Referente à perícope da Apocalipse de João 12
Esta manhã, nuvens encobriam o sol. O dia começou cinza. Uma garoa fina deixava corpos e almas molhados, frios, entristecidos. Era difícil reter boas ideias quando a estupidez e a brutalidade espreitavam para abocanhar tudo. E à noite faltava o consolo das estrelas, derrubadas que foram pelas luzinhas portáteis, que replicam ilusões pelos sete cantos do mundo, que aprisionam a vontade com as dez correntes do medo, da dúvida e do ódio. Curioso dragão moderno, que não precisa rugir nem cuspir fogo em para dominar.
No deserto da solidão, a alma se recolhe. Tateia nas trevas procurando chão. E na noite escura, sem lua, surge da lembrança o crescente, pequenino, com brilho delicado, mas firme o bastante para servir de apoio ao pé sem chão. Nesse brilho, há força para crescer. Crescente de lua das memórias e vivências de tempos passados, cujo brilho não é próprio (também no céu a luz do crescente de lua não é própria), é sinal presente de luzir futuro.
Pequeno sol interior, embrionário, gerado no fogo do coração, que não se deixou intimidar pela fúria dos dragões de ocasião, precisa de tempo, precisa de cuidado.
O dragão não tem tempo, ele o teme. O tempo da alma é dom dos anjos, dos arcanjos e de todos os mensageiros divinos. Esse tempo se dilata, aprofunda e cria novos espaços. Lugares onde as estrelas tornam a cantar sua música inspiradora e — em lógica invertida — o que havia envelhecido, rejuvenesce. A alma jovem concebe o sol interior. Cristo-Sol, irmão gêmeo do próprio ser.
O dia lá fora continuava cinza, pareceria que tudo permanecia igual… Mas o fogo, criador de seres, revigorava as forças, aquecia a esperança e gerava a mudança que conduz ao futuro.
Renato Gomes