Reflexão para o domingo, 31 de janeiro

Época de Epifania

Referente ao perícope de João 5, 1-16

„Levanta-te, toma o teu leito e anda.“

João 5, 8

Quando uma pedra cai no chão sabemos que isto acontece pelo fato de que a pedra é atraída pela Terra.

Quando uma planta cresce podemos perceber como ela é elevada pelas forças do cosmo, pelo Sol, pela Lua, pelas estrelas.

Quando um animal anda pela superfície da Terra à procura de alimento, ou se defende para sobreviver, ou se une ao outro para procriar, podemos sentir que ele é conduzido por instintos que atuam em sua alma.

Mas o que acontece quando nós, seres humanos, conseguimos mobilizar em nós uma força de vontade que é mais do que uma reação às influências do mundo físico, que é mais do que processos biológicos da nossa vitalidade, que é mais do que instintos que nos conduzem para sobrevivermos e procriarmos?

Quando realmente conseguimos mobilizar uma força de vontade que almeja metas colocadas em liberdade por nós mesmos, vivenciamos a realidade do nosso Eu: aquele que não é dirigido pelas forças da terra, nem pelas forças do cosmo, nem pelos instintos da alma, mas por si próprio.

Este Eu não é o nosso eu cotidiano, mas Aquele que conversa com nós mesmos e nos diz: „Levanta-te, toma o teu leito e anda.“

João F. Torunsky

Reflexão para o domingo, 24 de janeiro

Época de Epifania

Referente ao perícope João 2, 1-11

Jesus e seus discípulos vão a uma boda (um casamento).

No relato de João, a boda em si não tem muito destaque. O foco dos acontecimentos está na atuação de Cristo em outro âmbito. O fio condutor central da narrativa culmina na expressão “bom vinho”; ainda assim ambos elementos – boda e vinho – estão intimamente relacionados.

Uma boda significa união e interação íntima e profunda entre duas pessoas, mas num sentido amplo, também podemos nos referir à boda, quando falamos da união entre coisas diferentes: a boda entre alma e espírito, entre razão e sentimento; na  esperança de que, dessa boda, nasça algo novo pela contribuição e sinergismo das qualidades de cada parte, algo que jamais nasceria, pelo esforço de cada uma delas separadamente. Podemos até mesmo falar da boda entre circunstâncias  opostas:  Céus e Terra, espírito e matéria, luz e escuridão…

Tomando o último exemplo, podemos reconhecer de maneira explícita, que quando a luz e a escuridão se unem de um modo bem específico e adequado, surgem as cores.

Também em nossa existência terrena, somos levados constantemente a realizar, ou pelo menos a tentar, muitas bodas…

É muito importante cuidar da vida interior, da prática meditativa  e religiosa, como exercício para  o fortalecimento de nossas faculdades anímico-espirituais, do mesmo modo é importante desenvolver habilidades práticas e conhecimentos de como lidar com os assuntos da vida cotidiana, em nosso atuar no mundo da matéria. Negligenciar um ou outro aspecto, conduz à unilateralidades. O ideal é propiciar que aconteça a boda interior entre estes dois elementos latentes em cada um de nós.

É justamente neste ponto que aparece a intervenção de Cristo. A narrativa do Evangelho de João cita que “eles não têm vinho”. Aquilo, que deveria se unir para tornar-se fecundo e produtivo na vida, perdeu a força capaz de amalgamar, de unir para produzir uma interação frutífera. O “vinho”, aqui, representa este elemento mediador.  Pelo próprio texto fica evidente, que sem vinho, a boda não pode prosseguir…

Cristo é que então oferece o “bom vinho”.

Muitas vezes percebemos, em nossa própria vida, que certas coisas que antes funcionavam, deixam de funcionar, diminui-se o entusiasmo, a motivação e “falta o vinho”.  Isto pode acontecer também nas nossas relações familiares, de trabalho ou sociais. Surgem desânimos ou desgastes nas relações e a “boda frutífera” que talvez tenha acontecido no passado, já não acontece mais…

Nestes momentos podemos fazer a pergunta:

Como renovar o “vinho”?

Cristo nos aponta uma indicação, quando responde a sua mãe:

“O que há entre ti e mim?”

Ele pode ajudar. Ele quer ajudar, mas primeiro temos que nos fazer seriamente a pergunta:

Que significado tem a força de Cristo em minha própria vida?

