Reflexão para domingo, 06 de agosto de 2023

Lucas 15,11-32

Filho pródigo

Na vida moderna nos acostumamos cada vez mais a usar os aplicativos eletrônicos de localização.

Alguns destes sistemas foram desenvolvidos com objetivos militares e pouco a pouco foram entrando na vida do cidadão comum. Um deles, desenvolvido há mais 40 anos, foi denominado GPS (Global Positioning System, ou Sistema de Posicionamento Global). Através de satélites de rastreamento no espaço é possível enviar e receber sinais que possibilitam definir a localização de um determinado ponto sobre a superfície da Terra.

Muitos conhecem, entretanto, a situação em que nosso aparelho portátil de recepção de repente fica “sem sinal”. Alguns destes aparelhos mostra na tela uma imagem luminosa girando em círculos, como a indicar que está buscando o sinal perdido, mas como um cachorro que tenta morder o próprio rabo, não sai do lugar nem alcança seu objetivo. Algumas vezes a tecnologia moderna é bastante precisa ao utilizar símbolos, ícones ou pequenas imagens (na maioria dos casos simples caricaturas lúdicas) que encontram uma expressão em fenômenos da vida anímica do ser humano. Dependendo da situação em que nos encontremos, temos de repente a sensação:

– E agora? Estou perdido…

Fica aberta a pergunta se estas correspondências – entre as situações da vida humana e os ícones da moderna tecnologia – e é fruto do puro acaso ou surgiram de impulsos intuitivos – com maior ou menor grau de consciência – partir dos citados processos internos do ser humano. Deste modo é possível que eles reverberem inconscientemente em nós. No momento em que visualizamos na tela tais sinais ou símbolos, sentimos que eles nos são afins de algum modo…

Na parábola do filho pródigo ouvimos que o pai por duas vezes menciona que seu filho mais novo estava

“[…] morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado!”

 No texto original grego encontramos um verbo ἀπόλλυμι  (apóllumi) que significa destruído, totalmente desconectado com o restante da vida, separado daquilo que lhe dá sentido, completamente perdido.

O filho mais novo, por vontade própria se separa da casa do pai, segue seus próprios impulsos e desejos e quando terminam as reservas que trazia consigo, percebe que seu entorno lhe é hostil, que lhe falta o mais básico para suprir suas necessidades e que mesmo no âmbito dos impulsos meramente instintivos (descritos na imagem dos porcos que passa a cuidar) não consegue saciar sua fome.  Já não recebe mais do entorno o que lhe preenche de sentido e dignidade.  Ele mesmo reconhece que está perdido (ἀπόλλυμι). Sua conexão originária com a Casa do Pai também se perdeu…

Resta-lhe apenas “correr atrás do próprio rabo”?  Numa inútil tentativa de se conectar com algo a sua volta que lhe permita talvez, de modo passageiro, preencher por um tempo o vazio interior em que se encontra.

Modernamente, graças ao GPS, se poderia caminhar um pouco para lá ou para cá até reencontrar um novo “sinal”, de modo a redefinir o próprio posicionamento no globo e buscar uma nova “rota” a seguir. Por um tempo tais GPS’s podem ajudar e serem de grande valia certas situações.

O filho pródigo, porém, reconhece que sua situação é mais complexa, sua “desconexão” é mais radical.

Neste momento ele para de “girar em círculos” e diz a si mesmo:

– É hora de me levantar e ir ao encontro daquilo que me preenche de sentido, daquilo que me conecta de novo com a vida e com o mundo visível e invisível.

O texto de Lucas nos diz que o Pai – todo o tempo – esteve lá esperando, olhando atento o horizonte, enviando seu amoroso “sinal”, na expectativa que o filho distante o notasse e se assim o desejasse, poderia tornar a se conectar.

Nos dias de hoje, fica cada vez mais evidente, a urgência em buscar de novo a conexão com aquilo que nos ajude a nos posicionarmos de fato no mundo.

