essencial é manter o coração livre de prevenções, despojado de apegos, disponível para o próximo.

Todos nós, desde o nascimento, somos enviados. O destino nos conduz aos nossos irmãos e irmãs, não importa qual seja nossa ocupação ou missão. Cada encontro humano é como chegar à casa de um anfitrião: recebemos o que ali houver, sem exigências, e nossa única tarefa é anunciar o Evangelho da paz e curar a dor, a ferida, a solidão, a desesperança. Assim como a flor do campo que cresce, floresce e entrega suas sementes ao vento sem querer retê-las, somos chamados a esse despojamento: a viver confiantes, livres de pesos interiores, desapegados das seguranças que nos paralisam. Cristo nos envia, e no envio está a promessa: o que nos é necessário nos será dado.

Carlos Maranhão

Reflexão para o domingo, 10 de agosto de 2025

Referente à perícope do Evangelho de Lucas 15, 1-32

Visão de Hildegarda von Bingen, século XII

O mundo espiritual não perde de vista a sua criação, todo o Universo! Ele deve ser preservado. Não se deve medir esforços para preservá-lo, como o palco para 

ameaça a evolução do mundo, para a vida. Hoje, urge essa responsabilidade em relação ao mundo, é mesmo indispensável diante da destruição e poluição dos recursos naturais, da injustiça social, da de morte da humanidade e do planeta Terra.

O mundo espiritual se assemelha ao bom pastor na procura da ovelha perdida e à dona de casa incansável na procura da moeda perdida. Ambos não medem esforços para encontrar o que foi perdido ou o que está ameaçado, para conseguir colocá-lo em segurança. O sol também brilha todos os dias por todas as partes, apesar de todas as aberrações humanas, revitaliza a atmosfera da Terra e a natureza. Hoje, muitas pessoas avaliam se vale a pena ser feito algum esforço, se traz vantagens. A iniciativa humana vem se enfraquecendo cada vez mais, enquanto que cresce a maneira de calcular e estimar as vantagens a serem alcançadas. 

No entanto, os critérios do mundo espiritual são outros: uma grande alegria o preenche quando uma única pessoa que o negava consegue despertar novos sentidos para o mundo divino. E então, na terceira parábola, o motivo da perda não se refere mais a uma posse – seja da moeda ou da ovelha – mas a um ser vivo, ao filho que sozinho gastou toda a sua herança num país estrangeiro e lá se encontra esfomeado e ameaçado da morte.

O mais alto patrimônio do mundo espiritual é a vida e ela, por sua vez pode, ser renovada pela consciência da humanidade sobre sua origem e meta divina, sobre a origem e meta divina de todo o Universo. O filho é o portador da consciência. Ele deve reconhecer o Pai como uma fonte de vida. Não é o Pai que vai encontrar o filho perdido, que pelo seu comportamento escapou da sua mira. O filho é o que, em liberdade, se coloca a caminho do Pai e consciente de sua culpa se confessa a ele. É assim que a vida é renovada e o mundo espiritual se coloca pronto para sacrificar e não apenas para manter a sua criação no mesmo nível, mas também elevar a vida a um nível superior. 

O homem pode se tornar o portador de uma consciência espiritual, a partir da qual jorra uma nova fonte, a da vida eterna. O mundo espiritual está esperando a iniciativa humana de querer corresponder à sua origem espiritual se reunindo e colaborando com todos os seres vivos no céu e na terra num grande projeto. Um festival para formar uma nova criação, uma nova humanidade e uma nova Terra. Um festival onde, em coro, a humanidade e as hierarquias celestes entoam um novo cântico jubiloso. Para isso, temos vindo ensaiando as celebrações das festas cristãs e contamos com a colaboração de cada um!

Helena Otterspeer

Reflexão para o domingo, 03 de agosto de 2025

Referente à perícope do Evangelho de Mateus 7, 1-14

Naturalmente nós nos percebemos como centro da nossa vida. Olhamos

desse centro para o mundo. Por isso, percebemos primeiro as falhas dos

outros e não as nossas.

Mudar essa perspectiva e olhar do mundo para nós é muito mais difícil. Por

isso, temos mais dificuldades de enxergar nossos próprios erros.

A ligação com o Cristo nos ajuda a mudar essa perspectiva. Seguindo o

exemplo dele, superamos nosso egocentrismo e começamos a olhar para as

necessidades do mundo. Mudamos a perspectiva.

Isso também nos dá a possibilidade de olhar com mais clareza para nós

mesmos. Assim, pode surgir a pergunta: O que preciso transformar em

mim para transformar o mundo?

