Reflexão para o domingo, 11 de abril

Época de Páscoa

Referente ao perícope de João 20, 10-29

“Chega aqui o teu dedo,
e vê as minhas mãos;
chega a tua mão,
e coloca-a no meu lado;
não seja incrédulo
mas tenha fé.“
João 20, 27

Uma ferida provoca dor, e a dor provoca consciência para, muitas vezes, uma parte do nosso corpo que nos é inconsciente. O processo de cura que então se desenvolve é algo maravilhoso. O corpo tem a possibilidade de constituir sua própria integridade. Com o tempo superamos a dor, fecha-se a ferida, o corpo se recompõe. Mas esse processo tem os seus limites. Às vezes o ferimento nos deixa apenas uma cicatriz, mas, se for profundo demais, além da possibilidade de o corpo se recuperar, em casos extremos pode levar até a morte. Mas quando o corpo consegue se recuperar, pode significar para nós mais uma experiência de vida, mais um aprendizado, mais uma possibilidade de amadurecer o nosso ser. Vivenciamos não só os ferimentos em nosso corpo, mas muito mais os ferimentos em nossa alma. No nível anímico, as feridas superadas têm um significado ainda maior para o nosso desenvolvimento. É um conhecimento importante para a nossa vida perceber que não nos desenvolvemos tanto pelas alegrias que passamos, mas muito mais pelos sofrimentos. Aqueles sofrimentos que abalaram o nosso ser, mas perante os quais encontramos esta força maravilhosa de nos reestabelecermos, é o que mais nos ajuda em nosso desenvolvimento. Não somos os mesmos depois de uma crise superada: crescemos interiormente, amadurecemos.
O Cristo Ressurreto, em seu encontro com Tomé, se deixa reconhecer pelas feridas em suas mãos, em seu lado. Tomé toca suas feridas e reconhece-o.
Também nós, muitas vezes, tocamo-nos uns aos outros, em nossas feridas. Isso pode acontecer sem cuidado, com preconceitos e até com alguma má intenção, provocando novamente uma dor. Mas também pode acontecer com carinho, sem julgamento, somente com o impulso de querer reconhecer no outro a sua verdadeira essência, que, em grande parte, é o fruto dos sofrimentos que se passa pela vida.

João F. Torunsky

Reflexão para o domingo, 4 de abril

Época de Páscoa

Referente ao perícope de Marcos 16

No domingo de Páscoa a mulheres se perguntaram, quem removeria a pedra da entrada do túmulo. Só quando chegaram, perceberam que a pedra já não estava mais no seu lugar. Elas entraram no túmulo e procuraram o corpo do crucificado para prepará-lo para o sepulcro. Mas ele não estava mais lá. Em profundo luto, ainda voltadas para o fato da morte, elas não conseguiram entender as palavras do jovem: “Ele não está aqui! Ele ressuscitou!” Em temor e fora de si elas fugiram do túmulo. Só mais tarde Maria foi a primeira a reconhecer o Cristo ressuscitado.
Na época da Paixão talvez tenhamos sentido o nosso coração também como um túmulo. Um túmulo frio e abandonado pelo Espírito, como um lugar de solidão e da morte. Essas experiências foram ampliadas neste ano pela solidão do isolamento social, pela tristeza de não celebrarmos o Ato de Consagração do Homem em conjunto e pela consciência do grande número de mortos em todo o país. Podemos  fazer a mesma pergunta como as mulheres: Quem vai tirar a pedra do nosso coração, do nosso túmulo?
Será que percebemos que a pedra foi removida e que a luz da Páscoa entrou na escuridão do túmulo do nosso coração? Para vivenciar o feito da Páscoa, precisamos olhar em outra direção. Enquanto olharmos somente para o túmulo, a solidão e a morte, não perceberemos que algo se transformou profundamente. Se ficarmos presos ao passado, o futuro não poderá se revelar. No momento em que mudarmos a direção do olhar, perceberemos o Ressuscitado vindo ao nosso encontro. Ele nos chama pelo nosso nome mais profundo, assim como chamou Maria no primeiro Domingo de Páscoa. Iremos reconhecê-lo?

