Referente à perícope do Evangelho de Mateus 8, 1-13

A cura do servo do centurião romano:
No dia 27 de janeiro na Alemanha, data da libertação do campo de concentração de Auschwitz em 1945, mencionou-se muitas vezes nos discursos em memória do holocausto da 2ª Guerra Mundial, o primeiro artigo da Constituição Alemã formulada em 1948, três anos depois da guerra: “A dignidade humana é inviolável“.
Com esse artigo, estava ligada a esperança de que nunca mais pudesse acontecer uma tal tragédia como a da 2ª Guerra, com mais de 60 milhões de mortos, dos quais mais de 6 milhões foram vítimas do holocausto.
Diante dos atuais inúmeros conflitos, violências e injustiças entre os povos, essas nobres palavras soam vazias para muitas pessoas. O que fazer para que a dignidade de qualquer ser humano seja reconhecida, preservada e defendida?
Nos tempos antigos, sabemos que eram os reis, sábios e sacerdotes a quem numa cerimônia era conferida pelo mundo espiritual a dignidade para poder exercer suas funções. O manto e a coroa eram, por exemplo, os sinais desta dignidade necessária para conduzir os povos. A coroa expressava a ligação do rei com o mundo divino, a fonte do seu poder. O manto, a consciência da sua responsabilidade e ligação com o seu povo, como seu guia para o bem. Essas qualidades ele conquistava pela iniciação nas antigas escolas de mistério. Pela iniciação, ele formava sentidos superiores para perceber o mundo divino e com isso conquistar a capacidade de reger, de curar, de evoluir para o bem de toda a humanidade.
Hoje, a iniciação pelos métodos das antigas escolas de mistério não mais é possível. Entretanto, continua sendo necessária a ligação com o mundo divino de onde vem a vida, a luz, o calor, enfim, a paz para toda a humanidade e para a Terra.
O centurião romano que procurou Jesus Cristo, representava a cultura romana da época voltada para os grandes frutos exteriores da civilização, dirigidos sobretudo para o bem-estar e segurança física e conquistados por uma personalidade voltada sobretudo para poderes e direitos do cidadão. No entanto, esse centurião ainda sabia que o ser humano não é apenas um cidadão da Terra, mas sobretudo um cidadão no mundo espiritual.
O nome de Jesus significa “o que cura”, “o que salva”. O centurião reconheceu em Jesus, que havia recebido o espírito de Cristo no batismo, um representante do mundo divino. Assim como ele, como centurião, desfrutava de sua autoridade terrena na sua casa, ele acreditava inabalavelmente na autoridade espiritual de Jesus. Ele diz: “Não sou digno que entres na minha casa”. Ele sabia que a sua casa, a sua comunidade de vida estava ameaçada para o futuro, o seu jovem servo estava muito doente. Seus elos com o mundo divino estavam fracos. O reconhecimento da sua indignidade diante do mundo divino o torna apto para receber, para acolher a palavra divina proferida por Jesus.
Hoje, este é o desafio: em humildade, como ser humano, estar consciente da própria indignidade diante do mundo divino e ir à procura do Cristo para conquistar uma nova consciência que abrange a realidade espiritual no Eu Sou, isto é, conquistar a própria inabalável dignidade pelo despertar da substância divina em si mesmo. O mundo espiritual não se revelará mais no interior das escolas de mistério, mas no interior da alma humana que se tornará madura, como o curado jovem servo, para enfrentar os desafios do destino, para fazer as escolhas corretas para o bem de todos.
Helena Otterspeer

Nessa bela obra de Fra Angélico representando a anunciação do nascimento de Jesus, o Anjo Gabriel, em toda a sua dinâmica direcionada à Maria, nos gestos das suas mãos, nas suas palavras representadas pela escrita em ouro, manifesta a decidida intenção do mundo espiritual de revelar o processo de concepção à consciência da futura mãe. Isso implica em um completo envolvimento e ligação com o novo ser anunciado. As metas espirituais anunciadas à consciência humana são sempre um grande desafio, porque ainda devem ser a todo custo realizadas. As asas do anjo Gabriel não cabem completamente na morada de Maria; ela ainda tem que aceitar sem condições a sua missão. Ela reconhece que o seu corpo e a sua existência terrena são um instrumento para a revelação do mundo espiritual. Depois do susto e temor, ela pôde aceitar incondicionalmente com as palavras: “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.”