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 20 de julho de 2025

Referente à perícope do Evangelho de João 1, 35-39

No primeiro capítulo do Evangelho de João (1, 35-39) lemos o seguinte:

No dia seguinte João [Batista] estava outra vez ali, e dois dos seus discípulos estavam com ele. Vendo Jesus passar, disse João: Eis aqui o Cordeiro de Deus. Os dois discípulos ouviram-no dizer isto, e seguiram a Jesus.

E Jesus, voltando-se viu que eles o seguiam e lhes disse: Que buscais? E eles perguntaram: Rabi, onde ficas?

Ele lhes disse: Vinde, e vede. Foram, e viram onde se encontrava, e ficaram com ele aquele dia; e era já quase a hora décima.

O que fizeram os dois discípulos de João Batista? Viram, ouviram, seguiram. O que fez Jesus? Voltou-se, viu, perguntou. Os discípulos dirigem inicialmente sua atenção – seu olhar – a um acontecimento externo, algo que ocorre no mundo. A seguir, tornam-se mais introspectivos, pois ouvir, neste contexto, significa não apenas uma mera percepção auditiva, mas que o que foi ouvido, foi compreendido e que puderam refletir sobre o significado do que foi falado. A palavra de João foi ouvida por seus discípulos e reverberou em suas almas. Reverberou a tal ponto que tomaram uma decisão: eles decidiram se pôr em movimento: seguir.

Há, aqui, três momentos. A percepção atenta, a reflexão cognitiva-intuitiva e a decisão de fazer algo. Vemos muitas coisas ao longo do nosso dia, mas a maior parte do que vemos, esquecemos. Não deixa maiores impressões em nós. Entretanto, pode vir a acontecer que algo que percebemos fora nos chame a atenção. Podemos levar essa impressão para dentro de nós e começar a vivenciá-la internamente. Deixar que reverbere em nós. A partir desse “diálogo silencioso” que acontece em nossa alma, pode surgir a questão: Isso me interessa? Isso tem uma relação comigo? Ou ainda, quero que isso faça parte da minha existência?

A partir dessa experiência – que algumas vezes acontece de maneira tão rápida e espontânea! – pode nascer o impulso: a isto eu quero seguir. E neste instante iniciamos um caminho novo na vida! O movimento dos discípulos não passou despercebido a Cristo: Ele “voltou-se”! Antes mesmo de “ver” quem lhe seguia, ele voltou-se! Pareceria que o movimento (externo e interno) dos discípulos em direção a Cristo é o que provoca esse “voltar-se”, como duas forças que ao se aproximarem se atraem. Então Jesus os vê, os percebe com maior intensidade e formula a pergunta: Que buscais? O que os discípulos respondem, na verdade, não é uma resposta, mas uma nova pergunta: Onde ficas? A pergunta de Cristo os leva a formular sua própria pergunta: o que os havia colocado em movimento? Saber onde está o Cristo, onde se encontra.

Mas Cristo não fica parado, não permanece estático. Ele está sempre em movimento: Vinde… continuem em movimento! E então tudo começa de novo: …e vede!

Buscar a Cristo, significa querer caminhar com Ele, para começar a ver o mundo com novos olhares, ouvir e refletir com profundidade e tomar decisões que abram novos caminhos e que importem na vida!

Renato Gomes 

Reflexão para o domingo, 13 de julho de 2025

Referente à perícope do Evangelho de Mateus 11, 2-15

Tríptico de Hans Memling (1479) para a igreja anexa ao hospital Sint-Janhospitaal em Bruges, Bélgica. Tema: O casamento místico com o menino Jesus – segundo o sonho de Santa Catarina (à esquerda, ao pé de Maria na imagem central).

A morte de João Batista, decapitado na asa à esquerda e o desvendar do futuro no apocalipse a João Evangelista na ilha de Patmos, na asa à direita.

Atrás de Maria no centro: João Batista à esquerda e João Evangelista à direita. Ao pé de Maria à direita, Santa Bárbara que contra a vontade do pai se converteu ao cristianismo e foi batizada por João Batista em sonho.

No final de um dia ou mesmo próximo ao portal da morte, olha-se retrospectivamente para a trajetória percorrida e a pergunta aparece: o que posso colher como fruto desse  percurso respectivamente? Pode parecer diante da paisagem dos imensos desafios do destino e das crises globais que pouco se conseguiu realizar. O que diria o mundo espiritual, o que diria o Cristo ao contemplar essa trajetória, o que diria a consciência elevada do próprio ser humano?

