Reflexão para o domingo, 8 de março

Referente à perícope do Evangelho de João 6, 1-15

Lucas Cranach, 1535-1540.

A paixão de Cristo já começa no momento do batismo, quando o espírito do Cristo se liga à natureza terrena de Jesus e assim, passo a passo, o Filho de Deus vai se tornando Homem. “O Verbo se fez carne” – esse é o processo descrito no Evangelho de João, que começa no batismo no Jordão e se cumpre totalmente quando, na cruz, Jesus Cristo antes do seu último suspiro diz: “Está consumado”.
Não podemos imaginar a dor que este ser divino sentiu nesse processo comparável à compressão de um ser cósmico eterno e infinito em um ser microcósmico corporal e transitório, ou ainda comparável a uma intensa e dolorosa cristalização.
Nos três anos, do batismo à morte na cruz, o Cosmo se contrai num ponto: a corporalidade terrena de Jesus. Esse imenso sacrifício, permeado pelo infinito amor divino, atua por outro lado na natureza humana, de tal maneira que a partir da ressurreição todo ser humano ganha como corpo, alma e espírito um novo acesso às forças redentoras crísticas. Esse processo começa primeiro entre os seus discípulos e seguidores e se estende depois da ressurreição à toda a humanidade.
Jesus Cristo sobe repetidas vezes com seus discípulos e com a multidão, que frequentemente os segue, uma montanha para, nas alturas – não só no sentido do mundo sensorial, mas também no sentido espiritual – estabelecer novamente a relação perdida com as fontes de vida e luz divinas. Das alturas começa a fluir consolo, cura, luz e vida…
Assim foi na Páscoa do ano anterior à morte na cruz para a alma humana, lá na outra margem do mundo, na presença de Cristo poder receber a substância divina abençoada, o alimento da alma, que já não estava mais acessível nessa época. Essa substância divina pode ser encontrada quando, na procura da superação dos males terrenos, pessoas se reúnem com a mesma intenção de obter a cura que vem das alturas. Para isso, faz-se necessário sentar em grupos sobre a relva verde, o que acontece na prática de um caminho espiritual, quando nos afastamos do quotidiano e das preocupações terrenas para nos dedicar a um estudo espiritual, à oração ou meditação. Nesse ambiente de calma interior, dentro da alma humana, encontra-se uma criança que traz um pouco do alimento divino. Essa criança que ainda pouco se destaca, mas que carrega muito potencial para o futuro, é o “Eu superior” na alma humana. E o alimento que traz foi descrito por Jesus Cristo no Evangelho de João, “fazer a vontade do Pai”. Quando fazemos a vontade do Pai, aquilo que ainda apenas brotara dentro da alma, o Eu crístico, ainda quase que imperceptível, cresce e se fortalece. Ele espiritualiza a alma, que vai se tornando uma imagem do Cosmo com o Sol no meio das 12 constelações zodiacais, chegando a dispor de 12 qualidades espirituais. A alma humana individual se torna apta a formar comunidades espirituais, que aliadas aos seres divinos transformam o mundo.
Caminhemos com o Cristo na sua paixão, descobrindo o mistério do seu feito único em toda a história da humanidade, em profunda devoção e gratidão!

Helena Otterspeer