Reflexão para o domingo, 1° de novembro

Referente à perícope do Apocalipse de João 1, 1-20

João se apresenta como nosso irmão e companheiro na tribulação, no reino e na perseverança. Aquele que lhe aparece é o primeiro e o último, aquele que atravessou a morte e vive. Ele nos acompanha e nos traz a força para perseverar. João ouve um chamado e se volta para ver quem lhe fala. Nesse gesto podemos reconhecer uma indicação para nossa vida interior. Também nós podemos escutar, com os ouvidos da alma, algo ainda indistinto. Para acolhê-lo, precisamos abrir nosso entendimento ao que ainda não conhecemos e voltar-nos para aquele que nos chama.
Fiquemos com essas três palavras: tribulação, reino e perseverança. A tribulação faz parte de nossa condição neste mundo, e a temos vivenciado fortemente nos últimos tempos. O reino é a realidade divina à qual pertencemos e da qual tantas vezes nos esquecemos. Perseverar é permanecer nesse pertencimento, mesmo quando ele ainda não se tornou evidente. Apocalipse significa revelação. Em cada época, somos chamados a reconhecer o que os acontecimentos manifestam e o que ainda ocultam. Isso exige uma escuta que vá além das explicações habituais, uma abertura para aquele que nos dirige a palavra.
A visão é grandiosa, e João cai como morto. Mas a mão de Cristo o toca: “Não temas”. Cristo nos revela e, ao mesmo tempo, nos adverte para que não temamos sua revelação. Detenhamo-nos na espada que sai de sua boca. Podemos reconhecer nela a palavra que distingue, esclarece e chama à transformação. Ela atravessa nossas justificativas, dúvidas e revela a distância entre a dignidade que recebemos e a vida que conseguimos realizar. Podemos reconhecer a verdade, a justiça e o amor, no entanto nossas ações tantas vezes não alcançam esses ideais. Nossa dignidade é um dom, mas sua realização passa ser nossa tarefa.
Absorvidos em nossos fracassos, podemos confundir aquilo que fizemos com tudo aquilo que somos. Voltar-nos para Cristo é abrir nosso autoconhecimento à sua presença e reconhecer o que necessita de transformação sem perder a coragem. A mão que toca João nos ajuda a acolher a palavra que vem como espada. Cristo nos sustenta para que possamos transformar nossa vida. Sua paciência é infinita e oferece espaço à nossa resposta, e cada resposta importa, pois aquilo que transformamos em nós pode interromper um sofrimento que continuaríamos a transmitir.
A paz em Cristo pode começar em meio à nossa imperfeição, quando acolhemos sua mão e sua palavra. Dessa paz recebemos força para perseverar e diminuir a distância entre o amor que reconhecemos e o amor que conseguimos realizar.

Carlos Maranhão