Sermão

Reflexão para o domingo 18 de fevereiro de 2018
Época da Trindade

Referente ao Evangelho: Mateus 4, 1 – 11

No deserto Jesus é confrontado com três diferentes tentações.
Como círculos concêntricos, elas se ampliam, tomando cada vez âmbitos maiores.

No início foca-se numa questão individual: “Ele teve fome”. Trata-se de uma necessidade orgânica, pertinente apenas a Ele mesmo.

A seguir a influência se estende ao povo judeu, pois se tivessem vislumbrado o milagre de Jesus, demonstrando que é capaz de invocar forças divinas para superar as condições terrenas, Ele teria recebido o reconhecimento e a veneração ante os olhos do povo.

No terceiro momento Ele é “… elevado a uma montanha muito alta para ver todos os reinos deste mundo”. Aqui se fala de conseguir riqueza e poder em âmbito mundial, uma influência que se ampliaria a toda a humanidade.

A tentação se amplia, a partir do

• individual
• passando pelo coletivo ou social mais próximo
• até chegar à humanidade

O tentador age a partir de impulsos nitidamente humanos que têm sua origem:

• no instintivo corpóreo(pão)
• na fascinação anímica evocada ante os olhos dos demais (reconhecimento/veneração por parte do círculo social onde se atua)
• na aquisição de poder sobre outras(todas) pessosas (riqueza e poder sobre todos os reinos deste mundo)

Num primeiro momento, pode parecer que tudo isto que o Evangelho nos descreve é algo muito distante de nós, entretanto se nos observamos com atenção, se nos conhecemos bem, se praticamos e exercitamos o auto-conhecimento, notaremos que de um modo sutil esta atuação do adversário também acontece em nosso interior. Está claro que não é de um modo tão evidente e explícito, como nos é apresentado no Evangelho.

Quem não conhece a situação de que impulsos instintivos emergem na alma e que gritam para serem saciados. Não significa que não respondamos às necessidades reais do corpo, mas toda nossa educação nos aponta que não temos apenas o lado instintivo (animal), mas que justamente a dimensão humana começa alí, onde somos capazes de sobrepor ao instinto algo diferente. O simples exemplo, que passamos às nossas crianças, que antes de se “atirar” pela fome à comida a nossa frente, interpomos um momento para agradecer, para dizer uma oração, e somente então tomamos o alimento…

Quem não conhece o agradável sentimento de ser admirado, de se perceber numa luz diferente que fascina e agrada a quem está a nossa volta. Na vida muitas vezes somos chamados a fazer coisas, a dizer coisas, que podem ser muito boas e muito úteis aos demais. Tudo isto é bom; complicado fica quando a motivação maior de fazer ou dizer algo surge capciosamente do desejo de ser reconhecido e admirado e não do valor da ação em si e do benefício que possa trazer a outro, independente de recebermos glória ou agradecimento…

Quem não conhece o desejo de, em certas situações, ser capaz de influenciar a vontade de outros, de ter o poder de impor nossa vontade sobre a dos demais, quando o grande desafio da modernidade está no diálogo, na interação e na capacidade de tolerância e integração das diferenças individuais em benefício e desenvolvimento do todo…

Cristo soube resistir a estas situações, pela concentração de sua força interior naquilo que nos aponta à verdadeira meta do ser humano! O Evangelho ao descrever-nos esta passagem, já antecipando a próxima época do ciclo das festas do ano, a época de Paixão, nos trás bem à consciência que estas mesma força existe em nós, pois resistir ou vencer uma tentação representa o esforço de ouvir esta voz interior e não se deixar iludir por “vozes” que nos “sussurram” qualquer coisa que nos afaste daquilo que somos e acreditamos.

Sim, assim seja!
Renato Gomes