As conexões midiáticas e eletrônicas podem ser uma ajuda temporária e pontual; curiosamente também elas “sugerem” que alguns “sinais” provém do alto (dos satélites na órbita terrestre).

Sem uma conexão com um lugar de fato “mais alto” ou o “lugar de origem”, tal conexão só pode nascer como um desejo interno próprio, corremos o risco de nos perdemos (ἀπόλλυμι) e de deixarmos se perder e se destruir o melhor que o ser humano pode vir a construir no mundo.

Renato Gomes

Reflexão para domingo, 30 de julho de 2023

Referente à perícope do Evangelho de Mateus 7, 1-14

Na arte encontramos imagens e estátuas da Justiça. Várias vezes ela tem os olhos vedados e uma balança ou uma espada nas mãos.
Na nossa vida precisamos de critérios. Critérios para avaliar nosso atuar e o das outras pessoas. Necessitamos saber o que é bom e o que precisa ser melhorado. Reconhecemos esses critérios na imagem da balança e a clareza sobre eles na imagem da espada.
Como fazemos essa avaliação sem julgar? Sem julgar a nós mesmos ou ao outro?
Os olhos vedados da Justiça nos indicam um caminho. Podemos avaliar as ações e no mesmo tempo nos esforçar para não julgar. Não julgar as outras pessoas e a nós mesmos. Assim podemos enxergar atrás das sombras e erros a chama do Divino em qualquer ser humano. Com esse esforço as forças crísticas se espalharão cada vez mais no mundo.

Julian Rögge

Reflexão para domingo, 23 de julho de 2023

Referente à Marcos 8, 27-28

Poder-se-ia dizer que a pergunta de Jesus Cristo no capítulo 8 do Evangelho de Marcos “e vós que dizeis quem Eu Sou?” encontra-se na metade de todo o texto desse evangelho. Também esta pergunta é central quanto ao significado da incarnação do Filho de Deus em Jesus e também da sua morte e ressurreição para o futuro de toda a humanidade. Com esta pergunta “quem sou Eu?” Jesus Cristo confronta a alma humana com essa mesma indagação, agora consigo mesma! Assim Ele aponta para o imprescindível papel do ser humano para a evolução da  Terra e dos céus!

No ciclo anual das festas cristãs, já cultivamos através da nossa vida religiosa desde o Advento, depoiso Natal, Epifania, Paixão, Ressurreição e Ascensão a memória do mistério de como Deus se tornou homem, morreu, ressuscitou e se ligou para sempre com a Terra. Em Pentecostes as chamas do Espírito baixaram sobre a alma dos seguidores de Cristo,  concedendo-lhes um novo sentido para a verdade, para o conhecimento espiritual, para o conhecimento de si próprio! Nesse momento, poderíamos dizer que alcançamos a metade do ciclo anual das festas cristãs.

Então ouvimos, na época de João, as palavras de João Batista, quando indagado pelos fariseus e escribas quanto à sua legitimação para que pudesse batizar: “Eu não sou!”! Sim, João Batista, que como na epístola da época de João carrega em torno de seu corpo o Espírito do Pai, aponta

para o futuro, para o Filho, para um novo princípio de evolução, que germina no centro da alma humana com esta pergunta:”quem sou Eu?” A alma humana ainda muito ligada à sua condição terrena transitória e corporal não poderia sozinha resolver esse enigma sem se ligar a Jesus Cristo e entender o mistério da ressurreição.

