Reflexão para o domingo, 6 de dezembro

Época de Advento

Referente ao Evangelho de Lucas 1, 26-38.

Neste segundo domingo de Advento, Maria é o foco central. A ela é feita a anunciação da chegada do filho de Deus para salvação da humanidade. Podemos dizer que, por meio dela, a humanidade está grávida e espera o nascimento do menino Jesus? Desde os tempo da queda do Paraíso, a expulsão de Adão e Eva por terem comido do fruto proibido, a humanidade esperava a vinda do Messias para efetuar a inflexão fundamental de redenção. O pintor renascentista Fra Angélico em sua pintura “A Anunciação” representou de modo exemplar a importância desse acontecimento, ao colocar o foco principal no coração de Maria para onde se dirige o Espírito Santo na forma de uma pomba, que emana da mão de Deus com num raio de luz. E no canto superior esquerdo do quadro, há uma pequena representação da expulsão de Adão e Eva do Paraíso. Num único quadro temos esse magnífico percurso evolutivo da humanidade que vai da queda ao resgate. Outro elemento importante na imagem é a atitude de Maria, que após o espanto, a indagação, a incompreensão, acolhe em seu coração sua tarefa com uma inclinação devota diante do anjo anunciador, o Anjo Gabriel, cruzando os braços em seu peito em sinal de total entrega à vontade de Deus.
Essa atitude e gesto é a mais sublime indicação de como nós também podemos acolher em nossos corações a vinda do Cristo. Não consideramos essa festa como algo que nos remete ao passado, mas ao futuro, pois como a própria palavra “Advento” indica, trata-se da festa sobre o que há de vir. E mesmo, considerando que se refere a fatos ocorridos há mais de dois mil anos, a cada ano nós revivemos os acontecimentos e nos preparamos para receber o Cristo vivo. Ele não nos abandonou após sua ascensão, mas permanece disponível para todo indivíduo que o quer acolher. É nesse sentido que a humanidade permanece grávida de Cristo após todos esses séculos, e assim permanecerá até que todos o tenhamos acolhido. Enquanto isso, contemplamos a imagem da Anunciação com veneração e respeito, buscando o exemplo da atitude anímica adequada para essa recepção.

Carlos Maranhão

Reflexão para o domingo, 29 de novembro

Referente ao perícope Lucas 21, 25-36

Época de Advento

“…e para ficardes de pé perante o Filho do Homem.”

Ficar em pé, não significa simplesmente se levantar e ficar parada/o. Há um preparo anterior. No Ato de Consagração do Homem, temos dois momentos onde toda a comunidade fica “de pé perante”:
Durante o anúncio do perícope (evangelho) e ao receberem a hóstia o vinho e a benção da paz na comunhão. No primeiro momento tentamos nos liberar de nossas inquietações e formar um espaço interno qual cálice que receberá a palavra viva e sanadora do Cristo. No segundo momento, assumimos nossas debilidades e afirmamos nosso compromisso de ligarmo-nos em devoção à revelação divina.
O que almejamos?
A sanação e o fortalecimento de nossa alma. Preparar-se para ouvir a palavra e comungar requer olharmos previamente para as nossas dificuldades, nossas sombras e dispormo-nos a nos levantar e ficar de pé perante os desafios que representam. Todo esforço nessa direção pode parecer imperceptível, mas no futuro se revelará como os primeiros passos para um dia estarmos de pé perante o Filho do Homem.

Viviane Trunkle

Reflexão para o domingo, 22 de novembro

Referente ao perícope do Apocalipse de João 21

Época de Trindade

„E aquele que estava sentado sobre o trono disse: Eis que faço novas todas as coisas.“

Apocalipse 21,5

Toda manhã, ao nascer do sol, o dia se renova. Todo domingo a semana se renova. A cada germinar de uma semente a natureza se renova. O nascer de uma criança renova a humanidade. E toda a nossa biografia é renovada com uma nova esperança, um momento de amor, um gesto de perdão. Existe no mundo uma força de renovação que é muito mais do que um mecanismo celeste, um casualismo biológico, uma psicologia subjetiva. O que renova o mundo é uma potência divina, é a força que nos criou e que pode abrir um espaço no presente para que aquilo que vem do passado receba um impulso do futuro: seja renovado.

