Reflexão para o domingo, 29 de setembro de 2024

Referente à perícope do Evangelho de Mateus 22, 1-14

“O reino dos céus é como…” Essa grande parábola tem duas partes principais. Na primeira, os mensageiros do rei chamam os convidados para a festa, mas não são ouvidos.
Na segunda parte, o rei percebe que um dos convidados não está vestido com traje de festa. Ele é amarrado e lançado para fora da festa.
Surgem duas perguntas. Estamos abertos para ouvir os mensageiros dos céus? Conseguiremos vestir o traje de festa?
Para ouvir o chamado, precisamos estar abertos para ele. Isso será difícil enquanto estamos presos ao nosso dia a dia. Podemos desenvolver esse ouvir interno em momentos de silêncio, de oração e de reflexão.
Podemos ver o nosso corpo, a nossa alma e a nossa individualidade como a “roupa” do nosso ser eterno. Através dos desafios e crises da vida precisamos desenvolvê-los. Nesse caminho de desenvolvimentos, os nossos corpos se transformam pouco a pouco em um traje de festa para a grande festa de casamento nos céus.

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 22 de setembro de 2024

Lucas 7 – O jovem de Naim

Referente à perícope do Evangelho de Lucas 7

As imagens do Evangelho têm uma validade que ultrapassa as circunstâncias de espaço e tempo de um só acontecimento da virada dos tempos.

O que poderia ser uma melhor imagem para a colheita final do desenvolvimento de toda a Terra do que aquilo que sai do portão de uma cidade em direção ao mundo? A cidade sendo a representante da Terra configurada pela humanidade, pela sua civilização. A Terra, a grande mãe, a que alimenta, que cuida, que partilha o destino e dá à luz o Filho. A humanidade rompeu sua conexão com a natureza, com o divino, tomando seu próprio rumo. Rompeu sua conexão com as forças da vida. Está ameaçada de morte, ou seja, a morte irreversível da alma humana.

É isso que anuncia o cortejo fúnebre saindo da cidade, da nossa civilização. O lamento da viúva pela morte do filho, pela perda do espírito criador divino, é ouvido por muitos hoje. A morte do espírito reflete-se no domínio unilateral da tecnologia, da indústria e do comércio sobre todos os outros interesses dos povos. A morte do espírito é evidente na destruição da natureza que abrange toda a Terra. A Terra chora… A alma humana presa na matéria chora…

Nesse quadro dramático, vemos como vindo de um futuro prometedor, Jesus Cristo. Ele vem ao encontro do cortejo fúnebre com a comunidade de seus discípulos, sentindo grande compaixão pela viúva, pela humanidade abandonada pelo Espírito, pela Terra exaurida das fontes de vida. Ele e seus discípulos param. Ele toca o caixão e fala: “Levanta-te“ e o jovem se levanta e começa a falar. O jovem “Eu da humanidade“ assume a meta da sua evolução e passa a colaborar, a atuar junto com o Verbo divino criador, vivificando o mundo e vencendo as forças da morte, que ameaçam a existência de sua alma.

Isso aconteceu em Naim, que significa “belo”, “adorável“ e também “prados verdes”.

A partir do momento em que, depois da morte na cruz, o corpo de Jesus Cristo tocou o túmulo da Terra até seu âmago mais profundo e foi completamente absorvido por ela, e também mesmo até ao final dos tempos, todo aquele que parar para vislumbrar o Cristo poderá ouvir o seu clamor! Então poderá se erguer vencendo as forças da morte, das trevas e do ódio, conectando-se ao espírito para transformar as paisagens desoladas da Terra e da alma humana em prados verdejantes. E a notícia disso se espalhará por toda parte e o que foi esquecido poderá novamente acontecer, ou seja, honrar e louvar a Deus, viver na certeza de que Deus vive entre nós e nós somos o seu povo.

Helena Otterspeer

Reflexão para o domingo, 15 de setembro de 2024

Referente à perícope do Evangelho de Mateus 6, 25-34

Não vos preocupeis com a vossa vida!

É possível não se preocupar com a própria vida?

Tal atitude não seria irresponsável?

No texto original grego, no lugar da palavra “preocupação”, há um termo cuja origem significa “dividir”, “separar uma parte da totalidade”.

Portanto poderíamos também dizer:

Não deixai que uma parte de vossa alma seja separada da totalidade do vosso ser. Permanecei inteiros, não deixeis que vossos pensamentos e vossas preocupações façam com que uma parte de vós se separe da totalidade da vida!