Antes da concretização da incarnação do Filho de Deus em Jesus, a condução da evolução da humanidade acontecia diretamente a partir do mundo divino, que escolhia os profetas, concedia autoridade aos sacerdotes e escribas, anunciava a vinda do Messias, do Cristo! Depois de Pentecostes se estabelece um novo impulso para evolução: o Eu Sou na alma humana. Tudo que antes valia é desvalidado. Trata- se de despertar esta força crística interior da alma humana, sem qualquer apoio das antigas formas e tradições exteriores, a partir do futuro. O futuro do ser humano é a superação da sua condição transitória e mortal e a conquista da vida em espírito, a vida eterna. Para isso a alma humana deverá aprender a encarar no feito do Cristo o modelo ideal da sua própria evolução. Cristo se tornou homem para que o homem possa vir a se tornar um ser divino. Agora, na segunda metade do ciclo anual das festas cristãs é isso que nos orientará.

Constatamos na atualidade, que as estruturas sociais, políticas e econômicas não conseguem mais criar perspectivas para o futuro. A própria vida na Terra está ameaçada. A pergunta que está soando em cada alma humana, está recebendo uma resposta? Estamos indiferentes à urgência desse chamado? O que significa o Cristo para mim, nas minhas decisões, nos meus questionamentos, nas minhas dúvidas? Estou aceitando os desafios, as crises como chance para  o despertar as forças cristicas em mim?

Quem sou eu? Quem é o Cristo? Como eu posso hoje transformar catástrofes em novos impulsos de vida e luz? Como eu posso cada vez mais me elevar ao Espírito reconhecer a verdade, agir segundo ela, em justiça diante do mundo divino e diante da natureza? Estas são as  questões prioritárias hoje! As respostas a elas levam às verdadeiras soluções hoje procuradas!

Helena Otterspeer

Reflexão para domingo, 16 de julho de 2023

Referente ao Evangelho de Mateus 11,2-15

Nesta passagem, João, apesar de sua proclamação anterior de Jesus como o Messias, passa a demonstrar dúvidas sobre isso durante um período difícil de sua vida. Sua missão já se havia cumprido. Ele padecia agora de sua pura condição de um ser humano em sofrimento.

Em resposta, Jesus realiza milagres, curando os enfermos e confortando os aflitos. Ele encoraja os mensageiros de João a testemunhar esses sinais, assegurando-lhes que o Reino de Deus está realmente próximo. Jesus reconhece as dúvidas de João, mas fala bem dele, enfatizando seu papel de mensageiro que preparou o caminho para a a sua vinda. Depois de sua morte seu espírito continuará presente no desenrolar da missão de Cristo. Como precursor do Cristo, ele nos inspira a sermos nós precursores do “Cristo em nós”.

Em nossos tempos difíceis, é natural que tenhamos dúvidas e incertezas, assim como João. Podemos questionar o estado do mundo e nos perguntar se a esperança e a redenção estão ao nosso alcance. No entanto, o Evangelho nos oferece uma mensagem de esperança. Assim como o pôr do sol ilumina o céu com suas cores radiantes, a esperança pode iluminar nossas vidas mesmo nos momentos mais sombrios. A resposta de Jesus às dúvidas de João nos ensina que não há problema em questionar, buscar respostas e lutar com fé. Por meio de suas palavras e ações, Jesus nos assegura que Ele está presente, oferecendo consolo, cura e, por fim, redenção. Que possamos buscar consolo em saber que o Reino de Deus está ao nosso alcance e que, mesmo em nossas dúvidas, há espaço para o crescimento da fé. Confiemos que o plano de Deus para nós se desenrola, trazendo esperança, cura e a promessa de um amanhã melhor.

Carlos Maranhão 

Reflexão para o domingo, 2 de julho de 2023

Referente à perícope do Evangelho de João 3, 22-36


Uma vela consome a cera e o pavio e os transforma em luz e calor. Ela diminui para que o calor e a luz surjam no mundo.
Durante toda a nossa existência usamos as nossas forças de vida, gastando-as durante o dia. Diferente da vela, podemos recuperar uma parte delas. Com o percorrer da vida nossas forças diminuirão.

Para o que dedicamos e sacrificamos a nossa vida? Como o que gastamos as nossas forças vitais?