Cristo olha, sobretudo, para as conquistas da alma – quando permeada pelas forças da ressurreição – permitindo que o ser humano possa transformar a sua natureza terrena enquanto corpo, alma e espírito e irradiar forças sanadoras para a humanidade e para a Terra. Quiçá essas conquistas pareçam insignificantes diante das sérias crises no palco dos acontecimentos. No entanto, para o mundo divino, elas têm um grande significado para o futuro.

A substância de vida e luz de Cristo na alma é levada para o sono na noite ou para a vida pós-morte respectivamente e a consolidará e fortificará para que supere os desafios, que com necessidade férrea tem que ocorrer no futuro para a espiritualização do ser humano e da Terra.

Da prisão – pouco antes de sua morte – João Batista envia seus discípulos para saber de Jesus Cristo se ele é realmente o Messias esperado. Ele recebe a resposta de que o atendimento do seu clamor de transformação se cumpriu e que o reino dos céus em Cristo e nos seus enviados discípulos já está atuando na Terra. Essa boa notícia, certamente, não modificou a situação ameaçadora de João Batista na prisão, mas o fortaleceu na hora da sentença de sua morte. Mesmo depois da morte, João Batista ainda continua colaborando com o Cristo na medida em que – com seu espírito – mantém o círculo dos discípulos coeso à sua volta. O espírito de João Batista no âmbito pós-morte com certeza se une ao espírito de Lázaro durante o seu sono de morte antes de ser despertado por Jesus Cristo para a nova vida. Lázaro ressuscitado se torna então Lázaro João, o discípulo amado e testemunha da morte da Cruz e da atuação futura do Filho do Homem, do Jesus Cristo ressuscitado, na evolução da humanidade, segundo o Apocalipse.

Como João Batista, na sua elevada consciência espiritual, coloquemo-nos à disposição da obra de Cristo. Ele nos acompanha e nos consola no árduo caminho, mas prometedor do futuro e poderá nos transformar num novo discípulo e apóstolo, como no exemplo de João Evangelista.

Helena Otterspeer

Reflexão para o domingo, 06 de julho de 2025

Referente à perícope do Evangelho de Mateus 3, 1-17

Ao observamos uma fogueira, percebemos como o fogo queima a madeira. Ao final, só

sobram as cinzas. A madeira foi transformada pelo fogo em cinzas. Como adubo, essas

cinzas têm o potencial de possibilitar uma nova vida, um novo começo.

O batismo do Espírito e do fogo passa por um processo parecido. Contudo, ele precisa

da nossa participação ativa. O que eu preciso queimar, transformar em mim? O que

precisa ser queimado para dar espaço para o novo, para possibilitar um novo começo?

Na oração e no Ato de Consagração do Homem, somos chamados a acender esse fogo.

Com ele, podemos nos transformar e nos tornar um “adubo” para o mundo,

possibilitando o novo dentro e fora de nós.

Assim, com a transformação pelo fogo interno, nós nos preparamos para receber o

batismo do Espírito.

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 15 de junho de 2025

Referente à perícope do Evangelho de João 3, 1-21

Como nascemos do Espírito?

Cristo usa a imagem do vento para falar sobre o Espírito. Não sabemos de onde o vento vem nem para onde ele vai. Mas o ouvimos.

Não sabemos de onde vem o Espírito e para onde ele vai. Podemos nos preparar para ouvi-lo. Momentos de silêncio, de reflexão e de oração nos ajudam para isso. Neles, nós nos abrimos para que o vento do Espírito possa nos encontrar.

Nesses momentos, podemos sentir a presença do Espírito. Vivenciamos isso como um acordar ou como uma nova clareza. Ela nos ajuda para as dúvidas e questões do dia a dia, mas também para as grandes perguntas do nosso destino.

Quando acordamos para as nossas tarefas de vida, para o nosso destino, é como um novo nascimento. Um nascimento do Espírito.

Julian Rögge

 Reflexão para o domingo, 8 de junho de 2025

Referente à perícope dos Atos dos Apóstolos 2, 1-12

Talvez nenhum outro momento do calendário cristão una de maneira tão profunda o passado com o futuro, a tradição com a liberdade, quanto esse dia de Pentecostes.

Nos primeiros 2000 anos da era cristã, Pentecostes foi compreendido e vivido como o mistério da descida do Espírito Santo sobre a comunidade dos discípulos. Essa comunidade estava reunida, num gesto de recolhimento e espera e, então, foi tocada por uma realidade espiritual que a transformou.

