Referente à perícope da primeira Carta de João 4, 16-21

João, o Evangelista escreveu na sua primeira carta estas palavras: “Nós reconhecemos o amor pelo qual Deus mora em nós e fundamentamos a nossa fé nesse amor”.
João, o Evangelista, era o Lázaro, que aspirando pela vida eterna recebera a orientação de Jesus Cristo para vender tudo o que possuía e doar aos pobres. Ele cumpriu tão ao pé da letra esta orientação, que acabou se despojando até da sua própria existência corporal e morreu. Depois de quatro dias foi ressuscitado por Jesus Cristo antes da sua Paixão. E dessa maneira, como algumas autoridades religiosas reconheceram, ele foi iniciado publicamente por Jesus Cristo e despertado da morte para uma nova vida, como acontecia durante o sono iniciático no sigilo das antigas escolas de mistério.
Ele se tornou o discípulo amado, porque nele havia uma morada para o divino. Assim lhe foram conferidos os olhos da alma, os sentidos interiores para, ao pé da Cruz, ter a força interior para testemunhar a paixão, ser testemunha nesse momento do imenso amor do Cristo pela humanidade. Ele não contemplou uma morte indigna e cruel de um homem culpado e condenado ou uma vítima das mais consideradas autoridades religiosas. Ele pôde ver, apesar da visão do corpo dilacerado, a integridade espiritual de Jesus Cristo e o amor que irradiava da cruz.
Também os outros discípulos haviam sido testemunha do amor de Jesus Cristo, quando ouviram os seus ensinamentos e presenciaram as suas curas e milagres. No entanto, só depois da ressurreição puderam compreender a grandiosidade do ato de amor de Jesus Cristo pela sua morte na cruz. No momento do aprisionamento de Jesus e da sua condenação à morte, eles não tiveram a força interior para perceber naquela hora o maior ato de amor que se passava em toda a história da Humanidade. Eles se recolheram com medo.
Reconhecer o amor pelo qual Deus mora em nós é um grande desafio hoje. O nosso destino com certeza nos levará ao momento em que teremos que dar provas do nosso amor pelos entes à nossa volta. Poucos vencem esta prova. Muitos acreditam que, pelo contrário, têm que aspirar, mesmo lutar a qualquer custo para manter sua própria integridade física, sua estabilidade financeira, seu bem-estar social, seu status quo. Sentem medo de perder estas seguranças.
Isso impede que reconheçam o amor pelo qual Deus mora em si. Só quando nos dedicamos ao bem de outros, quando aceitamos e superamos os desafios do destino, só então nos tornamos capazes de reconhecer o amor de Deus e nos preencher com ele.
Até então sigamos acolhendo as imagens e palavras do Evangelho nas celebrações do ano, para que elas enfim nos iluminem, nos permeiem, nos tornem capaz de um ato de amor. Então seremos verdadeiramente homens.
Helena Otterspeer
Nessa bela obra de Fra Angélico representando a anunciação do nascimento de Jesus, o Anjo Gabriel, em toda a sua dinâmica direcionada à Maria, nos gestos das suas mãos, nas suas palavras representadas pela escrita em ouro, manifesta a decidida intenção do mundo espiritual de revelar o processo de concepção à consciência da futura mãe. Isso implica em um completo envolvimento e ligação com o novo ser anunciado. As metas espirituais anunciadas à consciência humana são sempre um grande desafio, porque ainda devem ser a todo custo realizadas. As asas do anjo Gabriel não cabem completamente na morada de Maria; ela ainda tem que aceitar sem condições a sua missão. Ela reconhece que o seu corpo e a sua existência terrena são um instrumento para a revelação do mundo espiritual. Depois do susto e temor, ela pôde aceitar incondicionalmente com as palavras: “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.”