Diferentemente da vela, temos a escolha de trazer luz e calor ou escuridão e frio para o mundo. Precisamos tomar essa decisão em cada momento.

João Batista é um grande exemplo de como sacrificamos as nossas forças para o Cristo, preparando o seu atuar terreno. João nos mostra como é possível se colocar a serviço de algo maior; ele diminuiu para o maior crescer. João Batista nos chama para seguirmos seu exemplo e nos colocarmos a serviço das forças crísticas no mundo.

Julian Rögge

Reflexão para domingo, 25 de junho de 2023

João Batista
Leonardo da Vinci

Referente à perícope do Evangelho de João 1, 18-28

Quando uma árvore forma seus frutos, ela atinge o seu apogeu de desenvolvimento. Suas raízes, seu tronco, suas flores e suas folhas, todos interagiram para que enfim o fruto amadurecesse. Esse fruto é uma dádiva de vida, da árvore para outros seres vivos, para a Terra! O fruto não se define pelo que alcançou quando maduro, mas pelo que significa para a vida dos reinos da natureza, da humanidade e da Terra. O que se formou desde as amplidões solares e desde a atmosfera e ao longo do ciclo anual de tempo e que convergiu para um centro para um ponto, que então podemos ver no interior do fruto, na semente, encontra o seu sentido novamente na ampla periferia, na vida! Para isso, tem que se doar completamente.

João Batista pode ser visto como o representante daquilo de mais elevado que já tinha sido alcançado pela humanidade até a sua época. Poderíamos dizer que nele brilha a imagem do homem à semelhança de Deus, como nos primórdios da criação divina. Quando então é questionado sobre a sua própria individualidade, ele responde repetidamente: “Eu não sou…”! A princípio esta resposta nos desconcerta, não compreendemos, sobretudo sabendo que, segundo o próprio Evangelho, nele reapareceu o espírito de Elias, como havia sido profetizado para antes da vinda do Messias.

Das amplidões celestes, pela atuação e guia dos seres angelicais se formou o ser humano ao longo dos consecutivos ciclos solares zodiacais, passando pelas diferentes épocas culturais da antiguidade, até o momento em que no interior da alma humana se torna eminente o despertar do Eu Sou Divino. O ser humano foi formado em seu corpo à imagem de Deus e passo a passo foi conquistando a sua consciência espiritual, como testemunha da luz e vida divina em toda a criação. Esta consciência alcançada num ponto quase imperceptível em todo o Universo, dentro da alma humana, não se define por si mesma, mas é como a chave, a porta para um novo atuar em comunhão com os seres divinos, uma atuação cósmica universal. João não nega mais, e afirma, sim, que batiza nas águas do Jordão, preparando para o batismo que no futuro viria a ser feito em Espírito pela força do Cristo na alma, pela força do Eu Sou Divino.

Como na imagem de Leonardo da Vinci acima, pressentimos que a força do Eu Sou, que sutilmente emerge da alma humana, não aponta para si mesma, mas para a força primordial do Verbo divino, para a sua Luz e Vida. Assim vai se fortalecendo o impulso férreo na alma humana de querer atuar para que toda a criação possa ser consagrada ao divino e assim seja revelado o sentido de toda a evolução: que do coração humano venha a irradiar o amor universal, assim com ele foi irradiado no momento da morte na cruz. Amor universal, à disposição incondicional de querer atuar para o bem, segundo a vontade divina!

Helena Otterspeer

Reflexão para Domingo, 18 de junho de 2023

Referente ao Evangelho de João 4:1-26.

Nesses tempos difíceis que estamos vivendo nos ajuda contemplar, por exemplo, um lago sereno cercado por árvores e montanhas verdejantes. Esse cenário estimula a tranquilidade e a paz que buscamos. Mas ainda que a beleza e a pureza dessas águas possam como imagem nos estimular, o que pode aplacar nossa sede de paz é uma outra água: a água viva que Cristo nos oferece.

