Reflexão para o domingo, 1° de março

Referente à perícope do Evangelho de Mateus 17, 1-13

Através da oração e da celebração dos sacramentos, subimos a montanha até os
céus. Chegamos até a presença dos seres espirituais. Vivenciamos que é um bom lugar
para estar. Talvez queiramos ficar, erguer a nossa tenda lá.
Cristo volta depois da Transfiguração para a Terra. Ele nos mostra que durante
a vida terrena temos a responsabilidade de descer novamente da montanha. Ele vai à
nossa frente nesse caminho. Temos, como ele, a tarefa de levar as forças que recebemos
na montanha, nesses momentos especiais, para a nossa vida e o nosso trabalho terreno.
Pouco a pouco penetramos a Terra com as forças dos céus. Assim a
transformamos.
Essa transformação, através das forças celestiais, é um caminho longo e árduo. Mas
nele, podemos nos sentir acompanhados pelo Cristo e pelos seres espirituais.

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 22 de fevereiro

Referente à perícope do Evangelho de Mateus 4, 1-11


Consideremos uma árvore solitária em uma paisagem ressecada pelo sol. Aos olhos do mundo, ela é apenas tronco e galhos retorcidos. Sua sobrevivência, no entanto, não é obra do acaso, mas resultado de uma busca silenciosa. Suas raízes precisam perfurar a terra árida até encontrarem as águas profundas e invisíveis. Se ela se limitar à superfície, murchará. Assim somos nós em nossos tempos. Vivemos em um deserto da alma, cercados por uma aridez de sentido, onde o excesso de estímulos externos esconde um vazio interno devastador. Se nossa existência se nutre apenas do que é visível e imediato, secamos por dentro. Nossa verdadeira vida depende do que nos alimenta no invisível.
As tentações de Cristo no deserto não são fatos isolados na história, mas percorrem a humanidade em suas batalhas para resgatar sua condição essencialmente espiritual. A primeira tentação nasce da fome, não apenas física, mas da nossa sede de segurança e controle. Somos tentados a acreditar que a vida se resume a “transformar pedras em pão”, vivendo em uma ansiedade crônica para garantir o sustento e o status. Cristo nos adverte que o pão alimenta o corpo, mas apenas a palavra de Deus sustenta nosso verdadeiro ser.
Nossa vida profunda não emerge do esforço braçal, mas da conexão com a fonte primordial do Espírito. Quando a incerteza do deserto aperta, queremos garantias mágicas. Desejamos que Deus (ou o destino) nos dê um sinal espetacular antes mesmo de darmos o passo de fé. No entanto, o “Eu verdadeiro” não exige espetáculos. Ele habita no silêncio e caminha com humildade, confiando no sustento invisível sem tentar forçar a mão do Sagrado.
Por fim, enfrentamos a ambição. A promessa de influência e sucesso nos convida a curvar a alma diante dos ídolos do mundo. Mas a resposta é absoluta: apenas ao que é Eterno devemos adorar. Nada que seja passageiro pode ocupar o centro do nosso altar interior.
A fome, o medo e a ambição continuam a nos cercar em nosso deserto cotidiano. Contudo, o caminho já foi trilhado. Vencer essas tentações é despir-se das máscaras do ego para encontrar o espírito que habita em nós. Ao permanecermos firmes e enraizados profundamente no que é essencial, deixamos de ser reféns das circunstâncias. Não somos mais árvores secas à beira do caminho, mas seres alimentados pela água viva que corre por baixo da areia quente do tempo.