Nesta exortação, não se quer dizer que o ser humano não deva pensar em sua vida, ou que ele não busque ativamente fazer o que é necessário para suas necessidades.

Nesta exortação se trata de perceber que a inquietação, os medos ou os pensamentos que nos atormentam – que muitas vezes chamamos de preocupações – em geral não ajudam muito. Pelo contrário, em tais casos nossa consciência fica presa no problema e nas preocupações. Isso pode chegar a tal ponto que uma parte de nossa vida interior fica tão envolvida nos problemas e nas preocupações que tende a se separar do resto da vida. Tais preocupações e inquietações tendem a ganhar uma dinâmica própria. Elas sugam nossa atenção. Elas drenam nossas forças e nos fecham para a vida.

Cristo dirige o nosso olhar para a natureza!

Olhai os pássaros do céu!

Olhai os lírios do campo!

Não há ajuda quando nos deixarmos levar pelas preocupações.

É muito mais importante ampliar nossa visão, abril o olhar interessado para o mundo à nossa volta. O primeiro passo é liberar-nos da prisão das preocupações. Em seguida buscamos retornar à vida, à totalidade de nossas vidas, fazendo com que nossa consciência e nossos pensamentos não girem mais o tempo todo em torno de tais preocupações. Um olhar alegre e sereno para natureza pode ser de grande ajuda. Lá, na natureza, há algo que se ocupa de cada detalhe.

O Deus-Pai se ocupa de suas criaturas. Ele se preocupa por todas elas.

Também nós, seres humanos, podemos participar dessa força provedora e cuidadora. Mas isto só é possível se estivermos totalmente imersos na vida, se não permitirmos que nosso ser interior se divida por causa de medos e preocupações.

Todo ser vivo é uma totalidade em si mesmo e forma um organismo inteiro.

Somente assim – inteiro, sem se deixar dividir – ele faz parte da vida e as forças divinas lhe sustentam e lhe outorgam o que precisa para viver.

Renato Gomes – Berlim

Reflexão para o domingo, 8 de setembro de 2024

Referente à perícope do Evangelho de Lucas 10, 1-20

O envio dos 72 no Evangelho de Lucas nos faz pensar a princípio no significado desse número. Sendo 72 múltiplo de 12, isso nos remete a ideia de que depois do envio dos primeiros discípulos, esses se multiplicam. Se pensarmos na continuidade dessa multiplicação, podemos dizer que hoje todos nós somos enviados. Mas a que circunstâncias somos enviados? Não necessariamente como andarilhos em cidades desconhecidas, mas justamente às próprias circunstâncias de nossas vidas.

Assim como árvore, ao nascermos, somos plantados no solo de nossas famílias, inseridos em nossas circunstâncias, pertencentes a um meio social que nos nutre, molda nossa existência, mas do qual, mais cedo ou mais tarde necessitamos nos libertar e, paradoxalmente, continuar a pertencer. Cada um de nós, como árvore, tem uma missão: crescer e florescer, levando vida ao nosso redor, e recebendo vida do nosso redor e do céu. Ao transpor a imagem do envio dos 72 no Evangelho de Lucas para nossas vidas, percebemos que, ao nos enraizarmos em nossa família e comunidade, estamos sendo enviados por Cristo a sermos sinais vivos de sua presença. Nossas raízes devem se aprofundar no amor, nossa sombra deve oferecer acolhimento, e nossos frutos devem nutrir aqueles que nos cercam.

O paradoxo se dá pelo fato de que embora essa seja a missão de cada um de nós, ela deve, ao mesmo tempo, ser livre. É em liberdade que escolhemos servir aos nossos irmãos. Ninguém pode nos obrigar a amar. Amor por obediência não é amor. Daí a metáfora da árvore já não mais nos serve. No entanto, jamais cumpriremos a missão de nos tornarmos verdadeiramente seres humanos se não realizarmos essa missão. Por mais que nos afastemos da missão do envio, mais cedo ou mais tarde, como filhos pródigos teremos que voltar. Mas nessa circunstância já teremos conquistado nossa liberdade.

Que possamos então nos ver como árvores plantadas por Cristo, crescendo e florescendo onde fomos colocados. Vamos estender nossos ramos, oferecendo abrigo, paz e frutos a todos que encontrarmos em nosso caminho, e assim, cumprir com alegria o chamado de sermos enviados por Ele ao mundo, mas o façamos livremente.

