Referente à perícope do Evangelho de Lucas 18, 35-43
Podemos parar, “no grito”, a correnteza de um rio? Normalmente quem está sentado à margem percebe o movimento das águas, percebe como tudo flui diante de si, mas não tem poder para freia-las.
Existe, porém, um rio onde alguém à margem, num ímpeto de vontade, consegue por instantes, frear o fluxo!
Nosso sangue circula numa corrente ininterrupta durante toda nossa vida. No entanto, este, que está sentado à margem, consegue no grito – esse grito se chama sístole – interromper o fluxo e assim, ao trazê-lo para a margem, começa a dialogar com ele e no instante seguinte – que se chama diástole – o que se encontra à margem – a quem chamamos coração – interrompe seu grito e ouve o que aquele que foi tirado do fluxo tem para dizer-lhe:
Por que me interrompeste?
Que queres de mim?
E o coração, cego para tantas coisas, mas vidente para o que de fato importa, responde àquele que flui na corrente de vida do sangue, mas que, por instantes, foi retirado do seu fluxo:
Dize-me, o que contas de lá, de onde tu vens?
Conta-me, ainda, aonde vais?
E o que foi retirado do rio responde:
Vem, segue-me e tu verás!
E o cego da margem percebe que na verdade não era cego, nem nunca esteve fixado a lugar algum, mesmo que alguns de fora insistissem em dizer que ele deveria ficar quieto, imóvel no seu lugar de costume.
Pois, em verdade, o coração vidente sabe que, com seu grito, pode frear o rio; e que pode também, sempre que queira abrir os ouvidos, seguir o sutil fluxo da vida, quando aprende a olhar na direção certa.
Renato Gomes
Pastor da Comunidade de Cristãos de Campinas