Reflexão para o domingo, 23 de novembro

Referente à perícope do Apocalipse de João 22, 12-21

No artigo “Ich bin, was fehlt” (Eu sou o que falta), publicado na revista Das Goetheanum em 11 de novembro de 2025, Andreas Laudert descreve poeticamente o contraste entre a intensidade de uma grande cidade e a serenidade de uma cidade no campo, mostrando que, independentemente do lugar, o que realmente falta é a atitude com que cada um de nós responde às circunstâncias.
Nós também podemos perceber esse contraste em nossas vivências entre a grande cidade e a vida no interior. Muitos de nós carregamos a experiência da neblina interior: o cansaço das filas, o metrô lotado, a chuva que atrasa tudo, o barulho constante. Depois, ao chegar ao interior, com seu vento limpo, suas colinas, seu ritmo mais lento, surge a resposta à nossa nostalgia profunda de silêncio, de natureza, de nós mesmos. Mas, nem a cidade é o problema, nem o campo é a solução. O que nos falta não está no lugar. Está em nós. Por isso o Apocalipse diz: “Bem-aventurados os que lavam suas vestes.” Não para voltar ao paraíso perdido, mas para seguir adiante, para a nova Jerusalém que ninguém ainda viu, mas que começa no coração desperto. A verdade é dura e libertadora: Não podemos voltar atrás. Precisamos aprender a amar o mundo como ele é: o trânsito da grande cidade às 18h, a fila do terminal, o cheiro de chuva no concreto e também o silêncio do campo, o canto dos pássaros, o céu de um lugar sem luz artificial. Cristo não espera que fujamos da cidade. Ele quer acender sua luz nela. Entre carros, prazos, celulares, buzinas, ali mesmo começa a revelação. E ela começa pequena: uma palavra de boa vontade, um olhar atento, um gesto generoso. É assim que o mundo se transforma. Não por planos grandiosos, mas por atenção e presença. E, então, surge a frase que resume tudo: Eu sou o que falta. Eu sou o que falta para que a compaixão exista. Eu sou o que falta para que a cidade seja habitável. Eu sou o que falta para que o campo seja encontro e não fuga. Eu sou o que falta para que o Cristo que vem encontre espaço. Que o Cristo desperte em nós o coração capaz de ver, amar e transformar, até que, em cada lugar, cidade ou interior, possamos dizer com verdade:“Eu sou o que falta.”

Carlos Maranhão