Carlos Maranhão

Reflexão para o domingo, 1° de setembro de 2024

Referente à perícope do Evangelho de Lucas 17, 20-37

O Evangelho nos conta de momentos decisivos da humanidade. Ele relata como as pessoas não estavam preparadas e não percebiam os sinais que os anunciavam. Elas estavam presas no seu dia a dia e não tinham a presença de espírito para atuar.

Como percebemos os sinais que anunciam os momentos decisivos? Precisamos olhar atentos para o mundo. O que ele quer nos mostrar? Quais sinais percebemos? Como atuarmos conforme as necessidades da situação?

É muito difícil fazer tais observações quando estamos na correria do nosso dia a dia. Precisamos criar pequenos momentos de observação e reflexão. Neles fica mais fácil percebemos os sinais do mundo e como deveríamos agir.

Nesses momentos podemos observar também o atuar do mundo espiritual. Ele está presente nos momentos decisivos da nossa vida e da humanidade. Estaremos atentos e preparados para atuar em conjunto com ele?

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 25 de agosto

Referente à perícope do Evangelho de Marcos 7, 31-36

Uma semente de maçã, ao germinar, torna-se uma macieira. A ordem da vida estaria abalada se essa semente não germinasse e do germe não se desenvolvesse uma macieira.
A ordem do mundo também estaria abalada se o Verbo Divino, tendo se feito carne e habitado em Jesus, não pudesse ser revelado num outro ser humano.
O surdo de nascença, sem as técnicas de aprendizado modernas e sem a linguagem gestual, nunca poderia ser o portador da palavra, nunca poderia se tornar um verdadeiro homem. Quando Jesus Cristo se aproxima da região de Tiro, a própria comunidade de vida do surdo-mudo o leva ao Verbo encarnado. A sua condição de vida abala toda a comunidade, que busca uma solução, uma cura. Não consiste a condição humana no desenvolvimento de qualidades para se tornar o portador do Verbo Divino no seu cerne interior, no seu Eu? Para isso, o ser humano tem que desenvolver o sentido para poder perceber a atuação da palavra divina no mundo, para ouvi-la e então poder anuncia-la.
Já no Paraíso, Adão e Eva ouviam as palavras divinas. Ao comerem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, algo próprio se misturou às suas percepções puras, ou seja, seus pensamentos e representações mentais pessoais. Com o advento do materialismo o “ruído“ mental causado pelos pensamentos materialistas na alma impossibilitam a percepção da atuação divina no mundo, da atuação do Verbo Divino. O ser humano moderno se tornou “surdo“ para perceber a palavra divina.
Só o encontro com o próprio Verbo Divino poderá reverter essa condição trágica.
Jesus Cristo conduz o surdo-mudo para um lugar à parte. Para as pessoas da época isso significava um processo de vivência da própria individualidade. Seus sentidos interiores começam a se abrir para essa experiência única. Jesus Cristo, ao tocar os ouvidos e a língua do surdo-mudo com a sua saliva, supera as barreiras de isolamento da percepção pelo tato que traz por um lado uma consciência da doença no surdo, por outro, uma experiência do que poderia ser a cura, ou seja, vivência da força primordial da criação no seu Eu Sou, a vivência do Cristo em si. Nesse momento, Jesus Cristo profere a palavra curadora: “abre-te“! E essa palavra cai na alma como uma semente de vida. A força divina dos céus jorra para a Terra e impregna o surdo com forças curativas! Imediatamente ele consegue falar perfeitamente.
Hoje as palavras dos meios de comunicação se espalham por todo mundo como replicadas automaticamente. No entanto, estamos surdos para ouvir a palavra divina, para ouvir a palavra do Evangelho com os sentidos da alma, não encontramos as fontes de cura e de paz.
Nos sacramentos Jesus Cristo nos leva a um lugar à parte, somos tocados de várias maneiras e podemos ter um encontro íntimo com Ele. Ele abre os nossos sentidos para o Espírito, Ele nos torna portadores da sua Palavra, da sua Vida. E hoje não podemos cansar de anunciar isso com muita alegria e dinâmica, em atos e palavras.

Helena Otterspeer

Reflexão para domingo, 18 de agosto de 2024

Referente o Evangelho de Lucas 18,35-43

Havia um cego à beira do caminho, que clamava por COMPAIXÃO!

Pedir “com-paixão” significa que esperamos que o outro sinta algo da nossa própria paixão”, do nosso próprio padecimento. Podemos pedir isto a alguém? Podemos pedir isto a Cristo?