Carlos Maranhão

Reflexão para o domingo, 15 de fevereiro

Referente à perícope do Evangelho de Lucas 18, 18-34

“Que devo fazer para alcançar a vida eterna?” – pergunta o jovem rico.
Uma pergunta feita a partir de um olhar para o futuro. O que se perguntaria um jovem nos dias de hoje? Talvez: “Que devo fazer para assegurar-me um futuro tranquilo?”
A pergunta em relação ao futuro nos ocupa a todos, jovens ou velhos, pais ou filhos. O nosso futuro e o de nossos descendentes nos preocupam bastante.
Há, entretanto, tantas ofertas de seguros: de vida, de saúde (ou de doenças), de automóvel, contra incêndios, contra roubo… Todos eles se baseiam no princípio de acumulação: como garantir que meu patrimônio – a casa, o carro, os bens adquiridos – permaneçam, mesmo que aconteçam desastres naturais ou acidentais, ou que venham a ser roubados ou destruídos. Se temos algum tipo de apólice de seguro, estaremos garantindo para o futuro que o que acumulamos não se perca.
Com a saúde não é diferente, pois se contratamos algum tipo de seguro de saúde vamos acumulando um capital com as cotas mensais que pagamos, para o dia em que precisarmos, esse valor “acumulado” nos permita afrontar os altos custos de remédios ou internações em decorrência de algum problema de saúde.
Também com os chamados “seguros de vida”, posto que o que for acumulado, se reverterá para aos familiares ou beneficiários que tenhamos elegido.
Acumular é a ideia central que, no sistema de social em que nos encontramos, rege a forma de sentir e de pensar na modernidade. Se queremos alguma garantia para algo no futuro, temos que começar hoje a acumular!
A resposta de Cristo é, entretanto, bem diferente: “Vende tudo o que tens e dá-o aos que necessitam!”
Aqui aparece o gesto oposto: vender, dar, se desfazer, se desvincular do que se possui, em lugar de acumular mais ainda. Pode parecer um paradoxo! Contudo sabemos que não estamos tratando aqui de da riqueza medida em bens materiais, mas de outra qualidade! Na natureza se criamos uma barragem num curso d’água, a água represada se acumula, forma um tanque ou um lago. (Sabemos que não é possível represá-la por completo e por isso sempre há um lugar onde ela continua a fluir.) É nítida, porém, a diferença entre a água fresca e cristalina de um riacho que desce pura das montanhas, e a água represada em algum dique artificial. Aqui se vê o essencial: na natureza viva, o que se represa, o que se estanca e se acumula, perde em vitalidade. E se, por algum motivo, certa quantidade de água ficar totalmente represada sem qualquer renovação, terminará formando um local pantanoso e morto!
A água represada é uma expressão exterior do que acontece com o fluir das forças de vida. Se forem estancadas elas não aumentarão, ao contrário, perderão a capacidade de fomentar a vida. Também em nosso corpo. Se impedirmos o fluxo do sangue e dos líquidos de um membro, este gangrena e morre. Só há vida num membro se ele permanece unido no fluxo vital que flui e permeia todo o organismo.
Os elementos materiais podem ser acumulados, guardados em cofres; eles se preservam aí, ainda que talvez se empoeirem, percam um pouco o brilho e envelheçam pouco a pouco. A vida, entretanto, não se deixa represar ou acumular, ela permanece e gera nova vida somente se permitirmos que flua. Assim como a recebemos, deixamos ela ir-se, pois somente desse modo nos matemos no ciclo da vida.
Eis a proposta que Cristo faz àquele jovem. Deixa ir, deixa fluir através de ti, a vida, a cada dia, hoje, sempre. Assim se chega à vida eterna, aquela que flui initerruptamente. Portanto, vem, segue-me e mantém-te em movimento, “pois Eu vim para que tenham vida, que a tenham em abundância!” (João 10,10)

Renato Gomes
Pastor da Comunidade de Cristãos em Campinas

Reflexão para o domingo, 8 de fevereiro

Referente à perícope do Evangelho de Mateus 20, 1-16

No Evangelho Mateus 20, lemos que, certo dia, o proprietário de uma vinha contratou alguns trabalhadores logo pela manhã; outros, mais tarde, e os últimos contratados trabalharam somente uma única hora nesse dia. Na hora do pagamento, os últimos contratados receberam o pagamento primeiro e ganharam o mesmo valor dos que trabalharam o dia inteiro: um denário. Aqueles que trabalharam mais horas ficaram revoltados com o que consideraram ser uma injustiça.
Qual seria o sentido desta parábola? Seria uma sugestão de novas leis trabalhistas e salariais?
Para entender melhor esta parábola, precisamos levar em conta o seu contexto e a quem era dirigida. No capítulo anterior (Mateus 19), um jovem rico perguntou a Jesus como se pode alcançar a vida eterna. Em resumo, a resposta é que ele deveria vender todos os seus bens. Ao ouvir essa resposta, os discípulos que testemunharam a conversa se assustaram e Pedro perguntou qual seria, então, a recompensa deles, já que os discípulos largaram tudo para seguir Jesus. Jesus prometeu que futuramente, na sua glória, todos os que abandonarem os seus bens em seu nome serão ricamente recompensados, mas acrescentou que muitos primeiros serão últimos e os últimos, primeiros. Logo em seguida, ele contou a parábola dos trabalhadores na vinha (Mateus 20), iniciando com:
“Porque o reino dos céus é semelhante a um proprietário, que sai de manhã para contratar os trabalhadores para a sua vinha (…)”.
E a parábola termina com a mesma frase (exceto que a ordem está invertida) do final de Mateus 19: Assim os últimos serão os primeiros e os primeiros, os últimos.
Ao se dirigir aos discípulos com esta parábola, Jesus não introduziu novas regras trabalhistas, mas falou do reino dos céus, em que a justiça divina é diferente da justiça humana. As leis da proporcionalidade reinam na vida terrestre, enquanto no reino dos céus, vigoram a graça e a bondade. Não é por mérito que se entra no reino dos céus. É preciso se empenhar, como os trabalhadores na vinha, mas a graça divina é plena e igual para todos os que se empenharem.