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 28 de março

Domingo de Ramos

Referente ao perícope de Mateus 21

A pergunta mais óbvia do Domingo de Ramos é: “Como as mesmas pessoas que gritaram ‘Hosana!’ No domingo podem se virar e gritar ‘Crucifica-o!’ Na sexta-feira santa?” Os aplausos se transformaram em zombarias e a adoração do Rei se transformou em condenação. Como foi possível isso no transcurso de uma semana?

Todos estavam procurando por algo diferente em Jesus, e muitos estavam desapontados com quem ele realmente era. Eles queriam um Jesus milagroso. Eles provavelmente adoraram o fato de ele ensinar parábolas mais fáceis de entender do que o raciocínio obscuro que ouviram dos fariseus. Eles foram atraídos por ele porque ele era um líder vigoroso e dinâmico. Eles gostaram quando ele colocou os fariseus em seus lugares. Mas de todas as qualidades de Jesus que as multidões amavam, a que mais os atraia era o fato de fazer milagres. As multidões se aglomeraram ao redor dele quando o viram curando os coxos, os cegos e os enfermos. E eles clamavam por mais. E eles devem ter ficado especialmente desapontados nas sete ocasiões no Evangelho de Marcos em que Jesus realizou um milagre e depois lhes disse para não contar a ninguém sobre isso. As multidões queriam um Jesus milagroso, mas ele os desapontou. Quem era Jesus para os fariseus? Eles queriam um Jesus ritualístico. Eles pensavam que a questão mais importante da religião devia ser encontrada, não em como criam ou oravam, mas em como se vestiam, se lavavam e comiam. Mas Jesus os desapontou. Quem foi Jesus para os zelotas? Eles queriam um Jesus militar. Os zelotes eram os nacionalistas radicais que estavam prontos para usar a força, até mesmo o terrorismo, para derrubar a mão opressora do governo romano. O verdadeiro significado da Semana Santa, no entanto, o significado de toda a sua vida, morte e ressurreição, é que ele veio e morreu por nós. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”

Eles não compreendiam o significado da vinda do Cristo e tampouco sua missão, salvar a humanidade do abismo ao qual se dirigia por efeito da queda e do afastamento do Espirito. Agora, dois mil anos depois, o que importa é não só compreender isso, mas sobretudo abrir a alma para recebê-lo e atuar a partir da luz dessa compreensão. Esse é o verdadeiro sentido da festa de ressurreição que se segue apos o seu sacrifício.

Carlos Maranhão

Reflexão para o domingo, 21 de março

Época de Paixão

Referente ao perícope de João 8


Jesus escrevia na terra, enquanto, com insistência, os escribas e fariseus lhe confrontavam com as acusações de adultério cometido por aquela mulher.
O que Ele escrevia?
O texto do Evangelho de João silencia sobre isto.
Podemos imaginar que não se trata de um detalhe sem importância ou de uma atitude de descaso por parte de Jesus em relação aos seus interlocutores. Se Ele quis escrever algo na terra, provavelmente este ato tinha algum significado para Ele.
Mas se alguém escreve na terra, no pó ou na areia, em geral isto é algo efêmero, não pode durar muito…
Neste ponto, podemos começar a nos perguntar, qual teria sido sua intenção ao escrever, e por que escrever na terra?
No final da narrativa ouvimos que Ele não a condena, apenas lhe faz uma advertência:

“… não peques mais!”

Com certeza toda esta situação deve ter ficado profundamente gravada na consciência daquela mulher. Estava na iminência de ser apedrejada e no momento seguinte foi liberada deste castigo, apenas com esta advertência. Tal advertência só faz sentido se o fato que gerou tudo isto não se apagar da sua memória, ou seja, se ficar gravado, registrado na sua consciência. Além disso para não tornar a repetir o mesmo ato, era necessário que algum tipo de mudança e de transformação interna viesse a ocorrer naquela mulher, naquele ser humano, para que, dali para frente, adotasse uma atitude diferente na sua vida.
Cristo parece estar mais preocupado com isto do que com o fato em si e com a necessidade de cumprir a lei.
A lei mosaica era uma lei escrita. No livro do Exodus lemos que Moisés subiu a montanha e retornou com as pedras da lei, onde Deus havia escrito e gravado esta lei.
Isto nos aponta ao aspecto duradouro e imutável que a lei antiga possuía. Até nos dias de hoje, no âmbito jurídico, se fala de “cláusula pétrea” para se referir aqueles artigos da lei que não podem ser mudados: estão como que escritos em pedra.
Os doutores da lei fazem referência a este princípio inflexível, que deve ser cumprido.
Cristo não se contrapõe a isto, mas direciona o foco para a consciência moral de cada um dos ouvintes 