O encontro de Jesus com a mulher samaritana, nessa passagem do Evangelho de João, nos oferece lições valiosas para nós que enfrentamos os desafios de nossas próprias vidas. Naquela época em que samaritanos e judeus tinham uma história de tensão e preconceito, Jesus quebrou as normas sociais, conversando com a mulher, oferecendo-lhe o dom da água viva. Essa é a água que traz vida eterna, uma água que sacia a sede de nossas almas. Essa água viva representa o sustento espiritual e a realização que somente Deus pode fornecer.

Assim como vemos o lago tranquilo em nossa imagem, Jesus nos convida a experimentar a paz e esperança em meio às dificuldades. Em resposta, a mulher expressa seu desejo por esta água viva, esperando saciar sua sede espiritual para sempre. Jesus então revela seu passado, reconhecendo que ela buscou satisfação em relacionamentos que a deixaram vazia. Ele a convida a encontrar a verdadeira realização em um relacionamento com Deus. À medida que a conversa se aprofunda, a mulher traz à tona o debate de longa data sobre o local adequado para o culto. Jesus explica que a verdadeira adoração não se dá em um local específico, mas acontece em espírito e verdade no silêncio interior.

Nossa anseio é o de estabelecer uma conexão genuína com Deus, enraizada na honestidade e sinceridade. Assim como a mulher enfrentava desafios e buscava realização, nós também enfrentamos tempos difíceis e ansiamos por essa mesma paz, quase duvidando que isso seja possível diante do caos ao redor. Mas a água viva é encontrada nesse local interior de oração, a despeito do que ocorre exteriormente. A mulher samaritana se permitiu ser vulnerável diante de Jesus, e Ele a encontrou onde ela estava.

Em tempos difíceis, sejamos abertos e honestos com Deus, sabendo que Ele está pronto para nos abraçar com amor e compreensão, onde quer que estejamos. Ao contemplarmos a imagem da natureza e o poderoso encontro no poço, somos lembrados de que, mesmo em meio a tempos difíceis, Jesus nos oferece água viva, paz e esperança.

Abracemos a vulnerabilidade, busquemos a verdadeira realização e adoremos a Deus do fundo de nossos corações. Que a água viva flua dentro de nós e nos sustente nas tempestades da vida. 

Carlos Maranhão 

Reflexão para o domingo, 11 de junho de 2023

Referente à perícope do Evangelho de João 17, 6-11

“Revelei teu nome aos seres humanos que do mundo me deste.

Eles eram teus e tu os deste a mim. Eles guardaram tua palavra.”

Existem diferentes acepções do verbo guardar:

Podemos guardar as palavras na memória. Sempre que necessitarmos, poderemos relembrá-las e repeti-las. Aí elas estarão à disposição sempre que as trouxermos à consciência.

Podemos também guardar no sentido de observar a palavra, cumprir ou realizar a intenção que ela contém. Aqui a palavra é guardada, portanto, no âmbito da vontade e motiva a ação. Esta acepção se aplica em geral aos mandamentos ou aos princípios religiosos, que norteiam nossa conduta ética na vida.

Podemos ainda guardar a palavra no coração. Aqui surge um matiz de acolhimento e de cuidado, de modo que aquilo que for ali guardado, permanecerá vivo, não apenas como conteúdo cognitivo na memória ou impulso volitivo em nosso atuar no mundo, mas principalmente preservará sua força original.

Quando guardamos certas palavras e ainda ecoa em nós a sua sonoridade original, ainda reverbera em nós o calor das emoções que tais palavras continham ou ainda somos capazes de ouvir o timbre e a qualidade da voz com que foram pronunciaram – pois tais palavras, via de regra, saíram da boca de uma pessoa importante em nossas vidas -, quando isto acontece, significa que guardamos estas palavras no coração.

