Referente à perícope do Evangelho de Lucas 18, 18-34
“Que devo fazer para alcançar a vida eterna?” – pergunta o jovem rico.
Uma pergunta feita a partir de um olhar para o futuro. O que se perguntaria um jovem nos dias de hoje? Talvez: “Que devo fazer para assegurar-me um futuro tranquilo?”
A pergunta em relação ao futuro nos ocupa a todos, jovens ou velhos, pais ou filhos. O nosso futuro e o de nossos descendentes nos preocupam bastante.
Há, entretanto, tantas ofertas de seguros: de vida, de saúde (ou de doenças), de automóvel, contra incêndios, contra roubo… Todos eles se baseiam no princípio de acumulação: como garantir que meu patrimônio – a casa, o carro, os bens adquiridos – permaneçam, mesmo que aconteçam desastres naturais ou acidentais, ou que venham a ser roubados ou destruídos. Se temos algum tipo de apólice de seguro, estaremos garantindo para o futuro que o que acumulamos não se perca.
Com a saúde não é diferente, pois se contratamos algum tipo de seguro de saúde vamos acumulando um capital com as cotas mensais que pagamos, para o dia em que precisarmos, esse valor “acumulado” nos permita afrontar os altos custos de remédios ou internações em decorrência de algum problema de saúde.
Também com os chamados “seguros de vida”, posto que o que for acumulado, se reverterá para aos familiares ou beneficiários que tenhamos elegido.
Acumular é a ideia central que, no sistema de social em que nos encontramos, rege a forma de sentir e de pensar na modernidade. Se queremos alguma garantia para algo no futuro, temos que começar hoje a acumular!
A resposta de Cristo é, entretanto, bem diferente: “Vende tudo o que tens e dá-o aos que necessitam!”
Aqui aparece o gesto oposto: vender, dar, se desfazer, se desvincular do que se possui, em lugar de acumular mais ainda. Pode parecer um paradoxo! Contudo sabemos que não estamos tratando aqui de da riqueza medida em bens materiais, mas de outra qualidade! Na natureza se criamos uma barragem num curso d’água, a água represada se acumula, forma um tanque ou um lago. (Sabemos que não é possível represá-la por completo e por isso sempre há um lugar onde ela continua a fluir.) É nítida, porém, a diferença entre a água fresca e cristalina de um riacho que desce pura das montanhas, e a água represada em algum dique artificial. Aqui se vê o essencial: na natureza viva, o que se represa, o que se estanca e se acumula, perde em vitalidade. E se, por algum motivo, certa quantidade de água ficar totalmente represada sem qualquer renovação, terminará formando um local pantanoso e morto!
A água represada é uma expressão exterior do que acontece com o fluir das forças de vida. Se forem estancadas elas não aumentarão, ao contrário, perderão a capacidade de fomentar a vida. Também em nosso corpo. Se impedirmos o fluxo do sangue e dos líquidos de um membro, este gangrena e morre. Só há vida num membro se ele permanece unido no fluxo vital que flui e permeia todo o organismo.
Os elementos materiais podem ser acumulados, guardados em cofres; eles se preservam aí, ainda que talvez se empoeirem, percam um pouco o brilho e envelheçam pouco a pouco. A vida, entretanto, não se deixa represar ou acumular, ela permanece e gera nova vida somente se permitirmos que flua. Assim como a recebemos, deixamos ela ir-se, pois somente desse modo nos matemos no ciclo da vida.
Eis a proposta que Cristo faz àquele jovem. Deixa ir, deixa fluir através de ti, a vida, a cada dia, hoje, sempre. Assim se chega à vida eterna, aquela que flui initerruptamente. Portanto, vem, segue-me e mantém-te em movimento, “pois Eu vim para que tenham vida, que a tenham em abundância!” (João 10,10)
Renato Gomes
Pastor da Comunidade de Cristãos em Campinas