Busco uma interação mais íntima com seu ser?

Procuro um diálogo profundo, que possibilita que algo flua entre “mim e ti”, entre meu ser interior e o ser de Cristo?

Hoje vivemos e notamos em muitas partes o crescimento de antagonismos, de ideias retrógradas, de intolerância e de violência.

Em grande parte, isto é efeito da insegurança e do medo que a própria alma sente em relação aos acontecimentos presentes e às perspectivas futuras.

Tais sentimentos em nada contribuem para favorecer a boda fraterna entre ser humano e ser humano, a boda social na convivência e na justiça entre os povos, a boda solidária na ajuda às necessidades e sofrimentos do próximo, a boda com a natureza no respeito e cuidado com o meio-ambiente…

O “vinho antigo” que talvez ainda circule aqui ou ali, está azedando, não traz alegria, apenas intensifica a embriaguez e o entorpecimento geral.

Urge encontramos o “vinho novo”, o “bom vinho”!

Está em cada um de nós, buscar o diálogo “entre mim e ti”, tomar o impulso de convidá-Lo para a boda!

Daí pode surgir o vinho novo e bom que propcia a boda!

Renato Gomes

Reflexão para o domingo, 17 de janeiro

Época de Epifania

Referente ao perícope de Lucas 2, 41-52

“Sua mãe guardava todas estas coisas no coração.”

Quando semeamos, as sementes caem na terra, e por um período, lá precisam ficar. Desenvolvem na escuridão da terra, onde não as vemos. Se enraízam e depois começam a crescer. Só então o broto torna-se visível acima da terra.

Maria guardava as experiências que envolviam o menino Jesus no templo, em seu coração. Ela não as entendia, mas abre seu coração e as experiências podem assim, como sementes, cair em solo fértil. No coração elas são acolhidas como as sementes na terra. Elas podem desenvolver, crescer e se tornar frutíferas para o futuro.

O gesto de Maria, de abrir o coração, mostra uma qualidade que também nós somos capazes de desenvolver.

Podemos abrir nosso coração para as questões, dúvidas e experiências que não entendemos. No fundo de nosso coração elas ficarão guardadas como as sementes na terra. Podemos aprender a viver com elas. Elas vão se desenvolver e transformar.

Com o tempo elas podem crescer, amadurecer e se transformar em respostas e qualidades que se tornarão frutíferas para o nosso futuro.

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 10 de janeiro

Época de Epifania

Reflexão para o domingo, dia 10 de janeiro de 2021.

Referente ao perícope de Mateus 2, 1-12

Em 6 de janeiro celebramos o dia da Epifania, dia da manifestação divina na Terra, dia do aparecimento do Cristo na Terra. Há dois eventos ligados a esta data, por um lado o dia em que os reis do Oriente vieram adorar o menino Jesus trazendo-lhe os presentes: ouro, incenso e mirra; por outro lado, o dia do batismo no Rio Jordão trinta anos depois, pois é o dia da entrada de Cristo no corpo de Jesus.

A simbologia desta festa ainda não está incorporada nos costumes de celebração do mundo cristão como ocorre com o Natal e a Páscoa. Mas podemos no futuro conscientizarmo-nos cada vez mais, incorporando esses símbolos como forças da alma que depositamos aos pés do Cristo como presentes na forma de nossa própria transformação. Os presentes aos reis fazem parte de uma tradição milenar em que outros reis vêm prestar homenagem na coroação de um novo rei, reconhecendo-o como rei. No caso dos reis magos do Oriente, há o reconhecimento por parte destes daquele que se tornará o Rei dos Reis, aquele que veio para redimir a humanidade de seu distanciamento do mundo divino, encaminhando-a em um longo percurso de retorno à unidade e de desenvolvimento da consciência. Eles presentearam com ouro, simbolizando a sabedoria, com incenso, símbolo do sacrifício, a substância que junto com a fumaça que se eleva no altar com as palavras de oração no ofertório do culto sagrado; e finalmente a mirra, que nas cerimônias de sepultura perfumava o corpo físico do falecido, que enquanto vivo havia abrigado em sua substância a própria substância divina.

Assim, aprofundando-nos no mistério desta festa de Epifania, oferecemos nossos presentes ao Cristo na forma do símbolo áureo: nosso propósito de reconhecer no fundo da alma sua direção espiritual, crescendo em conhecimento espiritual; do símbolo do incenso: a mais elevada virtude humana, o sacrifício daquilo que levamos na alma, transmutando sentimentos indignos em sentimentos elevados, dando lugar ao Cristo em nós, e finalmente a mirra: a força do nosso ser mais profundo na forma de uma vontade inabalável colocada à disposição de Cristo.