A nossa Comunidade de Cristãos traz, além deste nome, a descrição: Movimento de renovação religiosa. Algumas pessoas entendem a Comunidade de Cristãos como um movimento para a renovação da religião. Mas esta compreensão não abrange a dimensão completa da nossa tarefa. Não se trata somente de um impulso para renovar a nossa vida religiosa. Se trata de um impulso para renovar a nossa vida, de uma forma religiosa. Não são somente os domingos que necessitam de uma renovação. Muito mais são os dias de semana que necessitam de um impulso religioso. O cristianismo atingirá a sua meta quando não for mais visto como uma religião ou confissão. Mas como um impulso que permeia a nossa vida, o nosso dia a dia, do despertar ao adormecer. O impulso do Cristo quer renovar a nossa ligação com o divino, para que não esqueçamos da Sua presença em tudo, em todos, em qualquer momento. Renovar a vida de uma forma religiosa, esta é a nossa tarefa.

João F. Torunsky

Reflexão para o domingo, 15 de novembro

Época de Trindade

Referente ao perícope do Apocalipse de João 7

O fortalecimento da individualidade é uma característica de nossa época. Trata-se de algo que podemos ver como um processo evolutivo natural e necessário em nosso desenvolvimento como seres humanos.
Cada vez mais vemos a nossa volta as expressões destas “marcas” individuais seja nos círculos mais próximos, seja num contexto mais abarcante. Um risco latente deste princípio de individualização, entretanto, se manifesta quando algumas pessoas, por carisma ou oportunismo, imprimem fortemente suas ideias e terminam com isso arrebanhando outros de maneira unilateral. Disto podem nascer tendências radicais e até intransigentes frente a outras posturas que também podem e devem surgir a partir de manifestações individuais divergentes.
Na sociedade moderna (mundial) tal tendência à cisão vem se fazendo notar de modo cada vez mais crescente no incremento das tensões na sociedade civil e comunidade internacional.
O que urge muitas vezes é tornar-se consciente de que a cada momento somos confrontados com a necessidade de tomar decisões. O fenômeno da pandemia trouxe inúmeros exemplos disto:
Aceitamos ou não o uso das máscaras de proteção?
Mantemos ou não o isolamento social/domiciliar?
Queremos tomar esta, aquela ou nenhuma vacina?
Percebe-se que as medidas aconselhadoras ou restritivas dos órgãos de governo, em todos os seus níveis, cada vez menos conseguem exercer um efeito amplo e duradouro nas pessoas, pois justamente cada vez mais o ser humano se sente capaz e no direito de decidir o que é melhor para si.
Certa vez uma frase lida num livro deixou-me refletindo:

450 milhões de dólares disponíveis,
anualmente, para o homem chegar
a Marte.
450 milhões de crianças
com fome chegam
à Morte.*

Trata-se aqui também do mesmo princípio:
Qual é a minha escolha frente a essa situação? Qual das frentes me sensibiliza mais e, portanto, me mobiliza a fazer algo?
Se temos consciência dos desdobramentos das escolhas que fazemos em nossas vidas, perceberemos, em algum momento, que estaremos contribuindo numa ou noutra direção. Tanto nesta quanto nas inúmeras questões que a vida moderna nos traz.
Talvez não seja arriscado dizer que os tempos modernos nos colocam, de certo modo, diante de um importante divisor de águas na evolução do ser humano e da Terra, pois serão as escolhas conscientes que fizermos que possibilitarão delinear caminhos futuros (isto, se não quisermos abrir mão do direito de fazer escolhas em prol da escolha de outros que estão ávidos por decidir no lugar de cada um que se omita – o que em si não deixa de ser também uma escolha…).
Na linguagem imaginativa do Apocalipse, este princípio aparece na imagem do selo “impresso na fronte” dos filhos de Israel.
Aqui se deve entender que se tratam de todos aqueles (multidões de todas as tribos, nações e línguas) que, com consciência, decidem deixar-se impregnar nos pensamentos (na fronte) pelo impulso (selo) do Cordeiro (Cristo) para que tais impulsos iluminem o sentir (vestes brancas) e vivifiquem o querer (palmas nas mãos) humano individual.
Retornando à frase anterior:
Não sabemos se algum dia o ser humano chegará a Marte e que benefícios isto trará para a humanidade ou para alguns poucos. Entretanto sabemos bem que por algumas de nossas decisões cotidianas podemos contribuir para que seres humanos, em especial, os mais jovens, não tenham que ser abandonados à morte.