O cego à beira do caminho pediu, insistiu, clamou mais alto até ser ouvido…

É um consolo para todos nós sabermos que Cristo ouve nossa voz e se interessa
pelo nosso sofrimento, pela nossa dor, e Ele o faz porque tem com-paixão pelo ser humano e quer ajudá-lo. Entretanto, é importante não esperar tudo passivamente.  Como o cego,
temos que ter a presença de espírito para perceber o que “passa” pelos
caminhos de nossas vidas; não deixar passar as oportunidades!

E então pode vir a pergunta: “… que queres que eu te faça?”

Não basta esperar que as forças divinas apenas olhem e sintam nosso padecimento ou nossos problemas e então tudo vai se resolver! Nós mesmos temos que ter clareza do que queremos.

Quantas vezes cultivamos nossas dores, gostamos de certos sofrimentos ou até nos sentimos bem sendo vítimas disto ou daquilo.

 
Por que o cego pedia com-paixão? Com certeza porque queria terminar com sua cegueira, queria experimentar, *ver*, a vida de maneira nova.

Ele não teve dúvida em responder: “… Senhor, que eu veja!”

Em todo processo de cura estes dois lados devem estar presentes: a vontade

de curar e a vontade de ser curado.  Cristo, aqu’Ele que traz ao mundo a força sanadora, é capaz de sentir a dor humana, mas só pode agir se desta dor nasce a vontade de transformar algo. Cristo sempre respeita a liberdade do homem.

“… e o cego começou a enxergar e seguia Jesus.”

O que vem depois?

O Evangelho não relata. Apenas se diz que aquele homem começou a seguir Jesus. Se prosseguirmos a leitura dos Evangelhos, veremos que Jesus ao passar por Jericó estava indo em direção a Jerusalém.

Ao chegar lá, podemos ler nos capítulos seguintes, têm início os acontecimentos da Semana Santa, a última semana de vida de Jesus, que culminam com sua morte na cruz.

Aquele homem, aquele ex-cego, desde então, seguia Jesus. Poderíamos imaginar que ele foi um dos muitos que o acompanharam até Jerusalém. O que ele viu lá, agora que podia enxergar?  A *paixão* daqu’Ele que o havia curado.

O cego iniciou pedindo compaixão e, de repente, depois de curado, ele mesmo é levado a presenciar o sofrimento do outro. Teria ele sentido COMPAIXÃO por Jesus?

Os evangelhos silenciam sobre isto…

Podemos, porém, refletir sobre nós mesmos. Quanto do que queremos ou desejamos mudar em nossas vidas – porque nos é incômodo ou doloroso – chegou a acontecer? Mas se chegou a acontecer, nos possibilitou ver as coisas de um modo bem distinto. O que fazemos depois de tais mudanças, ou mesmo depois de tais “curas”, depende em grande parte de nosso livre arbítrio.

Aqui, mais uma vez, o relato do cego de Jericó poderia nos levar à reflexão: ao pedir ao mundo espiritual que olhe para a nossa vida sofrida, temos a esperança de receber a força para mudar algo, mas, simultaneamente, teremos também a possibilidade de enxergar a dor e o sofrimento do outro e do mundo de maneira nova.

Quem clama por compaixão, merece recebê-la, mas estará também disposto a retribuir este olhar compassivo para o próximo?

Renato Gomes – Berlim, Havelhöhe

Reflexão para o domingo, 11 de agosto de 2024

Referente à perícope do Evangelho de Lucas 9, 1-17

Somos enviados como os discípulos. Enviados do mundo espiritual para a Terra. E como eles, não podemos levar nada. Mas, diferentemente deles, não nos lembramos da nossa meta de vida, da nossa tarefa aqui na Terra.

Durante a via terrena moramos na casa do nosso corpo. Ele nos dá a possibilidade de atuar no mundo. No momento da morte saímos dessa casa novamente.

Para que somos enviados para a Terra?

O envio dos discípulos nos dá uma indicação. Como eles somos envidados para anunciar a boa nova do reino dos céus. Para trazer o espiritual para a Terra. Para unir esses dois mundos e assim transformá-los.

Nesse caminho trabalhamos em harmonia com as forças celestiais e com todos que acordam para essa meta de vida. Trabalhamos para o futuro do Cosmo inteiro.

