Referente à perícope da Apocalipse de João 3, 1-6

Miniatura mozárabe – João entrega uma carta para o anjo de uma comunidade
Com o advento começará o próximo ano cristão, mas justamente na época do ano em que nos dedicamos à memória dos falecidos e que finalizamos o ciclo do ano cristão, se nos abrem as imagens e palavras do último livro do Novo Testamento, do Apocalipse, da revelação a João.
Na leitura do último domingo, do primeiro capítulo pudemos vivenciar a realidade do Filho do Homem atuando entre os sete candelabros. Jesus Cristo está atuando entre nós, nas comunidades cuja luz do conhecimento espiritual se mantém viva, agregando várias pessoas diante do altar. Isso significa consolo, cura, fortalecimento e superação para que o ser humano se torne apto a colaborar na obra do Filho.
O Filho do Homem atende à humanidade em crise por meio de João, que leva suas mensagens, suas cartas, para as sete comunidades. Cada uma das cartas tem a mesma estrutura. Primeiro, Jesus Cristo fala especificamente para cada comunidade através de um de seus atributos como Filho do Homem, como vivenciado no primeiro capítulo. Depois, o Filho do Homem aponta para as fraquezas e as faltas, para então apelar para a intenção da alma humana de querer superá-las.
Cada comunidade, representada por seu respectivo anjo, abarca apenas uma das qualidades do Filho do Homem. Mesmo assim, cada uma delas ainda está longe de poder exercer essa qualidade plenamente. Uma oitava comunidade seria do mesmo tipo que uma das sete e todas juntas abarcariam a natureza divina do Filho do Homem, a meta a ser alcançada pela humanidade.
No passado, muitas comunidades e culturas puderam desenvolver qualidades espirituais da consciência humana. Atualmente, temos a tarefa de conquistar novas faculdades espirituais e ainda outras no futuro. Segundo a antroposofia, a comunidade de Sardes representa a nossa época cultural.
Jesus Cristo fala com a comunidade de Sardes – e com certeza pode ser ouvido – como aquele que tem o poder sobre os sete espíritos criadores e sobre as sete estrelas. Essa também é uma qualidade do ser humano moderno, que é capaz de elevar a consciência, o conhecimento espiritual, para poder agir no mesmo sentido de luz e vida, como os espíritos criadores e os seres hierárquicos que querem apoiar a humanidade.
No entanto, são muitos os empecilhos para tal. Todo o sentido da nossa civilização e do pensamento moderno está em criar melhores condições exteriores de vida, através dos recursos naturais do planeta e da técnica moderna. Disso somos muito orgulhosos. No entanto, nos surpreenderíamos muito ao constatar que todas essas assombrosas realizações técnicas hoje, tendo muito sentido para nossa vida terrena, não têm nenhuma repercussão para o futuro e para a meta da humanidade.
Assim fala o anjo: eu percebo o que fazes, tens o nome de um ser vivo, mas estás morto. Realmente, não é à toa, que o planeta Terra se encontra num processo acelerado de morte, assim como muitas espécies nos reinos da natureza, das plantas e dos animais.
No entanto, Jesus Cristo apela para a força interior, que ele concedeu pela sua ressurreição à humanidade. Essa força se encontra adormecida na nossa alma e no nosso coração. Podemos despertá-la quando alçamos os nossos olhos para a realidade do Jesus Cristo ressuscitado. Esta é a hora de fazê-lo; se não o fizermos estaremos rompendo com todos os laços de vida que nos unem.
O sono do materialismo que nos domina é muitas vezes tão pesado, que apenas grandes catástrofes da natureza e/ou entre os povos conseguem nos despertar. É dura a tarefa de superação, é árduo o caminho de revivificação dos pensamentos. No entanto, todo esforço trará seu fruto e juntos em Cristo o impossível poderá se realizar.
Helena Otterspeer