“…pois [por causa do Cordeiro] nunca mais terão fome, nem sede, nem calor algum lhes atormentará”

Renato Gomes

*Paco Cac [Paulo Cézar Alves Custódio], no livro “Pulso” Brasília: Edição do Autor 2004

Reflexão para o domingo, 8 de novembro

Época de Trindade

Referente ao perícope do Apocalipse de João 3

Comparada aos seres humanos, a natureza é um milagre de perfeição. Quando precisamos de paz interior, sempre ajuda dar um passeio por uma paisagem natural. É bom sentir o vento fresco no rosto, observar a liberdade dos pássaros, observar o movimento da água no lago ou no rio e admirar a beleza das folhas das árvores no chão. Nossa alma se acalma aos poucos, como se tentasse imitar a natureza. E quando reclamamos do tempo, quando está muito frio ou muito quente ou muito úmido para nós, não demoramos muito para perceber que essas mudanças no clima fazem parte do equilíbrio dos ritmos das estações.

O corpo humano também é perfeito porque, entre outras coisas, é um fenômeno natural. E se não fosse por nossos abusos, teria uma tendência constante em manter-se sano. Mas não precisamos olhar muito em nossa alma para perceber o quão longe estamos dessa perfeição com todas as nossas fraquezas e dificuldades em tentar melhorar nosso caráter. Mas, sem dúvida nos damos conta que vivemos em processo de aperfeiçoamento, essa é a nossa natureza.

Lemos no Apocalipse de João sobre a comunidade de Sardes, que representa justamente a condição do ser humano no seu processo e de, quanto está ainda aquém daqueles que serão revestidos de vestes brancas, ou seja, os que puderam por meio do Cristo purificar suas almas. Surge um desejo profundo de que possamos também estar entre eles. Saber como as roupas da nossa alma estão sujas nos ajuda a decidir lavá-las. Mas essas vestes não podem ser lavadas em água alguma, mas devem ser alvejadas no sangue do Cordeiro. O branqueamento é o nosso próprio processo de autoconhecimento e autotransformação tendo o Cristo como modelo. Estamos no processo, não importa quanto tempo ele possa durar, mas prosseguimos continuamente.

A consciência de nossa impotência permite que nos conectemos com Cristo, obtendo dele a força para continuar. Enquanto isso, podemos continuar a observar a natureza. Sua perfeição nos estimula a nos conectar com a fonte primordial de toda beleza e seguir adiante em nosso processo.

Carlos Maranhão

Reflexão para o domingo, 1 de novembro

Referente ao perícope do Apocalipse de João 1

Na ilha de Patmos João recebe o apocalipse. Em uma primeira imagem vemos aquele que fala: “Não tenhas medo. Eu sou o Primeiro e o Último, aquele que vive. Estive morto, mas agora estou vivo para todo o sempre.” Podemos reconhecer o ressurreto, o Cristo.

Ao mesmo tempo, se manifesta nessa imagem o Filho da Humanidade, nosso ideal e meta de desenvolvimento. Ele é descrito com certos atributos e qualidades. Temos as imagens das vestes e dos cabelos. Outras que trazem as qualidades ligadas às forças da natureza, com o fogo e a água. E ainda as imagens que representam forças cósmicas: as estrelas, a palavra e o brilho do sol. Podemos nos perguntar o significado dessas qualidades e como podemos desenvolvê-las.

O Cristo nos precedeu no desenvolvimento das qualidades humanas. Seguindo seus exemplos e trabalhando as imagens do apocalipse podemos desenvolver pouco a pouco tais qualidades. Esse pode ser um caminho para a humanidade tornar-se frutífera para a Terra e os céus. As grandiosas imagens do apocalipse acompanham o desenvolvimento da humanidade que culminará na Nova Jerusalém.

Julian Rögge

Reflexão para o domingo, 25 de outubro

Referente ao perícope da carta aos Efésios 6

“Revesti-vos de toda a armadura divina, para poderdes permanecer firmes contra as ciladas do adversário do homem.”

Efésios 6

O odor é algo que se propaga ao derredor daquilo que o exala, atraindo ou repelindo determinados seres. Algo com muito fedor atrai, por exemplo, moscas-varejeiras, enquanto uma flor, que exala um perfume suave, atrai borboletas. Nosso corpo também tem seus odores, alguns agradáveis, outros desagradáveis. Mas muito mais importante que os odores do corpo são os odores da alma. Em relação à alma, não se costuma falar em odores, mas em astralidade. Também nossa astralidade possui diferentes qualidades, às vezes como um fedor, às vezes como o perfume suave de uma flor. Insatisfação, crítica, fofoca, mentira, ódio, fedem; enquanto confiança, compreensão, verdade, amor, têm a qualidade de um perfume. Na realidade, os seres que nos rodeiam são atraídos ou repelidos por nós mesmos. Às vezes atraímos, por assim dizer, “borboletas”, às vezes “moscas-varejeiras”.