“… quem estiver sem pecado, atire a primeira pedra”

Suas palavras expressam de certo modo sua atitude: se olhamos apenas para a lei pétrea, nada muda, no final sobrará pedra sobre pedra… mas o ser humano não é um ser pétreo, imutável. O ser humano é feito de outro material.
Retomemos então a imagem da criação: o ser humano foi feito do barro da terra, ou seja, algo mole que se deixa plasmar.
Neste âmbito podemos imaginar que quando Cristo escreve na terra ou no pó exterior o que ele escreveu logo iria desaparecer, mas a sua intenção primeira era “escrever” num lugar mais sutil e ao mesmo tempo mais profundo no ser humano. Ele foi capaz de escrever e de tocar o ser humano em seu interior, em sua consciência moral e a partir daí ajudá-lo a tomar novas decisões na vida. Portanto, sua forma de escrever ganha uma dimensão transformadora.
Cristo nos mostra que é possível “escrever” num lugar onde a memória dos fato pode ficar presente (independente dos registros exteriores) e ao mesmo tempo este lugar possui a força e a dinâmica que podem ajudar o ser humano em seu processo de evolução e transformação.
Eis aqui um magnífico (e difícil) exercício que nos pode motivar a inúmeras reflexões neste período do ano em que celebramos a Paixão.



Renato Gomes

Reflexão para o domingo, 14 de março

Época de Paixão
Referente ao perícope de João 6
“A alma humana semelha a água
Do céu descende
Ao céu ascende
E renovada, à terra desce
Eternamente!…”
Em Canto dos espíritos sobre as águas de J.W.Goethe

Após a alimentação dos cinco mil, segue-se a imagem dos discípulos em um barco no mar. “Soprava um vento forte e o mar estava revolto”.
Os discípulos avistam Jesus andando por sobre as águas em sua direção. Qual a reação neste momento? Eles ficam com medo.
E o que ouvem? -“Eu Sou. Não temais”. E todo o medo se dissipa.
Qual o elemento onde se dá esse acontecimento? A água. O elemento que melhor expressa as forças vitais e o movimento da alma humana. Após o corpo estar saciado com o bocado de pão e peixe, é chegado o momento onde os discípulos vivenciarão a verdadeira natureza do Cristo Jesus. Sua natureza espiritual. A que atua na esfera sutil das forças vitais e anímicas. A esta visão não estão totalmente preparados, o vento sopra forte e o mar está revolto. O mar está revolto ou as almas assim estão? A visão do Cristo neste elemento traz consigo o desconhecido e o medo se apossa da alma. Porém, quase ao mesmo tempo ouvem o que possibilita à alma encontrar seu “norte”: “Eu Sou”.
A força do EU permeia as almas revoltas que se apascentam, reconhecem a verdadeira natureza do salvador e o acolhem, podendo assim seguir seu caminho evolutivo: “E de imediato o barco chegou junto da margem para a qual se dirigiam”.
É no silêncio da noite quando navegamos pelo mar de estrelas que nossas almas têm oportunidade de vivenciar encontros espirituais. Como nos preparamos para essa jornada? Damos o tempo necessário para nossa alma se apascentar antes da “navegação” noturna, ou adentramos em um mar revolto? Estamos preparados para ouvir e acolher o “Eu Sou” que nos traz o norte de nossa existência e dissipa os medos acumulados ao longo do dia?
Um singelo preparo para os navegantes: a leitura de um belo poema, ou uma oração, ou um bom pensamento e muita gratidão antes da partida. Ao retornarmos na manhã seguinte, provavelmente não nos lembraremos de nossas vivências, mas nem por isso elas deixam de existir. Ter um caderno ao lado da cama e ao abrir os olhos, anotar as primeiras impressões, ou um sentimento ou um sonho, nos auxilia a trazer cada vez mais para a consciência diurna nosso encontro com aquele que nos norteia.
O eterno “Eu Sou”.
Viviane Trunkle

