Referente à perícope do Evangelho de Lucas 9, 1-17
Imaginemos a flor do campo. O destino a enviou àquele solo, o vento trouxe a semente da qual nasceu. Ali — sem esforço calculado — cresceu, floresceu e ofereceu sua beleza a todos os que por ali passavam. Chegou ao auge de seu esplendor e, sem preocupação alguma, entregou suas sementes a um futuro que não planejou.
Quando Jesus envia os discípulos, Ele antes lhes dá poder sobre os espíritos impuros e sobre as doenças — um poder que não brota deles próprios, mas que lhes é concedido. E então lhes ordena: “Não leveis nada convosco, nem pão, nem alforje, nem dinheiro; apenas a roupa do corpo.” Podemos tentar imaginar o que significa isso: sair despojados de toda segurança, sem provisões, sem reservas, sem cálculos antecipados. Isso contrasta fortemente com nossa época, em que prevalece a chamada ‘lei de Murphy’: “se algo pode dar errado, dará.” Nossa civilização se molda sobre a prevenção, sobre o seguro, sobre o planejamento do conforto — não apenas para sobreviver, mas para viver supostamente bem.
Mas o Evangelho nos aponta noutra direção. Ele nos convida a viver com confiança total no Cristo, a confiar no guia espiritual que tudo vê, a ousar caminhar na fé em vez de no medo. O envio dos discípulos não é um apelo à imprudência, mas ao despojamento interior: não depender daquilo que acumulo, mas da força que me é dada. É claro que tomamos cuidados no dia a dia, e não precisamos abrir mão deles de forma literal. Mas Jesus nos mostra que a questão é mais profunda: trata-se da atitude do coração. Eu posso preparar o necessário, mas o essencial é manter o coração livre de prevenções, despojado de apegos, disponível para o próximo.
Todos nós, desde o nascimento, somos enviados. O destino nos conduz aos nossos irmãos e irmãs, não importa qual seja nossa ocupação ou missão. Cada encontro humano é como chegar à casa de um anfitrião: recebemos o que ali houver, sem exigências, e nossa única tarefa é anunciar o Evangelho da paz e curar a dor, a ferida, a solidão, a desesperança. Assim como a flor do campo que cresce, floresce e entrega suas sementes ao vento sem querer retê-las, somos chamados a esse despojamento: a viver confiantes, livres de pesos interiores, desapegados das seguranças que nos paralisam. Cristo nos envia, e no envio está a promessa: o que nos é necessário nos será dado.
Carlos Maranhão