Referente à perícope do Evangelho de João 14, 23-31
Festa de Pentecostes
Tudo, aliás, é ponta de um mistério, inclusive os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo.
Grande Sertão – Veredas. João Guimarães Rosa
Hoje em dia, a festa de Pentecostes parece também ser a “ponta de um mistério” para nós. Se perguntássemos na rua, às pessoas: Qual é o sentido dessa festa? poucas saberiam dar uma resposta sem hesitar.
Pentecostes significa 50, quer dizer 50 dias depois da Páscoa. Nessa data os judeus comemoram a instituição da Lei do Sinai. Por essa lei dos dez mandamentos, o Espírito de Deus manifestou-se para o povo judeu com regras claras para o correto comportamento individual e social. Quase todas essas leis são válidas ainda hoje para os judeus.
Na cristandade, a Festa de Pentecostes é o dia da vinda do Espírito Santo (Atos dos Apóstolos, cap. 2). Nesse dia, os apóstolos estavam reunidos quando se ouviu um ruído do céu — como de um vento forte — e línguas como que de fogo desceram sobre cada um deles. Em consequência, os discípulos entusiasmados passaram a saber falar com tanta autoridade que todos os ouvintes os entenderam, mesmo sendo de outras culturas. Esse acontecimento é considerado como sendo a fundação da igreja cristã.
Hoje em dia, o Espírito Santo é invisível aos nossos olhos. O que se vê em todos os lugares são as obras do espírito humano, os produtos da nossa inteligência, que nos rodeiam dia e noite, tanto nas horas do trabalho quanto nas de lazer. Cada vez mais, percebem-se as destruições causadas por este espírito.
Falta-nos o órgão da percepção do espírito do Cristo. Ele nos mostra a chave desta percepção com uma única palavra: Amor.
Quem me ama vive em minha palavra e o meu pai também o há de amar e iremos ambos viver nele. (João14,23)
Obviamente, não é o amor como sentimento ou como paixão, mas sim o amor que abre os olhos do coração. O amor que tenta ver e entender, que observa com empatia, que não vê apenas o exterior de uma pessoa, mas vai ao encontro de sua alma. Que procura a ponta do mistério para além da aparência. Diante de uma planta, o amor pergunta: Quem és tu? Qual será a essência do teu ser? Diante de uma pessoa, pergunta: Quem és tu, qual é o tesouro da tua alma? O teu mistério?
No Ato de Consagração, sempre tentamos abrir os ouvidos e entrar na palavra do Cristo, no mistério da sua presença. Ele de novo está enviando o seu Espírito para os seus discípulos reunidos, esperando que se acenda neles o fogo do entusiasmo — para que sempre possa ser sanado o que se apresenta como sendo doente no ser terreno.
Friedhelm Zimpel