Assim, o que oferecemos na forma de presentes ao Cristo, não deixa de ser na verdade um presente de Cristo a nós mesmos, pois sem sua força não poderíamos crescer nele.

Carlos Maranhão

Reflexão para o domingo, 3 de janeiro

Época de Natal

Referente ao perícope de João 1, 1-18

No princípio, o silêncio.
Silêncio por não saber o que dizer.
Silêncio no lugar de palavras inúteis.
Silêncio grávido da palavra viva…
A palavra-vida era a mãe do silêncio, e o silêncio não o sabia.
Apenas no silêncio voluntário, suportado e sofrido podia surgir de novo a força da vida que traz à luz a palavra-espírito na consciência humana.
Mas a consciência humana escolhia a palavra-sombra, a palavra-vácuo e a palavra-mentira…
Veio um tempo, em que a consciência humana se isolou, por vontade própria ou por vontade de outros ou por vontade de Deus, ela não o sabia.
O isolamento não era a palavra-viva, mas queria abrir os caminhos até ela. Ele abriria os caminhos a todos os que não o negassem e não fugissem dele, mas que o aceitassem como caminho para a palavra-vida.
O isolamento, seu nome é crise.
Crise é foco em si mesmo.
E na crise-foco, a consciência humana aprendeu de novo a ouvir;
a ouvir a si mesma,
a ouvir o gemido mudo da dor de fora,
a ouvir o silêncio.
E a palavra-vida ganhou corpo e força na consciência humana
e construiu nela sua morada,
e habitou de novo a voz humana
A voz que fala a palavra-vida em verdade, em coragem e em justiça,
E aprende a gerar do silêncio a palavra-humana que alberga em si a palavra-espírito, plena de força transformadora e de amor.
Amor ao diferente-outro,
Amor às viventes criaturas,
Amor à Terra-Corpo da Palavra-vida.

Com os melhores votos para 2021,
Renato Gomes

Reflexão para o domingo, 27 de dezembro

Época de Natal

Referente ao perícope da primeira carta de João 4, 7-21

“No amor não há medo.”


Um bebê normalmente vive no pleno amor do mundo espiritual e dos pais. Ele está cheio de confiança e não tem medo. Pouco a pouco perdemos essa confiança no amor incondicional através das desilusões e dores na vida. A confiança transforma-se em medo.
Nós precisamos fazer um trabalho para alcançarmos novamente a confiança no amor divino e para vencermos o medo. Podemos começar procurando o sentido nas dores e desafios da nossa vida. O que eles querem nos ensinar? Porque eles aparecem em nossa vida? Pouco a pouco podemos descobrir o nosso destino. Nele podemos sentir o atuar do mundo espiritual. Cada vez mais perceberemos o amor divino que acompanha todos os nossos passos. Podemos começar a amar os desafios e obstáculos da nossa vida e desenvolver uma nova confiança no amor divino. O medo pode se transformar  novamente em confiança.

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 20 de dezembro

Época de Advento

Referente ao perícope de Mateus 25, 1-13

“Então o reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando suas lâmpadas, saíram ao encontro do noivo. Cinco delas eram insensatas, e cinco prudentes. Ora, as insensatas, tomando as lâmpadas, não levaram azeite consigo. As prudentes, porém, levaram azeite em suas vasilhas, juntamente com as lâmpadas.”

Mateus 25

Uma planta germina de uma semente, cresce, floresce e dá frutos. Assim se encerra um ciclo vegetativo. Se fosse somente assim, uma planta não teria um futuro. Ela existiria apenas uma vez. Mas a planta não forma apenas o fruto. No fruto ela forma uma nova semente, que garante para o futuro um novo ciclo de vida.

Aquilo que a natureza traz evidentemente em si, nós seres humanos temos que aprender: não olhar apenas para os frutos que podemos obter no presente, mas sentir a responsabilidade pelo futuro, criar hoje sementes que garantam a vida do amanhã.

Este é o conceito da sustentabilidade, que temos que aprender sempre mais; no âmbito da agricultura, da economia, do modo como lidamos com o meio ambiente, nos relacionamentos sociais. Precisamos desenvolver, o mais rápido possível, responsabilidade pelo futuro, antes que seja tarde demais.