Friedhelm Zimpel

Reflexão para o domingo, 1° de fevereiro

Referente à perícope do Evangelho de Mateus 8, 1-13


A cura do servo do centurião romano:
No dia 27 de janeiro na Alemanha, data da libertação do campo de concentração de Auschwitz em 1945, mencionou-se muitas vezes nos discursos em memória do holocausto da 2ª Guerra Mundial, o primeiro artigo da Constituição Alemã formulada em 1948, três anos depois da guerra: “A dignidade humana é inviolável“.
Com esse artigo, estava ligada a esperança de que nunca mais pudesse acontecer uma tal tragédia como a da 2ª Guerra, com mais de 60 milhões de mortos, dos quais mais de 6 milhões foram vítimas do holocausto.
Diante dos atuais inúmeros conflitos, violências e injustiças entre os povos, essas nobres palavras soam vazias para muitas pessoas. O que fazer para que a dignidade de qualquer ser humano seja reconhecida, preservada e defendida?
Nos tempos antigos, sabemos que eram os reis, sábios e sacerdotes a quem numa cerimônia era conferida pelo mundo espiritual a dignidade para poder exercer suas funções. O manto e a coroa eram, por exemplo, os sinais desta dignidade necessária para conduzir os povos. A coroa expressava a ligação do rei com o mundo divino, a fonte do seu poder. O manto, a consciência da sua responsabilidade e ligação com o seu povo, como seu guia para o bem. Essas qualidades ele conquistava pela iniciação nas antigas escolas de mistério. Pela iniciação, ele formava sentidos superiores para perceber o mundo divino e com isso conquistar a capacidade de reger, de curar, de evoluir para o bem de toda a humanidade.
Hoje, a iniciação pelos métodos das antigas escolas de mistério não mais é possível. Entretanto, continua sendo necessária a ligação com o mundo divino de onde vem a vida, a luz, o calor, enfim, a paz para toda a humanidade e para a Terra.
O centurião romano que procurou Jesus Cristo, representava a cultura romana da época voltada para os grandes frutos exteriores da civilização, dirigidos sobretudo para o bem-estar e segurança física e conquistados por uma personalidade voltada sobretudo para poderes e direitos do cidadão. No entanto, esse centurião ainda sabia que o ser humano não é apenas um cidadão da Terra, mas sobretudo um cidadão no mundo espiritual.
O nome de Jesus significa “o que cura”, “o que salva”. O centurião reconheceu em Jesus, que havia recebido o espírito de Cristo no batismo, um representante do mundo divino. Assim como ele, como centurião, desfrutava de sua autoridade terrena na sua casa, ele acreditava inabalavelmente na autoridade espiritual de Jesus. Ele diz: “Não sou digno que entres na minha casa”. Ele sabia que a sua casa, a sua comunidade de vida estava ameaçada para o futuro, o seu jovem servo estava muito doente. Seus elos com o mundo divino estavam fracos. O reconhecimento da sua indignidade diante do mundo divino o torna apto para receber, para acolher a palavra divina proferida por Jesus.
Hoje, este é o desafio: em humildade, como ser humano, estar consciente da própria indignidade diante do mundo divino e ir à procura do Cristo para conquistar uma nova consciência que abrange a realidade espiritual no Eu Sou, isto é, conquistar a própria inabalável dignidade pelo despertar da substância divina em si mesmo. O mundo espiritual não se revelará mais no interior das escolas de mistério, mas no interior da alma humana que se tornará madura, como o curado jovem servo, para enfrentar os desafios do destino, para fazer as escolhas corretas para o bem de todos.