O Apóstolo Paulo, em sua carta aos Efésios, nos aconselha a vestir a armadura divina, com justiça, paz, fé, veracidade. Vestir a armadura divina significa trabalhar a própria astralidade. A luta que temos de lutar é aquela que travamos conosco mesmo. Quanto mais superarmos a negatividade e nos vestirmos com a positividade, tanto mais os demônios, que antes eram atraídos pelo fedor da nossa alma, se afastarão, e os anjos, atraídos pelo perfume suave, dela se aproximarão.

João F. Torunsky

Reflexão para o domingo, 18 de outubro

Referente ao perícope do Apocalipse de João 19

“Existe uma definição de indigeneidade, na minha perspectiva, que vai além de ser um indigena nativo de um certo lugar. Trata-se de ser nativo, nascer como um ser humano, algo que é muito mais antigo e inclui todos, inclui cada ser humano.”

Gregory Cajete

Professor universitário, educador indigena do Novo México, EUA

No pensamento deste educador, nascido na comunidade indígena de Tewa, percebemos que ele aponta para a terminologia “ser nativo” vinculada a outro termo, “povos nativos”, muitas vezes usados para denominar os povos indígenas originários deste continente. No pensamento de Gregory Cajete vive a ideia de que todos somos nativos de algum lugar e que em verdade é fato inerente a todo ser humano ser nativo do nosso mundo, nativo da Terra. Esta é a vivência primordial que todos compartilhamos, independente do lugar de nascimento. De nossa origem espiritual viemos à Terra para nos tornarmos nativos humanos. Nosso mundo é um só, apesar de sua imensidão e da diversidade de regiões e paisagens que nele existem. Trata-se, portanto, de um conceito simples e antigo, que os povos que habitavam este continente já o cultivavam em sua cultura.

Ao mesmo tempo, é um conceito moderno e em certa medida, futurista, pois faz-se necessário na atualidade e nos próximos tempos que tomemos seriamente este princípio. Todos compartilhamos o mesmo mundo. Quando o destruímos, quando o contaminamos, quando queimamos (ou deixamos queimar) estamos destruindo, contaminando ou queimando o nosso próprio ambiente nativo. Derrubar a floresta, queimar o pantanal, drenar os manguezais é como derrubar, queimar e soterrar nossa própria casa, fazer tudo isto com um local importante e significativo para todos nós. Não querer perceber este fato faz parte da miopia e da ganância que assola os tempos presentes e se alastra pelo mundo com consequências mais nefastas ainda que a própria pandemia dos tempos modernos. Somos nativos da Terra, filhos da Terra. Viemos aqui para aprender isto: a conviver em harmonia com a Terra e com os demais seres humanos que nela vivem!

Todo o capítulo 19 do Apocalipse nos remete a uma situação que pode encontrar na atualidade seus paralelos. Menciona inicialmente a grande “corrupção” que havia se instalado sobre a Terra e que chegou o momento de levantar a voz e atuar com “cetro de ferro” diante das infidelidades e mentiras que o próprio ser humano acabou criando. Pois, o ser humano se torna infiel em sua relação com própria Terra, quando a explora e a destrói; se torna insincero quando engana a si e aos demais com mentiras sobre os motivos pelos quais promove esta destruição. Na visão do cavaleiro montado no cavalo branco, que é fiel e verdadeiro, aparecem também aqueles que querem elevar sua voz e combater a seu lado. No contexto do apocalipse, estes, que estão vestidos de linho, vêm de todos os povos, línguas e nações da Terra. Trata-se de um empreendimento comum a todos! Todo “nativo da Terra” – parafraseando o prof. Cajete – é chamado a tomar consciência do que se passa a nossa volta e com coragem buscar impulsos para nosso atuar. Eis aqui um dos muitos desafios (micaélicos) de nossos tempos!

Renato Gomes

Esta reflexão está dedicada ao Cacique Raoni Metuktire, líder indígena brasileiro da etnia caiapó, que recentemente teve o seu nome indicado para o Prêmio Nobel da Paz, mas lamentavelmente não foi laureado. De qualquer modo sua longa e fiel luta pela Terra tem um enorme valor para todos os que de fato se sentem “nativos” da Terra.

