Referente à perícope de 1 João 4, 7-12
Neste tempo luminoso entre o Natal e a Epifania, quando no hemisfério Sul vivenciamos dias longos, claros, cheios de vida, somos convidados a deixar que essa luz não fique apenas fora, mas encontre espaço dentro de nós, na forma do amor de que fala João.
“Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus.”
Assim começa o apelo de João. Ele não o coloca como um mandamento de obediência, mas como um convite a entrar num processo vivo. Ele não nos pede que produzamos o amor por esforço próprio. Ele nos lembra que o amor vem de Deus. Isso muda tudo, pois amar não é cumprir um ideal elevado que está sempre além de nós, mas aprender a acolher algo que já nos precede, que já nos foi dado.
Por isso, o caminho do amor começa, paradoxalmente, por um gesto interior muito humilde: permanecer. Permanecer na verdade de quem somos, com nossas limitações, nossas feridas, nossa distância do ideal. Só quem aprende a habitar a própria realidade com honestidade pode, pouco a pouco, abrir espaço para que o amor de Deus se torne ativo. Se o amor se manifesta como presença, então ele não pode ser produzido como uma técnica nem alcançado por acumulação de esforço. Nesse sentido, amar é muito mais um desaprender do que um aprender. Ou, talvez melhor dizendo, é um aprender a retirar-se.
Por isso, o caminho não é perguntar: “Como posso amar mais?”, mas algo mais incômodo e mais honesto: “O que em mim impede que o amor se manifeste?” Talvez seja esse o chamado para nosso tempo, que fala tanto de amor e vive tão pouco dele: não um ideal mais alto, mas um coração mais livre de obstáculos.
Quando nos amamos uns aos outros — diz João — Deus permanece em nós. E onde Ele permanece, o amor deixa de ser discurso e começa, silenciosamente, a tornar-se presença.
Carlos Maranhão