Referente à perícope do Evangelho de João Mateus 7, 1-14
Neste artigo, pretendo limitar-me ao primeiro conselho pronunciado por Jesus no começo do último capítulo do Sermão da Montanha.
Não julgueis
Julgar – uma capacidade imprescindível do ser humano, na vida de hoje em dia. Como poderíamos viver sem distinguir entre verdade e mentira, entre bonito e feio, entre bem e mal? Além desses julgamentos fundamentais, sempre são necessários pequenos e grandes julgamentos. Em nosso trabalho, mas também em outros momentos, sempre temos que julgar, por exemplo, quais são as prioridades atuais e o que poderia ser feito mais tarde. Ainda na idade escolar e mais tarde na formação profissional, aprendemos muitos conceitos para futuramente poder entender e julgar quais são as decisões necessárias conforme a situação. É essa a diferença entre os seres humanos e os animais, pois estes seguem os ritmos das estações do ano e, ensinados pelos seus órgãos (Rudolf Steiner) e pelo instinto, nunca precisam julgar conscientemente.
A quem devemos essa faculdade fundamentalmente humana? A Bíblia nos dá a resposta: É a serpente (quer dizer, Lúcifer) que nos proporcionou esse dom, seduzindo Adão e Eva para comerem do fruto proibido. Primeiro, a serpente diz uma mentira: Não morrereis. E, em seguida, promete três faculdades desejáveis (Gênesis 3, versículos 4 e 5):
- Os vossos olhos serão abertos,
- Sereis como Deus,
- Sabereis distinguir o Bem do Mal.
Ainda hoje sofremos as consequências geradas pela promessa da serpente ou, em outras palavras, até hoje servimo-nos diariamente dessas faculdades. Não é difícil perceber a influência de Lúcifer nessas três faculdades:
- Os nossos olhos estão abertos, mas enxergamos somente o lado exterior das coisas.
- Em muitos aspectos, comportamo-nos como se fôssemos o Deus do Mundo, explorando a Terra de maneira egoísta e aspirando a conquistar até os espaços celestes.
- Sabemos julgar entre o Bem e o Mal, mas muitas vezes visamos somente o nosso próprio bem-estar.
Em consequência da Queda, Adão e Eva são expulsos do paraíso. Esse fato sempre é visto como um castigo. Mas, por outro lado, pode ser uma ajuda, uma espécie de remédio para a humanidade se tornar independente e para ela, no futuro, conquistar a liberdade. De certa maneira, até Deus confirma essa vantagem, em Gênesis 3, 22: “Olha, Adão tornou-se como um de nós, sabendo o bem e o mal”.
No Sermão da Montanha (Mateus, capítulos 5, 6 e 7), o Cristo mostra-nos como podemos, em plena liberdade, excluir a influência de Lúcifer. A morte, todavia a última consequência da expulsão do paraíso, somente será vencida pela Morte do próprio Cristo.
Como julgar de uma maneira sadia? Rudolf Steiner ensina no livro Como se adquirem conhecimentos dos mundos superiores?, no capítulo Sobre alguns efeitos da iniciação: Devemos ser cautelosos com o nosso julgamento. Não é bom pensar e logo emitir um julgamento (resumo e tradução de F.Z.).
Goethe, na sua teoria das cores e também na metamorfose das plantas, exerce essa mesma paciência para com o julgar. Com a máxima dedicação, ao observar os objetos e as suas modificações, ele espera perceber o que os próprios objetos lhe mostram, antes de formar algum julgamento ou formular alguma teoria.
Finalmente, o conto dos irmãos Grimm O Alfaiate no Céu nos ensina de forma humorística algo sobre o julgar impróprio. Eis um resumo do conto:
Certa vez, quando o Nosso Senhor estava fora do céu, um alfaiate astuto conseguiu entrar no céu. Muito curioso, ele espiava por todos os cantos e viu no centro do céu uma cadeira alta, preciosamente ornamentada: o trono do próprio Deus. Sentou-se no trono. De lá, ele pôde enxergar todas as coisas da Terra. Viu uma velha senhora, que nesse instante furtava alguns panos. Muito indignado com isso, pegou o banquinho dourado de Deus e arremessou-o contra a senhora. Quando Deus entrou, o alfaiate confessou o que havia acontecido. Deus respondeu: “Se eu julgasse como você, já não haveria mais móvel algum no céu. Julgar só cabe a Deus”. E o alfaiate teve que abandonar o céu.
Friedhelm Zimpel
Errata
Nas reflexões de Pentecostes, dia 24 de maio de 2026, infelizmente ocorreu um engano com respeito à frase citada de João Guimarães Rosa: “Tudo, aliás, é ponta de um mistério.” Essa frase não consta de Grande Sertão, Veredas, mas sim do livro Primeiras Estórias, Editora Nova Fronteira, 14ª ed. Rio de Janeiro, pag. 65, Estória N° 11 — O espelho.