Helena Otterspeer

Reflexão para o domingo, 25 de janeiro

Referente à perícope do Evangelho de João 2, 1-11

No Evangelho da semana, observamos o encontro entre o Cristo Jesus e sua mãe. No Cristo vive a pergunta sobre o que está atuando entre eles. O que vai surgir desse encontro? Vemos que ele possibilita o início dos sinais do Cristo.
Estamos atentos aos nossos encontros? O que quer surgir deles? Para a nossa atuação no mundo, precisamos do encontro com o outro. Sem as pessoas ao nosso redor, nossas possibilidades estarão muito limitadas.
Cada encontro traz em si a possibilidade de que forças espirituais se manifestem através dele, de que o Cristo esteja presente. Nesse encontro entre o mundo espiritual, os seres humanos e cada um de nós, podemos trazer algo novo para o mundo.

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 4 de janeiro

Referente à perícope da primeira Carta de João 4, 16-21

João, o Evangelista escreveu na sua primeira carta estas palavras: “Nós reconhecemos o amor pelo qual Deus mora em nós e fundamentamos a nossa fé nesse amor”.
João, o Evangelista, era o Lázaro, que aspirando pela vida eterna recebera a orientação de Jesus Cristo para vender tudo o que possuía e doar aos pobres. Ele cumpriu tão ao pé da letra esta orientação, que acabou se despojando até da sua própria existência corporal e morreu. Depois de quatro dias foi ressuscitado por Jesus Cristo antes da sua Paixão. E dessa maneira, como algumas autoridades religiosas reconheceram, ele foi iniciado publicamente por Jesus Cristo e despertado da morte para uma nova vida, como acontecia durante o sono iniciático no sigilo das antigas escolas de mistério.
Ele se tornou o discípulo amado, porque nele havia uma morada para o divino. Assim lhe foram conferidos os olhos da alma, os sentidos interiores para, ao pé da Cruz, ter a força interior para testemunhar a paixão, ser testemunha nesse momento do imenso amor do Cristo pela humanidade. Ele não contemplou uma morte indigna e cruel de um homem culpado e condenado ou uma vítima das mais consideradas autoridades religiosas. Ele pôde ver, apesar da visão do corpo dilacerado, a integridade espiritual de Jesus Cristo e o amor que irradiava da cruz.
Também os outros discípulos haviam sido testemunha do amor de Jesus Cristo, quando ouviram os seus ensinamentos e presenciaram as suas curas e milagres. No entanto, só depois da ressurreição puderam compreender a grandiosidade do ato de amor de Jesus Cristo pela sua morte na cruz. No momento do aprisionamento de Jesus e da sua condenação à morte, eles não tiveram a força interior para perceber naquela hora o maior ato de amor que se passava em toda a história da Humanidade. Eles se recolheram com medo.
Reconhecer o amor pelo qual Deus mora em nós é um grande desafio hoje. O nosso destino com certeza nos levará ao momento em que teremos que dar provas do nosso amor pelos entes à nossa volta. Poucos vencem esta prova. Muitos acreditam que, pelo contrário, têm que aspirar, mesmo lutar a qualquer custo para manter sua própria integridade física, sua estabilidade financeira, seu bem-estar social, seu status quo. Sentem medo de perder estas seguranças.
Isso impede que reconheçam o amor pelo qual Deus mora em si. Só quando nos dedicamos ao bem de outros, quando aceitamos e superamos os desafios do destino, só então nos tornamos capazes de reconhecer o amor de Deus e nos preencher com ele.
Até então sigamos acolhendo as imagens e palavras do Evangelho nas celebrações do ano, para que elas enfim nos iluminem, nos permeiem, nos tornem capaz de um ato de amor. Então seremos verdadeiramente homens.

Helena Otterspeer

Reflexão para o domingo, 28 de dezembro

Referente à perícope de 1 João 4, 7-12

Neste tempo luminoso entre o Natal e a Epifania, quando no hemisfério Sul vivenciamos dias longos, claros, cheios de vida, somos convidados a deixar que essa luz não fique apenas fora, mas encontre espaço dentro de nós, na forma do amor de que fala João.

“Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus.”
Assim começa o apelo de João. Ele não o coloca como um mandamento de obediência, mas como um convite a entrar num processo vivo. Ele não nos pede que produzamos o amor por esforço próprio. Ele nos lembra que o amor vem de Deus. Isso muda tudo, pois amar não é cumprir um ideal elevado que está sempre além de nós, mas aprender a acolher algo que já nos precede, que já nos foi dado.

