Referente à perícope do Evangelho de Lucas 1, 26-38
Nessa bela obra de Fra Angélico representando a anunciação do nascimento de Jesus, o Anjo Gabriel, em toda a sua dinâmica direcionada à Maria, nos gestos das suas mãos, nas suas palavras representadas pela escrita em ouro, manifesta a decidida intenção do mundo espiritual de revelar o processo de concepção à consciência da futura mãe. Isso implica em um completo envolvimento e ligação com o novo ser anunciado. As metas espirituais anunciadas à consciência humana são sempre um grande desafio, porque ainda devem ser a todo custo realizadas. As asas do anjo Gabriel não cabem completamente na morada de Maria; ela ainda tem que aceitar sem condições a sua missão. Ela reconhece que o seu corpo e a sua existência terrena são um instrumento para a revelação do mundo espiritual. Depois do susto e temor, ela pôde aceitar incondicionalmente com as palavras: “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.”
Esse momento é apresentado aqui em relação ao acontecimento representado no fundo à esquerda, a expulsão de Adão e Eva do Paraíso – Eva tendo havido sido retirada por Deus do lado de Adão durante o seu sono inconsciente.
Toda a evolução do ser humano desde a expulsão de Adão e Eva do Paraíso foi realizada sem a consciência individual desperta, mas sobretudo pela guia do mundo divino.
Quando, enfim, chegou a época em que a consciência individual estava desperta, então o mundo espiritual logo lhe revela a sua missão, ou seja, vir a permear todos os processos de vida na Terra com a consciência do Eu Sou. O primeiro que veio a cumprir isso foi Jesus Cristo ressuscitado, denominado pelo apóstolo Paulo de o segundo Adão.
Com a anunciação do anjo Gabriel à Maria se configura um novo ciclo da humanidade, o gerar de um novo ser humano, guiado pelo seu próprio espírito e carregado pelo Cristo.
Desde então, soa o apelo a cada um de nós: “evolva- te” a partir da imagem divina primordial. Assim a humanidade estará contribuindo para a espiritualização de toda a Terra e dos reinos da natureza. Sem isso, o mundo sensorial entrará em colapso, privado de seu fundamento no Espírito. O tempo urge!
Helena Otterspeer