Mas além desses âmbitos existe também uma sustentabilidade espiritual: a responsabilidade pelo nosso futuro espiritual, pelo futuro espiritual do ser humano e da Terra. Temos a tarefa de criar sementes que germinarão num futuro, às vezes um futuro muito longínquo.

As cinco virgens prudentes criaram uma sustentabilidade para as suas lâmpadas, providenciando, durante o dia, o azeite que precisariam para a escuridão da noite. É o azeite que necessitam para acender as suas lâmpadas e se unirem com o noivo.

Quando nós cultivamos uma vida religiosa, temos também que pensar numa forma de sustentabilidade espiritual. O que formamos agora pelo nosso empenho de nos ligarmos com o divino, não trará necessariamente frutos para o nosso presente, mas com certeza ajudará a formar sementes que germinarão no futuro, ajudando a formar algo como o azeite que necessitaremos para acender a luz interior quando estivermos na escuridão e, assim, podermos nos unir com o Cristo.

João F. Torunsky

Reflexão para o domingo, 13 de dezembro

Época de Advento

Referente ao perícope de Lucas 1, 46-55

“Minha alma engrandece ao Senhor!
Meu espírito se alegra em Deus, meu salvador!
Pois olhou para a insignificância de sua serva…”

Estas palavras são o início do cântico de Maria, tradicionalmente chamado de “Magnificat”, cujas palavras expressam a exultante alegria que transborda de seu coração. Esta alegria surge da conscientização de que Deus “olhou a insignificância de sua serva”, ou seja, trata-se da vivência da alma humana que em certo momento percebe que está sob o olhar divino.
Num sentido genérico podemos dizer que Deus sempre está olhando para cada um de nós, mas tomar plena consciência deste fato é de grande significado para a própria alma.
O que significa, vivencialmente, que Deus está olhando para nós?
Todos bem conhecemos a vivência, muitas vezes sofrida e dolorosa, de percebermos que outra pessoa nos olha de maneira crítica ou má intencionada… Quem não sentiu “debaixo da pele” aquele olhar que humilha, despreza ou fere?
Podemos, com certeza, olhar as coisas com um olhar despretensioso e neutro, de modo que não evoque em nós quaisquer sentimentos. Isto é mais fácil com objetos inanimados e que nos são indiferentes. Entretanto, cada vez que olhamos para o ser humano surgem na alma, muitas vezes de forma pouco consciente, diferentes sentimentos ou emoções; simpáticas e amorosas, pois temos afeição por aquela pessoa; ou antipáticas e negativas pois talvez alguma experiência prévia com aquele individuo nos evocou tais sentimentos…
A partir desta experiência humana, cabe mais uma vez retornar a pergunta: como Deus, então, olha para o ser humano?
Se partimos da concepção de que o Criador nos conhece até melhor que nós mesmos, não é possível ocultar algo de seu olhar…
“…olhou para a insignificância de sua serva”
Maria (que aqui aparece como porta-voz da alma humana), entretanto, exulta ao perceber que está sob o olhar divino, pois não se trata de um olhar que critica, dilacera ou menospreza a latente “insignificância” do ser humano, mas que ao contrário, amorosamente é capaz de ver algo que está oculto até mesmo para nossa consciência, pois Deus é capaz de olhar-nos de tal modo que traz à luz de nossa consciência algo que talvez ainda não tenha se manifestado ou desenvolvido em nós, mas que o albergamos em potencial e um dia poderemos nos tornarmos nisto. E consegue olhar e reconhecer a imagem oculta de nosso próprio devir.
Alguns artistas contemporâneos estão desenvolvendo técnicas de trabalhos com luz e sombra, que estão sendo denominadas Shadow Art (em tradução livre: arte com sombras). Tais artistas constroem com materiais simples ou mesmo com sucata ou lixo, esculturas, que quando observadas não mostram ao olhar comum muito mais que um monte disforme de sucata ou de metal retorcido. Contudo, no momento em que tais esculturas são iluminadas por uma fonte de luz que provem de um lugar bem definido, elas projetam sombras que “revelam” algo que até então nosso olhar comum não era capaz de reconhecer.
Trata-se de um impulso artístico e criativo que muito pode nos ajudar em duas direções:
– inicialmente, podemos nos sentir estimulados a olhar a vida e as pessoas a nossa volta a partir de outros pontos de vista e assim aprender a descobrir e iluminar novos aspectos daquele ser, em especial quando nos acostumamos a vê-lo principalmente em seu lado menos nobre ou menos significativo…
– podemos também nos colocar no lugar de Maria e fazer-nos a pergunta: O que vive oculto em nosso ser e não chega a ser percebido, mas que se manifesta quando somos iluminados pelo olhar divino?
Tudo isto aponta para uma vivência primordial do Advento, pois neste período de preparação para o Natal, podemos tentar nos predispor animicamente a manter viva na alma a pergunta:
Qual é o foco que Deus usa para olhar a humanidade?
Como seu olhar divino ilumina cada ser humano?
Com certeza, Seu olhar amoroso vê algo na humanidade e em cada ser humano em particular que lhe motiva ininterruptamente a nos presentear com o impulso renovador do Seu Filho, quer nascer cada vez de novo no coração humano.