Por isso, o caminho do amor começa, paradoxalmente, por um gesto interior muito humilde: permanecer. Permanecer na verdade de quem somos, com nossas limitações, nossas feridas, nossa distância do ideal. Só quem aprende a habitar a própria realidade com honestidade pode, pouco a pouco, abrir espaço para que o amor de Deus se torne ativo. Se o amor se manifesta como presença, então ele não pode ser produzido como uma técnica nem alcançado por acumulação de esforço. Nesse sentido, amar é muito mais um desaprender do que um aprender. Ou, talvez melhor dizendo, é um aprender a retirar-se.

Por isso, o caminho não é perguntar: “Como posso amar mais?”, mas algo mais incômodo e mais honesto: “O que em mim impede que o amor se manifeste?” Talvez seja esse o chamado para nosso tempo, que fala tanto de amor e vive tão pouco dele: não um ideal mais alto, mas um coração mais livre de obstáculos.

Quando nos amamos uns aos outros — diz João — Deus permanece em nós. E onde Ele permanece, o amor deixa de ser discurso e começa, silenciosamente, a tornar-se presença.

Carlos Maranhão

Reflexão para o domingo, 21 de dezembro

Referente à perícope da Primeira Carta aos Tessalonicenses 4, 13-18

A epístola do Advento nos fala do que se “torna audível no fundo da alma”. Esta época do ano nos estimula a ouvir, a praticar uma escuta atenta, uma escuta que se entrega ao silêncio e busca “pressentir”, que busca desenvolver um ouvir tão aguçado que pode vir a perceber a palavra indizível.
Aqui tocamos algo do mistério do Logos – o Verbo Divino –, que sussurra aos ouvidos do coração humano. Sussurra a palavra futura que reverbera no presente.
Na carta aos tessalonicenses, o apóstolo Paulo nos chama a atenção e acrescenta: Os que faleceram, os que antes de nós “adormeceram” em Cristo, ouvirão primeiro o chamado das trombetas dos anjos.
É necessário aproximar-se deste limiar, o limiar entre a existência terrena e a vida post mortem. Toda oração, toda meditação que busca uma vivência do espírito é, de certo modo, uma experiência de cruzar o limiar entre a existência sensorial e a vida no Espírito! “Orar é como morrer um pouco.“
É necessário “adormecer” para o mundo exterior e abrir o sentido para o que vem – o que ad-vem – ao nosso encontro. No início pode parecer que se trata apenas de um “nada”, escuro e vazio… mas a confiança naquele que nos chama, pode nos levar a pressentir no fundo da alma o Verbo futuro que se faz audível no presente!

Renato Gomes

Reflexão para o domingo, 14 de dezembro

Referente à perícope da Carta de Paulo aos Filipenses 4, 1-9

Ao esperar a visita de uma pessoa querida e estimada, a dona da casa vai arrumar tudo. Tira o pó dos móveis, coloca na mesa uma nova toalha, pendura cortinas lavadas e enfeita a sala com flores.
Na carta aos Filipenses, Paulo fala sobre um único tema, a partir dos mais diversos aspectos: o Cristo ressuscitado, o Ente mais querido e mais respeitado, Senhor do Universo e irmão do ser humano.
Ele está para chegar!
Por isso, precisa-se “preparar a casa”.
Isto é: Na cidade Filipi, a Comunidade de Cristãos deve se tornar digna de recebê-lo. Paulo adverte as pessoas com uma série de conselhos. No último capítulo, ele dá um resumo das qualidades colocando “no resto” oito virtudes. Estas lembram os oito passos do Nobre Caminho Óctuplo
de Buda. Há, porém, uma diferença básica entre os dois: Buda visa com os oito exercícios à cessação do sofrimento; Paulo, em contrapartida, não evita o sofrimento, mas sim, pela proximidade do Cristo, mergulha na alegria da ressurreição e sente a presença da Paz de Deus “que está acima de toda compreensão”.
No Ato de Consagração do Ser Humano, preparamos a nossa alma para a Sua vinda. “Doente está a morada” em que Ele entra. Ele que não evitou o lugar mais humilde para o nascimento de Jesus, que ele nos dá a paz de Natal, tão necessário para o mundo de hoje.

Friedhelm Zimpel