Julian Rögge

Reflexão para domingo, 4 de agosto de 2024

Evangelho de Mateus 7:1-14

Numa densa floresta ao entardecer, a luz dourada filtra-se através da copa das árvores altas,
lançando sombras salpicadas em um riacho tranquilo que flui suavemente sobre pedras lisas.
No primeiro plano, uma pessoa senta-se calmamente sobre uma grande rocha, meditando
com os olhos fechados, cercada pelos sons dos pássaros e pelo farfalhar das folhas. A quietude
e a tranquilidade da cena estimulam esse indivíduo a buscar a essência de não julgar e
simplesmente ser. Essa imagem nos remete ao chamado do templo de Apolo na Grécia antiga:
“conhece-te a ti mesmo”, que aponta, no transcorrer da história da humanidade, ao propósito
de o ser humano alcançar, no cume da sua evolução, o fundamento do seu próprio ser. 
Enquanto permaneço no dualismo da condição terrena, sem o vínculo com esse
fundamento, faço julgamentos sobre mim e sobre os outros, mas, desse modo, dificilmente
conhecerei a mim mesmo ou ao outro, pois eu não posso de fato fazer julgamentos. O preceito
de Cristo no Sermão da Montanha, “não julgueis para que não sejais julgados” não é apenas
um preceito moral a ser obedecido. Trata-se da condição natural do ser quando alcança a
plenitude do seu próprio ser. Ele não julga mais, ele só ama, e não é que ele ame por
obediência a um preceito, ele ama porque essa é a condição natural do seu ser. No ser puro
ele resgata a sua unidade com o todo, do qual se separou pelo pecado original, entendendo-se
este como viver num mundo separado do divino – um fato, na verdade, impossível, portanto
ilusório – o mundo de Maia. 
Na nossa vida comum, isso parece algo impossível, pois estamos sempre fazendo
julgamentos com base em sentimentos pessoais, ideias preconcebidas, crenças etc. Será que é
possível imaginar a liberação que poderia ser vivida, caso tivéssemos a experiência do puro
ser, desprendendo-nos de todas as amarras psíquicas, sociais, morais? Essa é a proposta de um
caminho meditativo, de silenciar esse ego julgador. Para isso, não necessitaríamos fugir do
mundo, exilarmo-nos como um eremita numa caverna, mas meramente ter a disposição de
separar momentos no nosso cotidiano para contemplar a natureza em busca de puramente
ser.

 Carlos Maranhão 

Reflexão para o domingo, 30 de junho de 2024

Evangelho de Marcos 1:1-11

Imaginemos um vasto deserto árido. O sol bate implacavelmente, o solo está rachado e seco, e o ar está denso com silêncio. No meio dessa desolação, um único broto verde emerge, um símbolo de vida e esperança onde nada parecia possível. Este é o cenário onde ouvimos pela primeira vez a voz poderosa de João Batista, clamando por mudança, anunciando a vinda de algo verdadeiramente transformador. João Batista é o precursor de Jesus Cristo, cuja voz ecoou no deserto, chamando as pessoas ao arrependimento. Mas hoje, enfrentamos um tipo diferente de deserto: o deserto de nossas almas. É um lugar dentro de nós onde nossos desejos mais profundos estão escondidos, sufocados pela secura de nossos tempos. Vivemos em uma era cheia de barulho e distração, onde a voz interior de nossa alma não encontra saída para se expressar. O chamado de João ao arrependimento não foi apenas um chamado para lamentar pecados passados. A palavra grega para arrependimento, “metanoia”, significa uma mudança de mentalidade, uma transformação de toda a nossa perspectiva. É uma mudança profunda em como vemos o mundo, a nós mesmos e a Deus. Nestes tempos difíceis, devemos permitir que este clamor por mudança penetre nas grossas camadas de negação que construímos ao nosso redor. O espírito de João Batista continua a atuar em nosso mundo hoje, preparando o caminho para recebermos Cristo em nossos corações. Ele nos desafia a entrar no deserto de nossa alma, a ouvir esse clamor interior por mudança e a abraçar uma nova maneira de pensar e viver. Então ouçamos a voz que clama no deserto. Encontremos a coragem de entrar nos lugares áridos dentro de nós, enfrentando a secura de nossos tempos e respondendo ao chamado por “metanoia”, uma mudança de mente e coração. Permitamos que Cristo transforme nossas vidas e renove nosso mundo. Ao nos prepararmos para receber Cristo em nossas almas, lembremo-nos de que, mesmo nos lugares mais desolados, uma nova vida pode surgir e a esperança pode florescer.  

Carlos Maranhão