Reflexão para o domingo, 7 de março

Época da Paixão
Referente ao perícope de Lucas 11, 14-36

“A candeia do corpo é o olho. Sendo, pois, o teu olho simples, também todo o teu corpo será luminoso; mas, se for mau, também o teu corpo será tenebroso. Vê, pois, que a luz que em ti há não sejam trevas. Se, pois, todo o teu corpo é luminoso, não tendo em trevas parte alguma, todo será luminoso, como quando a candeia te ilumina com o seu resplendor.”
Lucas 11, 34-36
Já faz muitos meses que estamos usando máscaras. Isto nos trouxe a experiência de, na rua, nos transportes públicos, nos supermercados, não ver os rostos das pessoas, mas apenas os seus olhos. Perdemos bastante a vivência das fisionomias, mas podemos observar com mais atenção o que vivenciamos quando vemos os olhos de uma pessoa. Vemos as sobrancelhas, as pálpebras, as pestanas, a forma dos olhos, a íris colorida. Mas de tudo aquilo que podemos ver nos olhos, o mais enigmático são as pupilas. Na própria pupila, em si, não vemos nada; ela é um ponto de escuridão. E exatamente neste nada, na escuridão da pupila, é que temos a vivência de encontrar o outro no seu próprio íntimo. Talvez seja esta a dificuldade que temos ao nos olharmos por muito tempo, um na pupila do outro: a intimidade se torna demasiada. E quão diferente pode ser um olhar: carinhoso, compreensivo, com compaixão, amoroso, ou irritado, magoado, mentiroso, irado, ameaçante, amedrontado. Às vezes podemos sentir como, de um olhar, flui luz e calor, às vezes escuridão e frio. A pupila talvez seja o ponto em que podemos estar mais próximos de vivenciar o eu do outro. Para o mundo sensorial a escuridão é um nada. Mas é o ponto onde revelamos se o nosso coração está repleto de luz e calor, ou se estamos correndo o risco de nos preenchermos de escuridão e frio. A luz do mundo entra pelos nossos olhos e nos deixa percebê-la. A luz do nosso coração emana de nossos olhos e determina o modo como olhamos para o mundo e nos permite impregnar o mundo com o calor do nosso amor.
João F. Torunsky

Reflexão para o domingo, 28 de fevereiro

Época de Trindade

Referente ao perícope de Mateus 17, 1-9

De um papel aquarelado podemos fazer uma lanterna. Ao passarmos óleo no papel, ele ficará translúcido. Através do óleo, o papel da lanterna passa por uma metamorfose ficando mais permeável à luz. Colocamos uma vela no interior da lanterna e a luz pode irradiar.
E a nossa luz interna, brilha ou está presa dentro de nós? Certamento nem sempre a deixamos brilhar para o mundo. Muitas vezes não estamos permeáveis à luz. Não deixamos a luz do mundo entrar nem deixamos a nossa luz interna sair.
Como o óleo no papel, a compaixão e o amor podem causar uma metamorfose. Eles podem nos abrir para o outro ser humano e para o mundo. Eles nos fazem permeáveis para a nossa luz interna e para a luz do mundo. Através dessas qualidades o nosso ser eterno pode começar a brilhar e a se manifestar aqui na Terra. A nossa tarefa é trazê-lo cada vez mais para o nosso dia a dia por meio da compaixão e do amor. Pouco a pouco podemos fazê-lo brilhar através de todas as nossas atividades.

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 21 de fevereiro

Época de Trindade

Referente ao perícope de Mateus 4, 1-11

Percebemos que a primeira tentação de Cristo tem a ver com o corpo físico, não apenas a alimentação mas também tudo que está relacionado com nosso corpo, tudo que absorvemos das substâncias da Terra e que compõe nosso corpo. Um fluxo contínuo e constante de absorção e eliminação. Mas nos limitarmos a viver em função desse processo seria terrível. “O homem não vive só de pão, mas de cada palavra que sai da boca de Deus.”