Renato Gomes

Reflexão para o domingo, 6 de dezembro

Época de Advento

Referente ao Evangelho de Lucas 1, 26-38.

Neste segundo domingo de Advento, Maria é o foco central. A ela é feita a anunciação da chegada do filho de Deus para salvação da humanidade. Podemos dizer que, por meio dela, a humanidade está grávida e espera o nascimento do menino Jesus? Desde os tempo da queda do Paraíso, a expulsão de Adão e Eva por terem comido do fruto proibido, a humanidade esperava a vinda do Messias para efetuar a inflexão fundamental de redenção. O pintor renascentista Fra Angélico em sua pintura “A Anunciação” representou de modo exemplar a importância desse acontecimento, ao colocar o foco principal no coração de Maria para onde se dirige o Espírito Santo na forma de uma pomba, que emana da mão de Deus com num raio de luz. E no canto superior esquerdo do quadro, há uma pequena representação da expulsão de Adão e Eva do Paraíso. Num único quadro temos esse magnífico percurso evolutivo da humanidade que vai da queda ao resgate. Outro elemento importante na imagem é a atitude de Maria, que após o espanto, a indagação, a incompreensão, acolhe em seu coração sua tarefa com uma inclinação devota diante do anjo anunciador, o Anjo Gabriel, cruzando os braços em seu peito em sinal de total entrega à vontade de Deus.
Essa atitude e gesto é a mais sublime indicação de como nós também podemos acolher em nossos corações a vinda do Cristo. Não consideramos essa festa como algo que nos remete ao passado, mas ao futuro, pois como a própria palavra “Advento” indica, trata-se da festa sobre o que há de vir. E mesmo, considerando que se refere a fatos ocorridos há mais de dois mil anos, a cada ano nós revivemos os acontecimentos e nos preparamos para receber o Cristo vivo. Ele não nos abandonou após sua ascensão, mas permanece disponível para todo indivíduo que o quer acolher. É nesse sentido que a humanidade permanece grávida de Cristo após todos esses séculos, e assim permanecerá até que todos o tenhamos acolhido. Enquanto isso, contemplamos a imagem da Anunciação com veneração e respeito, buscando o exemplo da atitude anímica adequada para essa recepção.

Carlos Maranhão

Reflexão para o domingo, 29 de novembro

Referente ao perícope Lucas 21, 25-36

Época de Advento

“…e para ficardes de pé perante o Filho do Homem.”

Ficar em pé, não significa simplesmente se levantar e ficar parada/o. Há um preparo anterior. No Ato de Consagração do Homem, temos dois momentos onde toda a comunidade fica “de pé perante”:
Durante o anúncio do perícope (evangelho) e ao receberem a hóstia o vinho e a benção da paz na comunhão. No primeiro momento tentamos nos liberar de nossas inquietações e formar um espaço interno qual cálice que receberá a palavra viva e sanadora do Cristo. No segundo momento, assumimos nossas debilidades e afirmamos nosso compromisso de ligarmo-nos em devoção à revelação divina.
O que almejamos?
A sanação e o fortalecimento de nossa alma. Preparar-se para ouvir a palavra e comungar requer olharmos previamente para as nossas dificuldades, nossas sombras e dispormo-nos a nos levantar e ficar de pé perante os desafios que representam. Todo esforço nessa direção pode parecer imperceptível, mas no futuro se revelará como os primeiros passos para um dia estarmos de pé perante o Filho do Homem.

Viviane Trunkle