Como lemos nos Atos dos Apóstolos, “línguas como de fogo pousaram sobre cada um deles”, e falaram em muitas línguas. Mas o milagre não foi o dom das línguas, e sim a compreensão universal que se deu entre seres humanos de diferentes nações, culturas e temperamentos. Essa compreensão interior foi o primeiro gesto de um amor cósmico derramado sobre a Terra, não como sentimento vago, mas como força real. Foi o impulso da consciência moral nascendo na alma humana.

Nos dois milênios seguintes, esse Espírito foi como um fermento silencioso, gestando a dignidade do ser humano, desenvolvendo pouco a pouco o sentido da individualidade, da consciência de si e da responsabilidade moral.

Rudolf Steiner descreveu esse processo como o despertar do Eu, do verdadeiro Eu espiritual, que não é dado de fora, mas precisa ser conquistado livremente por cada alma.

Pentecostes, nesse sentido, não é um evento isolado: é um processo contínuo na história da humanidade, um Pentecostes permanente que atua como impulso moral e espiritual por detrás dos acontecimentos históricos e também dos nossos encontros humanos cotidianos.

Mas agora estamos numa encruzilhada. Vivemos tempos em que a força comunitária antiga não atende mais aos anseios humanos. Tempos em que o que chamávamos de “Igreja”, “povo”, “nação” ou “tradição” já não é mais suficiente para sustentar o sentido da vida. O Espírito já não age mais por fora, como autoridade, dogma ou norma imposta. Ele quer agir agora de dentro para fora, a partir da liberdade individual conquistada. E essa é a pergunta decisiva do nosso tempo: Como formar comunidades verdadeiras, não por convenções ou crenças herdadas, mas por livre reconhecimento espiritual entre indivíduos?

O futuro de Pentecostes são comunidades formadas por indivíduos livres, que se reúnem não por laços de sangue ou de cultura, mas por intuições comuns do bem, por ressonância moral, por ideais viventes. Essas comunidades – sejam grupos de estudo, iniciativas pedagógicas, religiosas, artísticas ou sociais – são como pequenas “igrejas pentecostais do futuro”, não no sentido institucional, mas no sentido do encontro vivo entre Eu e Eu, entre Eu e o Espírito, numa linguagem comum que não se aprende com gramáticas, mas com o coração desperto.

Nesse novo Pentecostes, cada pessoa se torna uma “língua de fogo” que, em vez de convencer, inspira; que, em vez de unificar de fora, faz nascer unidade viva de dentro. O Espírito não mais desce sobre uma massa indistinta, mas desce em cada alma como possibilidade de individualização verdadeira e, a partir disso, de comunidade consciente.

Portanto ao celebrarmos hoje Pentecostes, não olhemos apenas para trás, para o milagre de Jerusalém. Olhemos também para aquilo que pode nascer entre nós hoje.

Carlos Maranhão

 Reflexão para o domingo, 1° de junho de 2025

 Referente à perícope do Evangelho de João 16, 24-33

“Aquele que habita o lugar oculto do Altíssimo, à sombra do Onipotente repousará”. (Salmo 91,1)

Nos seus discursos de despedida (capítulos 14 a 17 do Evangelho de João), Jesus diz a seus discípulos que irá para o Pai. No dia da Ascensão, o Ressuscitado se elevou aos céus e adentrou o ser das nuvens, que o ocultaram aos olhos dos discípulos!

À medida em que ele se elevava em direção ao Pai, seu ser se tornava cada vez mais oculto no âmbito celeste.

E desde esse âmbito, desde esse lugar oculto, ele se torna o “fautor dos atos paternais”, que a partir dos céus envia sua bênção à Terra.

Algo desse gesto da ascensão aparece na frase que inicia o Salmo 91: “Aquele que habita o lugar oculto do Altíssimo…”

Ao se elevar, Cristo vai ao encontro das elevadíssimas dimensões do Pai e se torna, num primeiro momento, inacessível (oculto) para quem vive na Terra.

Então, ele começa a “repousar no Onipotente”, significa que lá, na Casa do Pai, ele se reencontra com a serenidade do Espírito, ele se compenetra dessa Paz.

Mas ao começar a habitar o “ser celeste”, é possível interagir também com o “ser terrestre”: Irradiando suas bênçãos, deixando fluir para a humanidade a Paz do Espírito!

Do mesmo modo como está expresso na palavras do Ato de Consagração: “…pleno de Paz me encontro em relação ao mundo!”