A segunda tentação no templo da Cidade Santa testa a fé em Deus, a confiança de Jesus em Deus e nossa fé. Que Jesus se lance deste templo bem alto porque anjos, enviados por Deus, viriam em seu socorro. Deus o salvará da morte certa se você acreditar que é o Filho de Deus. Mas Jesus não precisa de um milagre, ele não precisa de uma situação de risco de vida para provar que é o Filho de Deus. Ele simplesmente responde: “Você não deve colocar o Senhor seu Deus à prova.” Nós também gostaríamos de ter um milagre de vez em quando. Isso dissiparia as dúvidas e desconfianças que às vezes sentimos em nós mesmos. Mas os verdadeiros milagres de Deus são revestidos de fatos muito simples de nossos semelhantes. Ele o faz por meio de pessoas, por meio de forças muito naturais. Não podemos esperar que um dia o céu se abra e uma figura nos diga que caminho seguir e para onde esse caminho nos levará. Podemos reconhecer milagres nas coisas mais simples da vida, sem necessidade de espetáculos, como se quiséssemos colocar Deus à prova.

A terceira tentação tem a ver com a oferta de que todos os reinos da Terra pertencem a Jesus. Mas ele não necessita adorar o Diabo, pois ele já os tem pelo poder do Deus Pai. Mas Jesus não pensa duas vezes antes de dispensar o diabo. “Porque nas Escrituras está escrito: Diante do Senhor seu Deus você se prostrará e só a ele você servirá.” A quem nos submetemos? Quem adoramos para obter algum poder? E ainda mais importante é a pergunta: o que fazemos com o poder que temos? O poder nos é dado por Deus pelo simples fato de sermos filhos dele. Esse reconhecimento basta para percebermos que não necessitamos negociar com o príncipe deste mundo sobre o que já nos é dado por direito e herança de nascimento.

Carlos Maranhão

Reflexão para o domingo, 14 de fevereiro

Época de Trindade

Referente ao perícope de Lucas 18, 18-30

No diálogo com Jesus, o homem rico lhe responde que tudo o que o mestre, a partir dos mandamentos da lei judaica, lhe indica, ele tem observado desde sua mocidade. O diálogo poderia ter terminado aqui e o homem rico poderia ter ido satisfeito e em paz para casa, pois viu confirmados por Jesus seu esforço e dedicação religiosos. Tratava-se de um homem religioso que com certeza cumpria com dedicação os preceitos sagrados de seu povo. Mas ele queria mais…

Para aquele ser humano parecia não ser suficiente o esforço que realizava, nitidamente faltava-lhe algo. Justamente este sentimento de insuficiência, de não estar fazendo ainda o suficiente, de perceber que pode fazer mais, que pode ir além do limite que lhe foi inicialmente pedido, ecoava em sua alma. Esta percepção interna, provavelmente foi o que motivou Jesus a lhe aconselhar para “ir além”:

“…vende tudo o que tens, dá-o aos pobres; então vem e segue-me.”

Esta narrativa de Lucas (que também aparece em Mateus 19, 16-22 e em Marcos 10, 17-27) traz-nos à consciência muitas reflexões. Entre elas poderíamos citar: a força e o poder da pergunta. Quando perguntamos algo, devemos estar minimamente preparados para as novas e talvez surpreendentes perspectivas com as quais a resposta pode nos confrontar. Aqui trata-se de uma pergunta referente ao desenvolvimento interior. Estamos fazendo o suficiente? Estamos nos exercitando neste desenvolvimento a ponto de dizer-nos: agora é suficiente! Com certeza, sempre podemos ir além, mas isto exige novos esforços, novos desafios. Podemos nos acomodar com os sucessos alcançados e achar que o que fizemos nos basta. Então não precisamos nos preocupar em “ir além”… Mas às vezes surge na alma a percepção da própria insuficiência!

Esta percepção é o primeiro passo para querer avançar. Se não estamos satisfeitos com o que já conquistamos no trabalho interior, então podemos começar a pensar e refletir, sobre o que se pode fazer para alcançar novos patamares. Neste sentido Cristo faz alusão à riqueza, que aqui pode ser entendida num sentido amplo, pois riqueza é muitas vezes sinônimo de abundância, de possuir muitas coisas, não apenas bens materiais, mas também conhecimentos, prestígio, fama… Toda riqueza tem a tendência de nos fixar à ela. As riquezas (materiais ou imateriais) exigem cuidado e atenção. Exigem também que nos ocupemos e preocupemos com ela. Neste sentido tais riquezas podem vir a se tornar um lastro que trava ou dificulta avançar, seja na direção que for. Cristo exorta o jovem rico:

“vende tudo e dá-o aos pobres”

Ou seja, vender algo é colocá-lo de volta no fluxo das mercadorias. Num sentido figurado, Cristo também pede aquele homem que deixe sua riqueza circular (De que vale riquezas trancadas em cofres ou acumuladas no interior da alma, se não podem servir e beneficiar a outros?). Pede ainda que as entregue aos pobres, também aqui podemos entender pobres em diferentes aspectos: pobre é todo aquele que necessita receber algo deste rico potencial, que até aquele momento se encontrava estagnado na vida daquele homem. Segue-se a última exortação:

“Vem e segue-me!”

Uma vez liberado daquilo que, de certo modo, travava ou impedia seu desenvolvimento interior, aquele homem estaria então em condições de seguir em frente, “ir além”. Mas seguir a Cristo significa muitas vezes, passar pelo “buraco da agulha”. Não é tarefa simples!

O Evangelho nos deixa em aberto, qual foi a decisão daquele homem. Aqui também vale a reflexão de que uma decisão como esta só pode nascer em foro íntimo. Não pode ser imposta por outrem ou tomada para cumprir um papel social.

O homem trouxe a pergunta, reconheceu no diálogo que o que fazia até então não era, para ele, o suficiente. Percebeu ainda que a partir da sua pergunta, uma nova perspectiva se abriu, que poderia lhe permitir “ir além”. Neste sentido, esta passagem do Evangelho contém algo válido e atual para todos nós, quando aprendemos a formular perguntas verdadeiras e estamos dispostos a ouvir com seriedade as respostas.

Renato Gomes

Reflexão para o domingo, 7 de fevereiro

Época intermediária

Referente ao perícope de Mateus 20, 1-16

Ao lermos esta parábola, talvez em um primeiro momento ressalte-nos o tema da justiça. Ou, no caso, da injustiça para com aqueles que trabalharam o dia inteiro.

Frequentemente cabe observar em qual contexto uma parábola está inserida. O que ocorreu antes e o que acontece logo em seguida?

A parábola está envolta pelo encontro do jovem rico com o Cristo e a reação de seus discípulos (Mt 19, 16-30) e pelo terceiro anúncio da Paixão, o pedido dos filhos de Zebedeu e os cegos de Jericó (Mt 20, 17-34).

Para muito além da justiça terrena, uma das possibilidades de interpretação é o caminho a ser trilhado pela individualidade humana rumo à evolução espiritual, à sua iniciação no espírito. De encontro a essa atitude de vida humana, o mundo espiritual trilha seu caminho à Terra para nos acolher e apoiar.

A tarefa de reconhecermos a necessidade de transformação, metamorfose e evolução até pode ser conquistada em conjunto, mas o trilhar o caminho cabe a cada um de nós em consonância com nosso ser superior. Em diálogo constante com os mundos espirituais. Tarefa árdua que se apresentaria impossível ao ser humano caso o mundo espiritual não viesse ao nosso encontro.

“…mas a Deus tudo é possível”.

Mt 19, 26

“O reino dos céus assemelha-se a…”

Mt 20, 1

Não cabe a nós julgarmos o que o outro deve receber ou não. Por mais que em muitos momentos da vida nos julguemos aptos para tal, isso somente atesta nossa soberba e prepotência.

Falamos aqui do que receberemos em espírito e quanto a isso ouvimos do reino dos céus: “Me é permitido fazer o que quero com aquilo que é meu.”

Há um desígnio traçado pelo mundo espiritual para cada um de nós. Reconhecê-lo e colocar-se a serviço do Cristo que atua como o guia que nos conduz às alturas espirituais traz consigo a tarefa de concebermo-nos como criaturas do Criador. Traz consigo abrirmos os braços, em liberdade, para sermos pregados à cruz. Traz consigo gritarmos cada vez mais alto por misericórdia para que nossos olhos espirituais finalmente se abram. Nos tempos atuais estamos cada vez mais necessitados da misericórdia divina. Esperancemos que Jesus se condoa de nós, e toque nossos olhos.

Faz-se urgente estarmos vigilantes para esse toque, pois esse será o sinal para cada um de nós: “Levanta-te e segue-me”.

Viviane Trunkle