Reflexão para o domingo, 28 de junho

Referente à perícope do Evangelho de Marcos 1, 1-11

Marcos nos diz que João pregava no deserto um batismo de arrependimento. O deserto, em grego, é eremos: o lugar vazio, silencioso, onde desaparecem as distrações e o ser humano fica sozinho consigo mesmo e diante de Deus. Da mesma raiz nasce a palavra ‘eremita’, aquele que busca livremente essa solidão para encontrar a voz do Espírito.
Talvez nunca a humanidade tenha vivido tanta dificuldade em encontrar esse silêncio interior quanto em nossa época. Estamos cercados de informações, opiniões, imagens e ruídos. Temos respostas para quase tudo, mas continuamos procurando sentido para a vida. O deserto dos nossos tempos não é a ausência de pessoas, mas a dificuldade de encontrar um espaço interior onde possamos ouvir aquilo que realmente importa.
Nesse deserto, João prega um batismo de ‘Metanoia’. Costumamos traduzir essa palavra por ‘arrependimento’. Mas seu significado é muito mais amplo. Metanoia significa uma transformação do modo de pensar, uma mudança profunda da consciência. Não se trata apenas de lamentar os erros do passado, mas de aprender a olhar a realidade de uma maneira nova. O novo estava para vir e João lhe preparava o caminho. Mas para reconhecê-lo, não se poderia manter as antigas formas de pensar.
Essa preparação continua sendo o nosso trabalho hoje. Também nós somos chamados a cultivar momentos de deserto interior. Não um isolamento que nos afaste do mundo, mas um silêncio que nos permita voltar ao essencial.
João se coloca humildemente dizendo que não merece nem mesmo desatar as correias das sandálias do Cristo. Humildade não significa perder nossa individualidade. Pelo contrário, o que deve diminuir é apenas aquilo que impede o verdadeiro ser de aparecer.
Continuamos indo às festas juninas e é ótimo que possamos aquecer nossos corações nesses lindos encontros, mas não nos esqueçamos que aí recolhemos as brasas para preparar nossa própria fogueira no silêncio do coração humano.

Carlos Maranhão