Reflexão para o domingo, 30 de agosto

Referente à perícope do Evangelho de Marcos 7, 31-37

O Evangelho de hoje nos apresenta um homem surdo e que mal conseguia falar. Jesus faz algo muito particular: tira-o da multidão. Antes que esse homem pudesse começar a ouvir, precisa se afastar do ruído da multidão. O encontro com Cristo acontece a sós.
Então, Jesus coloca os dedos em seus ouvidos, toca sua língua, olha para o céu, suspira e pronuncia uma única palavra: Effatá — Abre-te. Talvez essa seja uma das palavras mais simples e profundas do Evangelho. Porque só podemos verdadeiramente ouvir quando calamos nosso ego e abrimos nosso coração. Podemos pensar sobre Deus, estudar, procurar compreender. Mas chega um momento em que o pensar precisa adquirir uma nova qualidade: silenciar e se tornar capaz de ouvir. A audição tem um papel primordial na vida espiritual. Para ouvir, precisamos criar dentro de nós um espaço no qual algo que não nasceu de nós possa entrar. Recebemos então o Logos, a Palavra de Deus. Ela penetra em nosso ser, atua em nossa alma, transforma nosso pensar e esclarece nosso entendimento.
Por isso, Effatá pode se tornar também uma palavra dirigida a nós, clamando para que nos abramos para aquilo que ainda não percebemos, mas que quer entrar em nossa vida. Assim, não apenas começamos a ouvir; começamos também a falar. Talvez muitas dificuldades de nossa época venham justamente da inversão dessa ordem: falamos antes de ouvir, temos opinião antes de compreender. Queremos anunciar a verdade antes de permitir que a verdade nos transforme.
Cristo não diz: “Abre teus ouvidos”. Ele diz: “Abre-te”. É o ser humano inteiro que precisa se abrir para receber o Cristo em si.

Carlos Maranhão