Reflexão para o domingo, 11 de outubro

Referente ao perícope de Apocalipse 12

Poderíamos pensar que a imagem da mulher vestida de sol com a lua a seus pés poderia personificar a sabedoria cósmica que se manifestou desde tempos imemoriais como Ísis-Sofia ou mais tarde como a Virgem Maria. Na Idade Média, as sete artes liberais também eram representadas por figuras femininas. Mas não se tratava apenas de representação simbólica, mas uma personificação como vivenciou Boécio ao se deixar consolar pela grande dama, a Filosofia. Mas isso são águas passadas. A civilização se masculinizou a tal ponto que essas imagens só permanecem como figuras míticas e românticas.
Hoje, poderíamos considerar a emancipação da mulher e contemplar um futuro resgate do eterno feminino, em busca do equilíbrio entre as polaridades como uma tendência inexorável, dependendo apenas de um tempo de maturação das mentalidades. Assim, também o papel micaélico de administrar a inteligência cósmica em nossos tempos poderia tomar uma nova dimensão. Como podemos vislumbrar um espírito comunitário futuro na direção desse equilíbrio entre as forças amadurecidas do Eu e do amor crístico unido às qualidades mais fluidas que abarcam a totalidade com as diferentes características individuais. O ideal de unir a força incisiva e certeira do pensar cósmico objetivo às forças individualizadas do coração. Ou mesmo, se tomarmos a arte como meio de cultivo do sentir e a religião como resgate da integridade do ser humano, reunir o que a história separou: ciência, religião e arte. Sabemos dos perigos de instaurar utopias à força por grupos que tenham decidido arbitrariamente quais são os ideais. Mas pensar utopias não deveria ser proibido, pois ajudam a vislumbrar que tipo de sociedade queremos para o futuro.

Carlos Maranhão

Reflexão para o domingo, 4 de outubro

Referente ao perícope de Mateus 22
“O reino dos céus é como…”
Este versículo se inicia com estas simples palavras, e então segue-se uma descrição de imagem próxima à nossa compreensão terrena.
Podemos interiorizar ainda mais a imagem: “O reino dos céus é como um rei, um rei é como um ser humano…”
O Eu superior humano está se preparando para um matrimônio, para a união eterna com o divino. Ao longo de sua existência de encarnação em encarnação ele pode ascender cada vez mais, através da missão humana na Terra. Ele permeia cada vez mais seu eu inferior, sua alma e seu corpo físico. Este permear é o resultado de nosso esforço em direção ao desenvolvimento espiritual. Assim possibilitamos ao nosso Eu, nosso rei, preparar o casamento. O alimento está pronto: a beleza da alma está cultivada. Finalmente podemos trazer os convidados para o festejo! Enviamos nossos servos ao mundo para levarem o convite. Nossos servos são nossos sentidos e ações quando cultivados. Estão a nosso serviço. Neste momento, temos a força necessária de abrir as portas da alma para todas as suas nuances, para os seres que a habitam e que fazem parte de nós. Em conjunto compartilharemos a alegria da futura união.
Mas, somos levados a perceber que nossa estadia na Terra traz consigo seus percalços. Muito em nós se perde na falta de interesse genuíno pelo outro, no orgulho, na soberba, na atomização. Este é o reflexo do ser humano no espelho dos convidados. Somos em grande parte: “Indignas criaturas”.
E é neste momento difuso e dramático onde Cristo nos entrega uma chave em mãos:
“Ide pois, lá, onde os caminhos se encontram e se cruzam, e chamem para o casamento quem vocês encontrarem” – Maus e bons.
Há aqui uma tarefa. Olhar para a própria alma e reconhecer que há nela o bem e o mal. Aprender em humildade a convidá-los para o casamento, cuidando para que nosso trabalho interior os purifiquem a ponto de receberem uma nova veste. O traje nupcial.
Nosso eu deve estar atento e alerta para os convidados em nossa alma. Para o que  todavia não estiver à altura de receber o traje, nossos servos devem dar especial atenção. O rei o trata de forma amistosa: “Meu amigo…”
É no emudecer deste convidado, onde nosso Eu superior pode perceber que se trata de um força fora do lugar. Ele ativa nossos sentidos e ação para contê-la e colocá-la em seu devido lugar. No lugar das forças que ainda não foram depuradas. As trevas exteriores, o choro e o ranger de dentes estão também em nós. Mas estão à parte de nosso relicário mais puro. Daquilo em nós que deve seguir imaculado. Nosso ser mais íntimo. É neste relicário onde Cristo pode atuar, se assim o quisermos e permitirmos. Ao ouvirmos seu chamado, ao nos prepararmos ao longo das repetidas encarnações, nos será permitido irmos adiante…

Viviane Trunkle