Referente à perícope do Evangelho de Lucas 10, 1-20 e 38-42

Jan Vermeer van Delft – Marta e Maria Magdalena com Cristo
No hemisfério Norte, estamos na época da colheita. No Brasil, a colheita se distribui em diferentes períodos do ano, conforme os frutos da Terra. Quando ela começa, tudo deve ser feito para que seja realizada a tempo e devidamente armazenada. Isso requer muito trabalho, dedicação coletiva e cuidado. Sol, vento e chuva – o clima em geral – fizeram a sua parte desde o começo do ciclo da vida vegetal. Agora, cabe às pessoas tornar a colheita disponível no resto do ano. A colheita se torna alimento, vida para os seres humanos.
Num sentido figurado, também nos encontramos hoje na época da colheita. Muito foi realizado pelo mundo espiritual nos milênios passados até que o ser humano fosse dotado de um Eu; assim, conscientemente, em comunidade com os seres divinos, pudesse tomar o desenvolvimento futuro nas suas próprias mãos.
Essa colheita da humanidade, a colheita do Eu, é empreendida pelo mundo divino. Para isso, Jesus Cristo veio à Terra, formou a comunidade dos 12 discípulos e os enviou como trabalhadores da colheita ao mundo. Eles trouxeram a palavra do Evangelho aos seres humanos e colheram o que ecoava nas suas almas, nos seus pensamentos, sentimentos e impulsos da vontade. Colheram isso como num cálice a ser oferecido e transformado por Cristo.
Caindo essa colheita da humanidade nas mãos de Deus, ela se transformará, com o tempo, em fé, em disposição para se empenhar, para se sacrificar, se necessário; enfim, se transformará em consciência espiritual na vivência da verdade. Afinal, o próprio Cristo começa a viver na alma humana.
Que maravilhosa imagem desse divino trabalho de colheita podemos ver quando Cristo é recebido na casa das irmãs Marta e Maria Magdalena. Marta, através de seu afinco trabalho, cria as condições para que Cristo possa falar e ser ouvido por Maria Magdalena, sentada aos seus pés. A palavra divina cai na alma humana e a fecunda com o espírito.
O trabalho da colheita divina continua na humanidade dentro do ritmo da “Vita Aktiva” e da “Vita Contemplativa”, como eram conhecidas na Idade Média, ou segundo as regras monásticas do “Ora et Labora”, ou seja, “ore e trabalhe”. A ordem cisterciense, por exemplo, cristianizou o solo da Europa, orando e trabalhando na agricultura e em muitos artesanatos nessa interação alternada com Cristo.
Nosso mundo, completamente mecanizado e acelerado, tornou-se uma ameaça para esse ritmo saudável. Muitos não conseguem se colocar ao pé de Cristo, em silêncio e introspecção, para acolher sua palavra. O ser humano vem se exaurindo nas tarefas mundanas, sua alma vem minguando, a ordem climática, social e mundial se caotizando.
Devemos nos tornar firmes e incorporar o ritmo saudável de vida com o mundo divino para oferecer em gratidão os frutos da nossa alma para a realização da obra divina, para a paz universal.
Helena Otterspeer