Referente à perícope do Evangelho de João 20, 1-20
Quando o Cristo ressuscitado apareceu aos discípulos pelas primeiras vezes, algo aconteceu que fez de Tomé um representante da humanidade nos tempos a seguir. Um período do desenvolvimento humano estava chegando ao fim, e agora as pessoas deveriam se transformar e se comportar de maneira diferente. Elas deveriam estabelecer uma nova relação com o mundo divino e também com o seu destino na Terra.
No período anterior ao nascimento de Cristo, as pessoas podiam ver os feitos dos deuses com seus olhos físicos; elas eram clarividentes. Falavam de deuses que compartilhavam seu destino com a humanidade. Conheciam a existência pré-natal e pós-morte, que experimentavam como espíritos entre espíritos. Em comunidade se ligavam ao mundo divino. Sentiam-se integradas a uma ordem superior, segundo a qual a vida em todos os seus aspectos estava significativamente alinhada.
Chegou então o tempo da perda gradual da clarividência e do pertencimento tanto a um mundo espiritual quanto a uma comunidade espiritual. Chegou o tempo em que a humanidade se tornou cada vez mais autônoma e, como resultado, o senso de direção na vida deixou de surgir naturalmente. Em vez disso, a humanidade se sentiu cada vez mais confinada a um mundo puramente material. A realidade da existência se limitava ao intervalo entre o nascimento e a morte. Todos os esforços eram direcionados para tornar a vida na Terra o mais confortável possível. Foi também nessa época que os deuses se retiraram cada vez mais, para que a humanidade pudesse despertar como um espírito livre.
Tomé não estava com os discípulos quando Cristo apareceu entre eles. Estava sozinho. Ele não compartilhou as experiências dos outros discípulos; para acreditar precisaria tocar nas feridas do martírio. Ele não compreendia o significado da morte sacrificial. Para ele, as feridas representavam o fim trágico de um esperançoso impulso. Contudo, uma semana depois, Cristo apareceu a todo o círculo de discípulos e convidou Tomé a tocar suas feridas, momento em que Tomé o reconheceu e se prontificou a segui- lo.
Tomé não estava com os outros discípulos quando Cristo apareceu. Diante da sua incredulidade, Cristo dirige essas palavras às gerações futuras, aquelas que cada vez mais baseiam sua existência no mundo material, mas que podem, interiormente, reacender a força vital da fé. O poder da fé hoje, a relação viva com Cristo e seu feito, é o que estabelece novas comunidades espirituais, confere um novo significado à vida terrena e até mesmo à morte. A antiga experiência de Deus pelo corpo e sentidos está desaparecendo; o poder da fé interior renasce! Deus nasce na alma, no Eu Sou!
Helena Otterspeer