Os pastores na noite de Natal visitaram o menino Jesus e contaram com grande alegria a mensagem que ouviram dos anjos. O Evangelista Lucas descreve que Maria guardava estas palavras e as “acariciava” em seu coração.

A Boa-Nova de Jesus Cristo – seu Testamento à humanidade – são suas palavras.

Palavra que recebeu do Pai e a deu ao ser humano.

Não está mal que as aprendamos de memória, só não deveríamos citá-las de maneira mecanicista ou esvaziadas de sentido.

Também é louvável apreender de Suas Palavras, impulsos para pôr em prática na vida, contudo não deveríamos enrijecê-las e transformá-las em dogmas que seguimos como autômatos.

A Palavra da Boa-Nova precisa de uma mente consciente e de mãos generosas plenas de boa vontade, mas precisa fundamentalmente de um coração aberto, capaz de abrigá-la, acolhê-la e de cuidar para que ela se mantenha viva.

Somente assim a Palavra Divina – o Verbo Divino ou o Logos, como os gregos o chamaram – encontra seu devido lugar no ser humano, e pode ecoar, como no princípio, pelos sucessivos ciclos dos tempos.

Renato Gomes

Reflexão para o domingo, 4 de junho de 2023

Referente à perícope do Evangelho de João 3, 1-17

Pelo processo natural não podemos nascer de novo durante uma vida terrena. Nascemos, crescemos e faleceremos. Isso é o curso natural da vida.

Podemos nascer de novo? Podemos nascer do alto? Nessas duas formas a fala de Cristo para Nicodemos poderia ser traduzida.

Para essa questão precisamos olhar para os processos da nossa alma e da nossa individualidade. Na nossa vida encontramos momentos de grandes crises, onde não sabemos mais como continuar e ir em frente, onde aparentemente não há um caminho para o futuro. Neles, nós nos sentimos impotentes e sem força para ir em frente. Chegamos a uma vivência de morte.

Ao chegar nesse fundo do poço, uma ajuda inesperada nos surpreenderá. Ela pode vir de outra pessoa ou do mundo ao nosso redor. De repente, a situação que aparentemente não tinha saída, começa a mudar. Começamos a enxergar um novo caminho. Assim nós nos sentimos renascidos. Podemos descobrir atrás dessa ajuda o atuar do mundo espiritual. Pouco a pouco ganharemos confiança no seu atuar em toda nossa vida. Reconheceremos cada vez mais o atuar dos céus na terra e assim nascemos de novo, do alto, pelo Espírito.

Julian Rögge

Reflexão para domingo, 28 de maio de 2023

Reflexão para domingo, 28 de maio de 2023

Referente à perícope do Evangelho de João 14, 23-31

Retábulo dos 12 apóstolos
Altar lateral da igreja do hospital do Espírito Santo em Nuremberg.
Oficina de Wolfgang- 1448/49

Esse retábulo era propriedade de uma fundação particular e foi adquirido pelo Museu Kolumba da diocese de Colônia, na Alemanha. Nessa ocasião ainda não se conhecia o seu lugar de origem. Pesquisas feitas por profissionais do museu concluíram que se tratava de um retábulo encomendado por um mecenas do Hospital do Espírito Santo para uma capela lateral da igreja anexa a esse hospital. Nessa capela lateral este mecenas foi sepultado com sua família.

A sequência iconográfica é bem especial. No meio, o acontecimento de Pentecostes, com Maria no centro. A descrição desse acontecimento, segundo o Ato dos Apóstolos, não menciona Maria. No entanto, Maria aparece tradicionalmente assim em muitas dessas imagens. Nesse retábulo especialmente aparece Maria também em três das outras quatro imagens laterais. As quatro imagens laterais representam a Anunciação do anjo Gabriel à Maria, o nascimento do menino Jesus no pobre estábulo, a ressurreição de Jesus Cristo e a morte de Maria segundo a lenda. Naturalmente levanta-se a questão de como se relacionam estas imagens umas com as outras e qual a mensagem do retábulo nessa igreja, que era diretamente ligada ao hospital. Vamos fazer uma tentativa nesse sentido e descobrir qual o significado e papel da alma humana para o desenvolvimento do ser humano e do mundo.

