Referente à perícope do Evangelho de Lucas 17, 11-17
Esta passagem se refere a uma cura coletiva de dez leprosos. Um grande problema à época — a lepra era uma doença incurável, estigmatizada por causa das deformações físicas que gerava segregação rigorosa, que obrigava os doentes a abandonarem o convívio da família e exigia que nunca se aproximassem demais das cidades ou das vilas onde pessoas sadias habitavam.
Em certo sentido, poderíamos descrever que a atitude da sociedade da época tratava a lepra como algo que não se quer ver, não se toca, não mais faz parte do dia a dia das demais pessoas.
Hoje a ciência encontrou os medicamentos necessários para curar essa doença infectocontagiosa. Os pacientes podem ser tratados sem a necessidade de segregação. O próprio nome da patologia foi mudado — hanseníase — com o intuito de se desvincular dos antigos estigmas ligados a ela.
Entretanto vivemos num mundo onde deixou completamente de existir LEPRA? Existem formas modernas deste problema? Teríamos que falar, numa abordagem moderna, de fenômenos de uma “lepra social”. Basta perguntar-nos: onde estão aquelas pessoas que não se “vê”, não se “toca”, não entram no horizonte do “nosso” cotidiano?
Na maioria das vezes, não é por medo de se infectar, uma vez que o padecimento, nesse caso, não acontece por meio de microrganismos. Há, entretanto, um certo risco de “contágio”.
A segregação é, quase sempre, invertida, pois aquilo que não se “vê”, não se “toca” ou não faz parte do “meu dia a dia”, em verdade não me afeta, se eu me mantenho suficientemente afastado de tudo isso.
Pode, porém, surgir o risco de outra forma de “contágio”! Alguém pode vir a ser “contaminado” com os problemas de certos grupos de pessoas, que até então se encontravam fora do alcance de sua percepção, mas em algum momento tais “padecimentos alheios” começaram a serem “vistos”, sentimo-nos “tocados” por eles e já não é mais possível mantê-los fora do horizonte da própria consciência.
No texto do Evangelho se diz que dez leprosos se aproximaram, mantiveram-se, contudo, a certa distância. Jesus, porém, os “viu”, os “ouviu”, foi “tocado” pela triste situação daquelas pessoas. E Ele lhes disse: “Ide, mostrai-vos!” A cura começa no momento em que aquilo que estava segregado, oculto aos olhos e longe da consciência, precisa ser mostrado, reconhecido. Eles entenderam essa exortação e foram.
Esse movimento em si já é suficiente para gerar uma significativa reflexão para os tempos atuais. Há, porém, outra camada, ainda mais sutil e profunda: um deles retorna para agradecer. Os outros nove, ao perceberem que foram curados, provavelmente já não se sentiram mais excluídos como antes. Perceberam que podiam assumir um lugar na vida e na sociedade, que lhes havia sido privado. Talvez, pela alegria do momento ou por simples distração, não se preocuparam tanto com a sua condição passada. Um deles, porém, retornou. Ele retorna não apenas refazendo o caminho de volta, mas também retorna à lembrança de que era doente e que foi curado. Estava segregado e passou a ser visto. Isso gerou nele a gratidão.
O texto inicia dizendo que Jesus sentiu compaixão ao perceber o aproximar dos dez leprosos. Um deles retorna e demonstra sua gratidão. Esses dois movimentos internos da alma humana, se retroalimentam. Ao sentir gratidão por algo, se estimula, ao mesmo tempo, a própria alma a se sensibilizar diante do padecimento alheio. Num movimento contínuo, gratidão-compaixão tornam-se um binômio imprescindível para a evolução humana. Num mundo reconhecidamente carente de um olhar compassivo frente ao sofrimento alheio, essa narrativa do Evangelho de Lucas pode nos ajudar a equilibrar um pouco tal tendência. Pois aqueles que desde cedo aprenderem a desenvolver a gratidão até por coisas simples e corriqueiras — o pão de cada dia, o sorriso amigo, a luz do sol a cada manhã — eles conseguirão olhar o que precisa ser visto, tocar o que precisa ser sanado e abrir o próprio sentir para compartilhar o sentir daqueles que sofrem.
Renato Gomes