Referente à perícope do Evangelho de João 16, 1-24
“Bem pouco e não me vedes e, de novo, bem pouco e me vereis!”
Os discípulos perguntaram a Cristo o que significava esse “bem pouco”. Comumente essa passagem é entendida como um curto lapso temporal. Os discípulos deixariam de vê-lo em breve pois se aproximava a sua Ascensão — e logo a seguir, tornariam a vê-lo, ainda que de uma maneira diferente, na vivência das línguas de fogo de Pentecostes.
Em nosso idioma, podemos procurar uma expressão que se aproxime do sentido original do termo “bem pouco” (μικρός = mikrós) no idioma grego do texto original: pouquinho, pequenininho, quase nada… E se pensamos num sentido temporal: instante, lampejo, piscar de olhos.
“Num piscar de olhos não me vedes e, de novo, num piscar de olhos me vereis!” O que acontece num piscar de olhos? Por um instante, nosso sentido da visão se obscurece, o fluxo dos impulsos luminosos se interrompe, mas no instante seguinte voltamos a ver a luz do mundo.
Em cada piscar de olhos, a luz morre e, a seguir, torna a nascer para nossa visão. A nossa percepção visual do mundo não é um fluxo constante, mas uma sucessão de pequenos momentos marcados por breves interrupções. Pequenas mortes e ressurreições; ou também poderíamos dizer, uma sequência de pequenos ocasos e novos amanheceres a cada instante.
O ciclo do sono e vigília também poderia ser visto como um “piscar de olhos” dentro na nossa vida terrena. Do mesmo modo que o ciclo maior das encarnações e a vida entre a morte e o novo nascimento também poderia ser entendido como um “piscar de olhos” maior dentro de nossa existência.
O interessante seria ver então que a cada “piscar de olhos” sucede uma renovação, uma possibilidade de retomar o fluxo dos acontecimentos de maneira nova, como o amanhecer de cada dia traz nova luz ao ritmo de nossas vidas e cada nova encarnação traz um rejuvenescimento e a oportunidade de recomeçar e retomar o processo evolutivo de nosso destino.
Não poderia, portanto, cada pequeno (μικρός = mikrós) piscar de olhos também ser percebido dentro dessa mesma qualidade, mesmo que numa dimensão mais sutil? Certamente, se treinássemos olhar o mundo de maneira nova, após cada piscadela, ficaríamos surpresos com o que talvez não tivéssemos percebido antes. Uma das grandes dificuldades de ver o novo reside na suposição de que a cada piscar de olhos retomamos as coisas exatamente no instante em que nos encontrávamos antes e cremos que nada deve haver mudado desde então.
Nós mesmos bloqueamos a possibilidade de que esse “algo novo” possa se manifestar nesse sutil instante, entre fechar-nos e tornarmos a nos abrir para o mundo. Podemos afirmar: Nada, de fato, acontece num piscar de olhos! Mas podemos, sempre, nos perguntar: Quantas coisas poderiam ocorrer num simples piscar de olhos?
No Ato de Consagração do Homem, vemos que o cálice e a patena são colocados sobre o altar no início da celebração, recobertos por um pequeno lenço. Num certo momento, num piscar de olhos, esse lenço é retirado, a patena com o pão é colocada sobre o altar e o cálice encontra-se vazio. Noutro piscar de olhos, o cálice encontra-se cheio… E se percebermos com atenção, dão-se vários piscares de olhos e a cada um deles algo sutil e ao mesmo tempo grandioso acontece; até que após a transubstanciação, num piscar de olhos, pão e vinho se tornam Corpo e Sangue daquele que antes não estava visível e que em “bem pouco” se torna presente em sua união espiritual com a matéria, nas substâncias sobre o altar.
Cada celebração da eucaristia é, de certo modo, uma repetição das palavras de Cristo nesse discurso de despedida aos discípulos: “Bem pouco e não me vedes e de novo bem pouco e me vereis!”
O desafio é grande, pois não estamos acostumados a vivenciar tão intensamente e de maneira nova o mundo após cada “piscar de olhos”! Aqui, entretanto, não cabe o desânimo ou a frustração por não conseguir algo. Mais vale, porém, a alegria de esperar reconhecer o novo que nasce, que quer vir à luz, em cada mikrós, após cada piscar de olhos!
Renato Gomes
Pastor da Comunidade de Cristãos de Campinas