Seja a alma humana na sua relação com o feito do Cristo o tema principal desse retábulo. A alma vive alternadamente no mundo suprassensível em comunhão com outras almas e com os seres espirituais e no mundo sensível com os reinos da natureza e toda a humanidade. Ela vive entre espíritos na vida pós-morte e pré-natal, e incarnada num corpo na vida terrena em meio da natureza. Nesse ritmo alternado, nessa evolução rítmica, o mundo, o Cosmo, o ser humano vai se transformando.

De um lado temos os seres divinos que preparam e anunciam a vinda de uma alma individual para a Terra, do outro lado a Terra empobrecida de valores e força espiritual, dependendo sempre de uma renovação vinda de cima.

Nesse caminho alternado vai se formando um novo ser espiritual, o Filho do Homem. Este ser nasce na Terra quando Jesus Cristo se eleva do túmulo no dia da Páscoa. A partir daí o palco da atuação das forças divinas formadoras e renovadoras passa a ser a Terra, pois a força primordial do Logos se ligou a Jesus Cristo e permanece ligada à Terra através da alma humana. Em Pentecostes o espírito de Cristo consagra a alma humana como o germe de um novo mundo.

Em Pentecostes a alma humana conquista a consciência do significado do feito do Cristo para si mesmo e para toda a evolução futura. Esse acontecimento tem o potencial para transformar tanto os destinos individuais do ser humano, como dos reinos da natureza, de todo o planeta e de todo o Cosmo. É uma vivência no âmbito da consciência, como o acender de uma nova luz que concede à alma humana uma nova visão, um novo sentido.

Essa vem a ser uma vivência íntima da própria identidade, do Eu Sou e ao mesmo tempo de uma unidade, uma comunidade com todos os seres humanos e todos os seres vivos. Esse novo sentido preenche a alma humana de um amor profundo pela obra divina, pela obra do Pai e do Cristo. No seu processo de espiritualização a alma humana está intrinsecamente ligada com a evolução de todo o Universo, desde o âmbito atômico até o âmbito cósmico das galáxias.

Com esta única e ao mesmo tempo significativa vivência, a alma humana se torna equipada para deixar esse lugar, a Terra, seja pelo portal da morte, seja no final da evolução planetária da Terra.

De fato, nas costas desse retábulo foi pintado o juízo final com a seleção das almas que vão poder ser acolhidas pelo mundo divino no final dos tempos.

Sim, a alma humana deve estar consciente de que sua vida terrena tem um importante propósito, não só para si mesma, mas para todo o Universo. Na hora da morte ela já deve estar preparada para ser acolhida na esfera da vida de Cristo (na última imagem lateral, a alma de Maria é representada no mundo pós-morte como uma criança no colo de Cristo). Também num âmbito menor, no ritmo diário de sono e vigília, a alma humana antes do adormecer não deve esquecer de levar o “pão de cada dia” para poder participar da comunhão com os anjos e seres divinos que nos convidam a cada noite a tecer o vir a ser do novo dia.

A celebração de Pentecostes, esse ínfimo instante no ritmo anual, pode nos sensibilizar para criar esse instante também no íntimo da alma. Na celebração cúltica do Ato de Consagração do Homem criamos este instante. O instante em que conscientemente podemos perceber aquele que é o alfa e o ômega, o princípio e a meta final, que atua agora e sempre, que confere o sentido da minha própria existência, de mim, do meu Eu, e ao mesmo tempo o sentido da Terra e do Universo! Nos cabe, então, na vida continuar esta celebração como na imagem central do retábulo!

Helena Otterspeer