Referente à perícope do Evangelho de João 15, 1-27
O mundo moderno nos proporciona a oportunidade de vivenciarmos cada vez mais a consciência de nós mesmos como indivíduos. A sensação de liberdade e de poder fazermos nossas próprias escolhas é algo muito precioso para todos nós. No entanto, esse movimento traz consigo algo que funciona quase como um efeito colateral: o isolamento do outro, do mundo e até de uma fonte vital que nos alimente espiritualmente. Na verdade, nunca estivemos tão conectados pelos meios de comunicação que a tecnologia nos oferece, mas mesmo assim esses meios não nos proporcionam o alimento que mais necessitamos. Somos como uma árvore, que cresce no deserto e não recebe a visita de pássaros, nem de gente para admirar sua beleza ou desfrutar dos seus frutos. Ela é estéril, não há troca e tampouco reconhecimento.
Esse vazio é, na verdade, o anseio por algo maior que possa nos resgatar desse isolamento em que nos encontramos. Na sétima afirmação do “Eu sou” do Evangelho de João, Cristo nos diz: “Eu sou a videira verdadeira”, e nós somos os ramos. Ele nos revela que nossa fonte de vida é o próprio Cristo. Conectados a essa fonte, a consciência de si já não se sente mais isolada, pois o Cristo se torna o vínculo vivo com as outras almas. Ele é o tronco que nos coloca em ligação com os outros ramos, as outras pessoas com quem coexistimos. Por meio dele reconhecemos que não vivemos mais separados, mas pertencemos uns aos outros. Permanecer significa não só compreender, mas sobretudo vivenciar essa ligação. O isolamento nos parece, portanto, como uma espécie de ilusão da separação, é como se estivéssemos morrendo de sede diante de um oásis, por incapacidade de percebê-lo.
A época em que indivíduos autônomos se descobrem como almas separadas é também a época do despertar de uma noção de pertencimento para além dos laços de família, de tribo, de povo. É a época do despertar para o pertencimento em Cristo. Não se trata de algo abstrato, mas do despertar para o pertencimento a uma comunidade viva que compartilha do mesmo vínculo. Essa é a comunidade do Cristo.
Carlos Maranhão