Cristo quer dar essa Paz ao mundo, a todos aqueles que querem se unir a ele.

Em cada momento de reflexão interior, em cada meditação, ocorre também uma elevação. Nós elevamos ao ser divino e podemos começar a compenetrar “o lugar oculto do Altíssimo, como nos diz o Salmo.

Esse é o lugar ao qual nós podemos nos elevar em nosso desenvolvimento interior.

Ao aprendermos a permanecer, a habitar esse lugar, começamos a vivenciar e a repousar na Paz do Espírito!

Mas tudo isso só faz sentido se conseguirmos compartilhar essa paz vivenciada no Espírito com o Ser da Terra, como Cristo que se elevou ao Ser Celeste para abençoar o Ser Terrestre.

Que as imagens que conhecemos sobre a festa da Ascensão nos sirvam de impulso a essa elevação ao Altíssimo, para que, com Cristo, possamos contribuir para trazer Paz à Terra!

Renato Gomes 

Reflexão para o domingo, 25 de maio

Referente à perícope de João 14


A lagarta é apenas um estágio preliminar da borboleta. A lagarta rasteja sobre a terra, se alimenta das folhas verdes, mas o Pai celeste a escolheu para uma forma de vida mais elevada. Quando a borboleta sai do casulo, ela abre suas asas, voa à luz do sol e se alimenta do pólen dourado das flores, as fecundando e assim colaborando para manter os laços de vida entre todas as criaturas.
Assim se dá a transformação da lagarta na borboleta: em um determinado momento a lagarta começa a se enrolar num fio que ela mesma secretou até desaparecer completamente em seu casulo. A lagarta se “enterra” em seu casulo, morre para o mundo. Por dentro, no entanto, sua substância orgânica, a substância solar continua a viver. Depois de um tempo, algo se mexe dentro do casulo, até que ele se rompe e a borboleta vai se desdobrando, se liberando…
A forma como o ser humano hoje vive e se relaciona com o meio ambiente é apenas um estado preliminar de uma existência espiritual mais elevada reservada para si pelo Pai celeste. Essa existência superior deve ser elaborada ativamente pelo próprio ser humano no seu caminho de vida. A transformação necessária é muito mais radical, mais abrangente do que no caso da borboleta, pois ela reverte na transformação não apenas de toda a humanidade, mas da Terra e de todo o mundo.
Foi assim que o espírito do Sol, o próprio Cristo entrou em Jesus, justamente no momento histórico em que a consciência individual da humanidade se desligava da condução espiritual cósmica e o ser humano, de certa forma, se encapsulava em si mesmo. O Espírito Sol entra no envoltório mortal, no “túmulo espiritual” da existência terrena. Isso acontece no batismo no Jordão quando a voz do Pai se torna audível: “Eis o meu Filho amado, nele vou me revelar”.
O Filho de Deus vai morrendo na natureza mortal de Jesus desde o batismo até a morte na cruz e o sepultamento no túmulo, para que, enfim, a transubstanciação, a ressurreição aconteça.
Na manhã de Páscoa, um terremoto vindo do interior da Terra abre o túmulo. O corpo da ressurreição se eleva sobre a terra, brilha à luz do mundo e vive conosco para sempre… Nos três anos da trajetória terrena de Jesus Cristo, do batismo à morte da cruz, o Espírito de Cristo se revela aos discípulos de várias maneiras. Ele permeia os seus corpos, suas almas e seus espíritos. Quando os discípulos são enviados por Jesus, o próprio Cristo age através deles para a salvação de todo o mundo. Os discípulos são os primeiros em que a palavra Paulo se cumpre: “Eu em Cristo, Cristo em mim”. Pela sua presença, Cristo age continuamente no círculo dos discípulos e dele para as pessoas ao redor.
No entanto, Jesus Cristo morre e ressuscita. Os 12 discípulos unidos em espírito, em comunidade, convivem 40 dias intensamente com o Redentor. Durante esse período acontece a transformação de modo que, na festa de Pentecostes, tendo despertado interiormente na vivência da verdade, os discípulos se tornam portadores do Espírito de Cristo, da sua luz, do seu amor.
Na celebração do Ato de Consagração do Homem ao longo das festas cristãs, podemos conviver com o Cristo, sentir sua presença, ouvir suas palavras, vivenciar seus atos de amor. Assim, nós nos tornamos seus discípulos. Queremos testemunhar sua atuação nos seres humanos, na natureza, no mundo. Seu espírito eterno deve também despertar em nós para a paz, para a salvação e vida do mundo.

Helena Otterspeer